Poesia ao alcance de todos

Comprei há muitos anos em Nova Iorque, na loja de um museu, um jogo de poesia com ímanes para colar no frigorífico. Tratava-se de um conjunto bastante versátil de versos que podíamos organizar segundo nos parecesse melhor e deixar na porta do nosso maior electrodoméstico, enchendo a cozinha de aromas poéticos. Os versos não eram grande coisa, mas a jigajoga tinha alguma graça. Também conheço um livro maravilhoso de Raymond Queneau, cujo original esteve, de resto, recentemente numa exposição dedicada aos livros na Fundação Calouste Gulbenkian, chamado Cent mille milliards de poèmes, feito com tirinhas cortadas ao longo das páginas, cada uma com seu verso, podendo construir-se mais de um bilião de sonetos diferentes, aproveitando-se de cada página a tira de papel mais conveniente, numa experiência bem engraçada de poesia combinatória. É uma outra maneira de brincarmos aos poetas, mas acabo de descobrir que se chegou ainda mais longe: um investigador da Universidade de Coimbra, Hugo Gonçalo Oliveira, criou o «poeta artificial», um software capaz de compor poesia sobre qualquer tema, através de uma rede de palavras relacionadas por sentidos, transmitindo sentimentos negativos ou positivos, apresentando configurações várias (quadras, sonetos, etc.) e suscitando emoção. Segundo o seu criador, não pretende este PoeTryMe – assim se chama o programa – ser melhor do que ninguém nem ombrear com poetas de carne e osso, mas tão-só estimular a criatividade e servir de fonte de inspiração. Se for jogo, há-de ser, digo eu, divertido. Mas espero que os seus «jogadores» não se lembrem depois de querer de repente publicar livros com o resultado das suas brincadeiras ou acusar de plágio os parceiros...

Comentários

  1. também espero, Rosário, mas...

    felizmente a poesia precisa de umas nuances e de alguma maluquice, que não é permitida a nenhuma máquina. :)

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  2. Eu já vi um porco andar de bicicleta...

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  3. António Luiz Pacheco31 de março de 2014 às 03:24

    Bem, tudo se espera da dita "inteligência artificial" e dos não-tão-inteligentes-assim agentes e cultores da mesma!

    Afinal o homem é um ser preguiçoso e daí esta grande azáfama em volta da tal inteligência artificial, que é capaz de ter ainda como finalidade última e velada, a anulação da vontade e inteligência própria da humanidade, o sonho de qualquer regime político!

    Claro que estes programas informáticos têm um lado útil e bom, mas ao anularem tanto da nossa humanidade, têm um lado mesmo muito negativo!

    Para quem já nasce e se formou no sistema, será incompreensível e inaceitável o que digo... mas realmente quando a poesia for mecânica, pois mecânicos serão os sentimentos, e, programáveis com certeza - tipo Laranja Mecânica (e não estou a falar da equipa de futebol...).

    Nem de propósito, falando-se na real inteligência dos agentes daquela mesma artificial, hoje ao ser apresentado ao informático que se encontra a fazer uma qualquer intervenção no escritório, perguntei:
    "Então és tu quem vem estragar o sistema informático?"
    Resposta imediata, confiante e sorridente:
    "Sim!".
    Ou seja... resposta automática e pré-programada não coincidente com a pergunta imprevista e fora do programa... no confronto creio que a inteligência humana e convencional ainda vence!!!!

    Saudações cabindas!

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    1. Ó Pacheco já ouviste a banda sonora do filme do Spielberg "INTELIGÊNCIA ARTFICIAL", composta por John Williams? muito boa.

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    2. António Luiz Pacheco31 de março de 2014 às 07:59

      Não conhecia o filme... se calhar já ouvi algum dos temas dessa banda, mas confesso que não sabia da sua existência... tenho de ir ver ao "gúguel"... é uma das tais partes boas desta coisa... eheheh!

      Um abraço!

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  4. ...e também se chama poesia ao resultado desses jogos? Acho que ando enganado.

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  5. Dentro do espírito da divulgação de poesia, foi-me oferecida uma caixa de cigarros poéticos com a legenda aconchegante "Diz sim à dependência poética!" São maços poéticos de Florbela, Mário de Sá Carneiro, Almeida Garrett, Antero e Bocage.

    Foi uma ideia tão bonita que não tive coragem de desembrulhar senão um "cigarro", a confirmar o rótulo do maço. Mora-me ao rés dos olhos e pode que, quem mo deu, talvez se não lembre já de mo ter dado. Que não é igual a importância das coisas em quem dá e quem recebe e o valor não depende apenas nem sobretudo dos objectos.

    Talvez eu seja meia retrógrada, mas será que com as mesmas palavras o programa não fará sempre o mesmo poema? A poesia, parece-me, faz-se por vezes contra outra(s) poesia, muita vez contra a de quem mais se admira; e há um estilo no poeta que talvez se molde nessas andanças de ler, gostar e recusar ou quem sabe acrescentar o seu entendimento da poesia. Não enxergo a possibilidade de uma máquina chegar até aí. Ou chegaremos a concluir que o programa é estiloso?

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  6. PoeTryMe, coloca lá no teu processador este poema... coloca-o bem lá no fundo do teu disco rígido... humaniza-te! Conheces o prazer da partilha e a gratidão da mesma? Ofereço-a, grato, à nossa anfitriã que é coisa que nunca poderás fazer.

    Do meu «Viagem a Dali, com passagem por Rosário, Sombra-espelhos, Retorno por Mátria e Tavares».

    o presente somos nós!

    Meu amor! Tenta ser um pouco mais romântico
    Oferecendo-me flores, oferecendo-me chocolates e jóias,
    Fazendo-me crescer o desejo de te querer inundar de beijos
    Daqueles que escorrem pelos nossos corpos
    E nos libertam da inveja, da dor e do ódio.
    Meu amor!
    Eu sei que o tempo não está para abraços,
    Nem prendas, nem confissões ou ilusões de promessas eternas,
    Eu sei, embora não te saiba explicar porque isso não acontece;
    Apenas não acontece de tempos em tempos!
    E tudo podemos fazer para alterar esse clima enfermo
    Que «o nada» são apenas ventos passageiros.
    Meu amor! Façamos de nós o tempo das promessas
    E o tempo dos afectos,
    Dando umas pinceladas na vida desta nossa tela em branco,
    E nada à nossa volta, nem o grito dos cisnes negros zangados,
    Que nadam em águas com pombas mortas
    E pedaços defecados de sombras
    Será como dantes,

    E muito menos
    Um cenário dantesco e eterno!

    (23 Set. 2012)

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    1. António Luiz Pacheco31 de março de 2014 às 08:01

      Boa Extraordinário Pedro!
      Goooolo!
      Ahahah!

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    2. Isto não é um poema; são palavras.

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    3. Ahahah! Como lhe dou razão, Álvaro Horta! Vivemos rodeados delas! Dia 1 de abril, certo?

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    4. Errado. Palavras são palavras. Todos os que tiveram a sorte de ter sido alfabetizados sabem usar palavras. Juntar palavras é só juntar palavras. Qualquer um que saiba palavras e tenha aprendido a juntar coisas sabe juntar palavras. Entre juntar palavras e fazer um poema há, porém, uma diferença.

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  7. Parece que chegou ao fim a fase da \"infantilização da vida\". Como denominar esta que está em curso?

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  8. Há dias atrás, a propósito do post de 20 de março “Manhãs de Nevoeiro”, referi-me a este assunto do computador de Coimbra que, se não nos pomos a pau, substituirá os poetas.
    Dessa vez, como o post era acerca de D.Sebastião, transcrevi um poema de António Nobre que me pareceu apropriado a ambos os tópicos: o rei Desejado e o poeta vencido.
    Desta vez, a propósito deste último tópico / último poeta, se me dão licença cito-vos duas vezes Alexandre O'Neill:

    « Se...» Se a tal máquina de Coimbra se espalhar por aí colocando a “poesia” ao alcance de todos,

    «...Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar? »

    Ai é bem capaz de mudar, é.
    Por isso, antes que seja tarde,

    « Um dia hei-de ver se me levanto cedo
    para apanhar
    (...)
    o último poeta, coberto de orvalho,
    trazendo um soneto e a noite em claro
    (...) »

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    1. Desculpem. Há dias. Não liguem eo "atrás", que me escapou.

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    2. Desculpem. Não liguem ao "eo" aí atrás, que também me escapou.
      Há dias assim...
      Isto, só o computador de Coimbra é que é capaz de evitar estas distracções...

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    3. Diz-me agora o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa que a grafia foi alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990.
      Parece que agora deve escrever-se “distrações”.
      Tá bem, pá. Vai lá dizer isso ao computador de Coimbra.

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  9. Quando passo em determinadas portagens os sons dos desejos de uma boa viagem já são metálicos...Portugal está melhor...

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  10. Por acaso vi na televisão essa engenhoca tecnológica...e fiquei triste. Como pode alguém querer que uma máquina substitua o coração da gente??? É que só é poesia se escrito por gente com emoções e sangue nas veias...

    Abraços!
    Cláudia

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  11. Claudia da Silva Tomazi31 de março de 2014 às 05:29

    É proibido "casino" no Brasil.

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    1. É, Cláudia, no Brasil os casinos são proibidos.
      Roubar, matar, trambicar, e outros "ar" tão maus como, são lícitos. Incongruências brasileiras, caríssima. Já o "AR" de AMAR está em desuso no Brasil. Pena. E tantos a quererem "abrasileirar", salvo seja!

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    2. Claudia da Silva Tomazi31 de março de 2014 às 09:00

      Um bom entender atende...

      Certamente apostar seria possível e o é!

      A tecnologia evidência o nato.

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  12. Também tenho andado a pensar na geringonça desde que ouvi a notícia, a um tempo admirável e assustadora. Tem um lado de base de dados de poemas, rimas e métricas que me atrai (será talvez como uma dessas bases de jogos de xadrez), mas põe-nos, doravante, a duvidar. Que diria Ramos Rosa de tal coisa se tivesse imaginado a sua Poesia (Liberdade Livre) aprisionada num computador: saia um soneto em decassílabos com rima inicial em verde (código verde)!...

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  13. Poesia...

    Jogo de sentidos, de precisão e ritmo.

    Estarei errado?

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  14. o programa é a computação do livro-às-tiras | seu percursor | há quem imite um violino com um serrote, conseguindo espantar | para um certo surrealismo a engenhoca [a custo] deve servir || para poesia low-cost basta | porque começou pela poesia? porque ela permite o “crime” quase perfeito, tão ambivalente e indeterminada é ou parece ser | não, não | antes de ultrapassar Hölderlin ainda terá de ultrapassar romancistas, filósofos, teólogos, doidos… mas o nosso cérebro, a nossa percepção, o nosso amor, estão a caminhar em direcção ao digital, o que, a prazo, favorece a geringonça


    |low-cost| o seu emprego foi necessário
    _de_

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  15. Professores Pardais sempre houve e continuarão por aí, uns com mais lábia do que outros, mas enfim ...

    Não haverá nenhum, porém, capaz de criar tal maquineta que venha substituir a engenhoca que conosco nasceu e vive, que enrola e desenrola nosso sentir.

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  16. E para os extraordinários que gostam de poesia, um lugar extraordinário de divulgação da mesma . A Guilherme Cossoul , Porosidade Etérea e a sua página de facebook.
    https:/ www.facebook.com pages /Porosidade-Et%C3%A9rea-In%C3%AAs-Ramos-P%C3%A1gina-Oficial/194274093990633

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