E vão três

Continuo a não achar que seja completamente viciante, mas, já agora, interessa-me saber como é que acaba A Amiga Genial…  E ainda só li três volumes (são quatro e o último é gordo que se farta). Neste História de Quem Vai e de Quem Fica, as duas amigas – Lenù, a narradora, e Lila, o cérebro – são agora mulheres de quase trinta anos. A primeira, depois da publicação de um livro de grande sucesso, vai viver para Florença, casa-se com um menino-bem intelectual e tem duas filhas; a sua vida torna-se uma pasmaceira que a deixa bastante melancólica (ser dona de casa e mãe não é o seu forte, mas está sem inspiração para um novo livro). A segunda vive num bairro miserável de Nápoles com um amigo de infância (nada de sexo, são como irmãos), trabalha numa fábrica de enchidos e envolve-se em movimentos políticos perigosos (ouvindo falar no assassínio do patrão de Lila, Lenù equaciona a hipótese de ter sido a amiga a sua autora). A vida de ambas parece ter de certa forma congelado, mas de repente dá uma nova reviravolta: Lenù encontra a sua antiga paixão (o rapaz que no segundo volume gostava de Lila), e Lila regressa ao seu bairro para se tornar uma das primeiras informáticas das empresas dos mafiosos irmãos Solara, que ela odiava… Que mais lhes irá acontecer? Veremos no quarto volume, claro.

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda23 de maio de 2016 às 01:55

    Não li ainda nada de Elena Ferrante e reconheço a minha curiosidade em relação à sua escrita que, ao que parece, tanto sucesso tem granjeado e tantos admiradores... Questiono-me se esse sucesso não é devido, também, à aura de mistério que se construiu em torno da sua identidade ou, pelo menos, em torno do seu recato, enquanto mulher. Tanto quanto sei, Elena Ferrante tem-se mantido afastada das luzes da ribalta e sabemos bem que este tipo de postura sempre conquistou admiradores. Basta lembrar o nosso Herberto Helder, cuja poesia, grandiosa sem dúvida, misteriosa, sem dúvida, original, sem dúvida, soube contudo tão bem orlar-se da sua - suposta - humildade literária, manifestada no seu insistente afastamento dos olhares dos seus leitores. (Há muita soberba em muita aparente modéstia). Talvez porque a imaginação, também aqui e não apenas naquilo que a autora escreve, se entregue a devaneios de algum modo literários, que nos enredam. Enfim, reconheço a minha ignorância relativamente à escrita, e quero crer que, de facto, o maior mérito é dela. Um dia destes, quem sabe, darei uma espreitadela.

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    1. Pode haver soberba em não querer dar-se a conhecer. Mas pode ser apenas o desejo de continuar anónimo, de fazer a sua vida como sempre, de se furtar a coisas muito aborrecidas como apresentações de livros, conversas com leitores, enchentes de livrarias e bibliotecas que ajudam a vender e satisfazem o ego de alguns e não de outros. E pode ser essa também uma forma de vaidade. Nem todos somos vaidosos da mesma maneira.
      O que não acredito é que a fama ou a venda venha daí. Porque começar a ler um autor que ninguém conhece e nem se dá a conhecer é fazer chamada ao que verdadeiramente interessa ao leitor: o livro. E se a autora em causa vende tanto e em todo o mundo é porque agradou apenas pela escrita.

      Em meu entender Elena recupera o romance tradicional. Desenleia-se dos romances psicológicos e muito hodiernos, que saltitam no tempo e andam em círculos. Ou dos que se cingem a um período curto. E conta uma história em quatro volumes. Claro que começa pelo fim, espicaça o interesse, são assim as histórias, partem do narrador, situam-nos no tempo para nos fazer recuar com circunstância. E depois junta-lhe os ingredientes de história actual: uma catadupa de acontecimentos, quase todos conflituosos. O resto é a sua arte de misturá-los. E eu que gostei da história reconheço: não há nos quatro volumes uma frase que tenha sublinhado. Não é uma história reflexiva, é uma narração à antiga, vive do acontecer. E onde as pessoas não são boas, os sentimentos surgem mesclados, muito tingidos pelo lado perverso do humano de cada um. Por outro lado, passa ali uma Itália temporal e situada que se transcende. Quem ali vive pode ser de qualquer parte do mundo de subúrbios ou aldeias. É o retrato possível daqueles que, vindo das classes mais baixas, aspiraram de modos diversos a subir na escala.
      Parecem-me quatro livros muito concordantes com o espírito de hoje: privilegiam o acontecer e têm para cada acontecimento a dose certa de estranheza e até de horrível. Na actualidade, a mente aprecia a virulência do choque (criou-se uma determinada ideia de impacto ligado ao acontecer); há escritores portugueses que o usam ainda que não escrevam romances da mesma natureza.
      Encontro em Elena Ferrante um certo estilo de romance cor de rosa sem cor de rosa.

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    2. Bolas. esqueci-me de preencher o nome e o mail. Sorry:)

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    3. Emílio Gouveia Miranda23 de maio de 2016 às 04:58

      Concordo consigo. De facto aprofundou o meu pensamento, analisando-o segundo uma outra perspectiva - pois é de perspectivas que o pensamento é feito, sobretudo quando não se tem como definitivo. Concordo plenamente quando diz, e cito: «criou-se uma determinada ideia de impacto ligado ao acontecer». De facto, assim é. Procura-se o choque da emoção, em detrimento do simples fluir. Apesar de ainda não ter lido Elena Ferrante , é essa ideia que faço da sua escrita: uma escrita ao género do tradicional romance sobre aquilo que a vida tem de mais rico, sendo sobretudo um retrato dela mesma, enquanto fluir, enquanto natural devir. Ser capaz de buscar no óbvio o surpreendente é, julgo eu, o que vai faltando em muita literatura - dita como tal. Quanto ao anonimato reconheço que deveria prevalecer o interesse sobre a obra, em detrimento do que muitas vezes prevalece sobre o autor. Tanto se edita com rosto e sem substância... Obrigado pelo seu comentário.

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    4. «E se a autora em causa vende tanto e em todo o mundo é porque agradou apenas pela escrita» - até pode ser. Mas acho difícil (para não dizer impossível) que um/a autor/a desconhecido/a, sob pseudónimo, atinja tamanho sucesso. Elena Ferrante deve ser autora suficientemente considerada para que a editora tenha feito uma boa campanha de divulgação destes seus livros com pseudónimo - a editora conhece a verdadeira identidade de Elena, claro.

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  2. António Luiz Pacheco23 de maio de 2016 às 02:57

    Temos portanto um folhetim novelesco? Eheheh!
    Ao que parece de qualidade... e com um volume gordo.

    Quanto à autora... confesso que raramente leio o que quer que seja por causa do autor, ou nunca teria lido alguns bons livros...
    Interesso-me obviamente pelos escritores, pois muitos deles conseguem ser fascinantes nas suas vidas, andanças e experiências, sobretudo os clássicos, que francamente o que conheço dos actuais é para mim do mais desinteressante, quase sempre pessoas misóginas que vivem encerradas no seu pequeno Mundo, conforme dou conta nas entrevistas e artigos que leio. Aliás, sou um leitor de biografias, logo interessam-me as pessoas... mas não me alimento e nem às minhas leituras de escritores misteriosos ou mediáticos.

    Saudações novelescas e literaturais cá da Cidade Morena, vivam os livros e vivam os escritores, viva nós os leitores e amantes da leitura!

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    1. Porquê? Se escreverem bem e a história lhe interessar, qual é o problema? Segrega os famosos?

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    2. António Luiz Pacheco23 de maio de 2016 às 07:14

      Não percebo de onde vem a sua pergunta, ou como aquilo que digo a motiva?

      Segrego os famosos?

      Leio sobretudo pelo tema, e, não só pelo autor... é a conclusão.

      E, repito, foi por isso que li livros tão bons quanto de autores pouco conhecidos ou divulgados. Também foi assim que cimentei o gosto em ler outros famosos...

      Quer exemplos?
      Entre Cós e Alpedriz ... foi dos melhores livros que li nos últimos tempos!
      Se fosse pela notoriedade do autor ou pela divulgação que teve, pela editora... jamais o teria lido!
      Ao mesmo tempo... li e foi também dos melhores romances dos últimos tempos "O último homem europeu", este de um conceituado escritor, e cheguei a ele, óbviamente atraído pelo nome...

      O melhor livro que já li sobre o Alentejo? "Vida e morte dos Santiagos!".
      Autor? Nem me recordo... Li-o pelo tema em si, foi surpreendente.

      Supera "Rio das Flores", cujo autor é famoso e que li atraído óbviamente porque me chamou a atenção e porque gosto de o ler na maior parte dos casos... não me surpreendeu ter gostado, mas também li "Madrugada suja" na mesma linha de análise e expectativa, e, foi uma desilusão total.

      Com o tempo e o interesse pela obra, fui sabendo coisas sobre Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Torga, Hemingway, Melville, London, Steinbeck, Garcia Márquez, Amado... e não foi só por ter ouvido falar neles que os fui ler, antes parti da obra, quantas vezes descobrindo-os nas "selecta literária" escolares, e de boa-memória.

      Fui saber sobre Roger Casement depois de ler Llosa e não me fiz leitor deste por o saber aficcionado... como não deixo de ser fã de Aquilino a despeito de carbonário ou de Torga porque comunista...

      Enfim, como estamos num blog de leituras, creio que posso falar assim e alongar-me um pouco, pois falo de livros e autores e daquilo que significam.

      Há quem vá atrás de Lispector porque fascinada pela autora, mas como digo, não é o meu caso. Sem criticar quem o faça... e há muito autor e livro que teve venda pelo autor e não pela obra, ou não é verdade?
      Existe quem o saiba e portanto utilize esse factor favorávelmente...

      Graças a esta conversa, vou tratar de saber quem é a autora citada! Afinal também é para isso que servem estes posts.

      Saudações curiosas da Cidade Morena.


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    3. António Luiz Pacheco23 de maio de 2016 às 07:20

      Pois... já fui investigar, e há mesmo muito pouco para saber...
      Continua a não me afectar, e não me surpreenderia se descobrissem chamar-se afinal Elena Anna Staller... não seria por isso que a ia ler ou deixar de ler.

      Saudações tranquilas desde a Cidade Morena.

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    4. Falou e disse:).
      Muito obrigada pela atenção.

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  3. Há muita psicologia na tetralogia de Helena Ferrante.

    ABC

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  4. Cláudia da Silva Tomazi23 de maio de 2016 às 04:08

    Ontem, estava com o exemplar à mão. Caríssimo.

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    1. E depois de quatro anos a ler a Cláudia Tomazi eis que pela primeira vez - rufar de tambores - a percebo. Como dizia a minha avó: "deve estar algum burro para morrer."

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  5. Da Elena Ferranti apenas li As Crónicas do Mal de Amor.
    Estou a ver se arranjo coragem (e dinheiro) para me aventurar nesta tetralogia...
    :-) Antonieta

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