Gratificações
Já não encontro nos jornais tão frequentemente como noutros tempos aquelas pessoas que escrevem bem e nos arrastam da primeira à última linha dos seus textos sem qualquer dificuldade e com todo o prazer. Mas não costumo falhar as crónicas de João Taborda da Gama no Diário de Notícias, sobretudo se os temas me interessarem. Uma das últimas que li dizia respeito, entre outras coisas, a impostos sobre gorjetas – e a verdade é que me senti «gratificada» pela leitura, tendo aprendido muita coisa. Descobri, por exemplo, que a nossa palavra «gorjeta» vem efectivamente de «gorge» (garganta em francês); e faz, aliás, todo o sentido que assim seja, uma vez que «gratificação» em francês se diz justamente «pourboire» (para beber, à letra), ou seja, dava-se um dinheirinho a alguém que nos fizera um serviço para ir molhar a garganta (a «gorgette» será algo como um golinho; e até seria giro dizermos: «Obrigada. Tome lá para um golinho.»). O cronista presume que esta forma de retribuição é um pouco estranha (talvez porque hoje pensemos que, ao dar uma gorjeta, estamos no fundo a dizer «vá tomar uma cervejinha», a alimentar o alcoolismo), mas depois conclui que, muito provavelmente, essa palavra remonta a um tempo em que alguém tinha de fazer por vezes um longo percurso para cumprir o serviço (imaginem: ir entregar uma encomenda a pé) e, por isso, merecia um copinho de água. Um dia destes vou pôr-me a investigar donde vem «tip», a gorjeta inglesa…
Interessante. E também eu, aqui, me sinto impelido a dizer: Obrigado. Tome lá para um golinho. Tenha um bom dia e obrigado pela companhia diária das suas - sempre interessantes - reflexões. Ou, simplesmente, «bebidas» matinais de [bom] português.
ResponderEliminarToma lá p'a molhar a gorja! Ainda é expressão que se usa...
ResponderEliminarAqui em Angola, o termo usado é "dar gasosa" ... talvez seja actual e políticamente mais correcta, dado vivermos tempos em que se presume que tudo seja saudável... excepto a corrupção que parece incomodar menos que o teor de sal no pão!
Creio que dar para uma bebida, num tempo em que tal era um luxo e portanto coisa muito ambicionada, equivalia a hoje dar para um ansiolítico ou um charro - numa visão moderna e urbanita.
Ainda sou do tempo de os homens desocupados ou disponíveis para trabalhar se reunirem junto da taberna, onde os feitores os iam contractar. Idem para quem tivesse ofício e coisas para venda. Depois de aprazado o negócio, seguia-se "a molhadura", ou seja era da praxe firmar o contrato com um copo de vinho ou água-pé, e como a venda ou a taberna estavam ali mesmo...
Somos fruto do nosso passado, afinal... e não vale a pena avaliar as coisas como "alcoolismo", pois foram outros tempos e vamos ver se não voltaremos a eles... alguém imagina o Portas ou o Costa na molhadura da sua palavra? E depois a darem o dito por não dito? Noutros tempos levavam uma cachaporrada p´los cornos... e era bem o que mereciam! Seja ou não seja políticamente incorrecto!
Saudações e votos de gasosa cá da Cidade Morena que hoje faz 400 anos!
Com o meu provincianismo já cheguei a dizer enquanto dava uma gorgeta que era para um café... e isto deve estar tudo ligado. Lá na aldeia era muito habitual oferecer bebida a quem trabalhava para nós e mesmo a quem passava. Um copo de vinho para o caminho.
ResponderEliminarEu costumo ir ver a pressão dos pneus do carro a uma oficina de pneus, porque geralmente as medições são aí mais fiáveis dos que nos aparelhos das bombas de gasolina, e digo sempre a quem faz o serviço que a gorga é para um cafezinho, ainda que arredonde e me faça sempre confusão estender a moedinha.
ResponderEliminarOlá
ResponderEliminarSegundo li nem sei mais aonde, TIP é a sigla para: To Improve Promptness. Ou seja, um incentivo para ser bem servido...
Boa Tarde, Também li o texto e adorei. Nunca dou a dita o que provoca sempre a condenação dos que me rodeiam, aos quais pergunto, o Sr. guia, motorista, cabeleireiro, empregado de mesa ou outrem não recebem salário?
ResponderEliminarPergunto aos que a leem , porque dão a gorjeta (pingo)?
Helen