Situacionismo

Algumas publicações, nomeadamente o Jornal de Letras (mas também um artigo de Eduardo Pitta na revista Ler) têm dedicado várias páginas inquirindo escritores sobre a situação actual e querendo saber como vai ela influenciar as suas obras. Sendo os escritores, antes de mais, cidadãos como toda a gente, é natural que a sua vida se veja afectada pela crise e pelo desinteresse a que este governo tem votado as artes e as letras – e isso os leve a manifestações de repúdio e a concentrações de intelectuais (como aconteceu nas Correntes d’Escritas mais recentemente), nas quais exprimam as suas opiniões, por assim dizer, políticas. Mas isso não tem necessariamente de acontecer nas suas obras, que podem não reflectir nada do que se está a passar sem que, por isso, os achemos uns cobardes ou alheados. Quando comecei a trabalhar na edição, pude, com muito gosto, enquanto assistente editorial, acompanhar a publicação de algumas obras do saudoso António José Saraiva – e foi numa delas que li que é ao escrever que o escritor cumpre a sua obrigação para com a vida. O resto é cidadania – e é nela que não se pode demitir das suas obrigações.

Comentários

  1. concordo.

    uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. :)

    mas aqueles que já alcançaram o estatuto de figuras públicas, não devem deixar de dizer o que pensam, sempre que podem, sobre a situação do país.

    o António Lobo Antunes, por exemplo, tem feito isso muito bem nas crónicas.

    tal como fazia o nosso Pina no "JN".

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    1. Não podia estar mais de acordo, caro Luís: O Pina faz uma falta imensa ! Agora, que escritores existem no espaço diário das crónicas dos nossos jornais? Praticamente só o Miguel Esteves Cardoso que parece interessado apenas em discorrer sobre o seu umbigo ou sobre a Maria João, como se estivessem os dois encarcerados numa casa numa área ruralomarítima da zona de Sintra, a receber livros e informação pela internet, a comer bem e ir à praia, num país que lhes é aparentemente indiferente. Porquê esta aversão dos jornais a crónicas de escritores? Será que acham que os leitores só estão interessados em repetitivas crónicas sobre economia e política? Que diferença para o "El País" que destina espaço nobre diariamente a vários escritores. O Mário de Carvalho seria excelente na função (vide as suas crónicas antigas no JL) ! Alguém o quererá convidar ou vivemos o pensamento único ? Outra imenso vazio: o deixado nos jornais pelo Eduardo Prado Coelho.

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    2. Até porque a palavra é uma arma e quem a sabe utilizar (concorde-se ou não) se o não fizer não estará a cumprir o tal direito de cidadania, já que, calculo eu, este direito de cidadania aqui invocado não será para se esconder com miáufa " quando "sente os calos apertados"...

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  2. E já que a Maria do Rosário Pedreira referiu as "Correntes de Escritas", talvez venha a propósito recordar a intervenção do Rui Zink que, na mesma mesa, fez um "ad lib" (o improviso oral é vício de professor...), cheio do seu humor habitual, vivo e de excelente qualidade, em que falou quase só da sua intervenção como cidadão, culminando com o seu pedido à assistência para que o repudiasse (como se tem feito a Relvas e Co.) grandolando. Foi um momento interessante porque houve inicialmente reticência por parte do público em aceitar a sugestão: é que a mensagem dele era ambígua (queríamos grandolar, mas não como forma de repúdio do Zink). Ele percebeu e emendou a mão, corrigindo que o cantar seria nossa forma de repúdio da aversão à cultura que este governo manifesta. Então todos cantámos com gosto e alguns até choraram (foi o caso da minha mulher) com saudades dos tempos jovens dos nossos primeiros grandolares que continham uma esperança que o tempo nos mostrou ser bem maior do que é aceitel neste mundo.

    O Zink justificou e bem que preferia uma pessoa boa a uma pessoa inteligente. Disse que nas suas prioridades estava à frente o socorrer um imigrante do Nepal que na véspera tinha ficado sem as duas pernas num acidente de tráfego em Lisboa do que sentar-se a criar a sua obra literária.

    Agora, tendo apreciado o testemunho de intervenção cívica do Zink, devo confessar que quando vou assistir a um encontro de escritores estou desejoso, não de improvisos orais (é que nem todos são Saramagos nessa rara capacidade de oralizar criativamente), mas sim, idealmente, de ouvir a leitura, pela voz do seu autor, de um texto escrito pelo escritor presente na mesa.

    E se o escritor se der ao trabalho de escrever para nós, os presentes do outro lado da mesa, um texto inédito exatamente para o ler nessa ocasião, então é uma delícia ! E daí eu concordar que o dever de um escritor é, em primeiro lugar, escrever e quando vai a um evento sobre literatura deve expressar esse seu ofício, embora com naturalidade possa também, como cidadão, expressar a sua militância cívica. Mas se numa reunião sobre literatura, o autor só e unicamente falar da sua vida enquanto cidadão atento e interveniente, parece-me que ludribia as espectativas de quem se deslocou para o ouvir.

    Sem invalidar que os encontros sobre política e militância social são importantes, permitam-me que confesse o meu sentimento em realção a eventos com escritores:
    Viva o escritor que escreve !
    Viva o escritor que lê o que escreveu quando vai a um encontro literário !

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    1. Eu diria a Rui Zink que sendo duas preocupações de diferente natureza, com tempos de execução diferentes, ele apenas decide se quer ou não ajudar a outra pessoa; no tempo e no valor, ela passa naturalmente à frente da sua escrita. Que a urgência vem dele, mas também do objecto.

      Mas é verdade que para viver e ter à mão, os bons são mais aconchegantes. É preferível que sejam bons e não desprovidos de inteligência. Ou pouco realizam (e torna-se a convivência meio aborrecida). Ainda que seja deles o reino dos céus :)
      “Viva o escritor que lê o que escreveu quando vai a um encontro literário !”
      como escrevi acima,nunca fui a encontros literários. Mas já ouvi muita conferência sobre os mais variados temas. E não gosto de ver pessoas a ler um texto. Que ele seja preparado ao pormenor, sim. Que algumas passagens sejam textuais, também, porque terão de sê-lo. Mas…ler? De uns escritores para outros…ler? Por acaso não imaginava.

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    2. Cara Beatriz, permita-ma uma confidência, que vai um pouco contra a ideia que nos transmite no seu último parágrafo: um texto escrito e lido, sem mais (sem quase introdução e sem uma palavra dita após a sua leitura) foi o evento que mais emoção e aplauso recebeu da assistência dos "Correntes de Escritas" no dia em que se ouviram as intervenções dos cinco escritores que constituíram a mesa em que participou o Rui Zink. A palavra escrita e lida de viva voz às vezes tem este dom. Particularmente quando quem a concebe é literariamente dotada e faz uma leitura que é sentida, emocionada e pausada, para que cada palavra possa ser entendida e com tempo suficiente para ser meditada. Bem sei a raridade que é esse conjugar de qualidades ideais ocorrer numa só pessoa. Mas aconteceu ! Tirando estas felizes e excecionais dádivas divinas, estou de acordo consigo: é quase sempre maçador assistir a conferências que são só a leitura de um texto previamente escrito.

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    3. Artur

      Claro que também ressalvo esses casos de excepção, nos quais não tinha pensado. Que, por acaso, não enquadro bem, bem, na leitura. Não sei porque me parecem mais vida dita e escrita. O que foi escrito, nesses casos, leva o vivido dentro, que não nos emocionamos à toa. Escrita não para ler, mas para não esquecer de dizer o que importa.

      Estamos de acordo, então :)
      BFS

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    4. Obrigado ! BFS também para si !

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    5. Não estive nas Correntes, hélas, mas quase apostava que quem leu o texto foi a nossa anfitriã, estarei certa? Ouvi-a em outras ocasiões, também com o texto na mão e foi sempre muito sentido, muito comovente! De resto, assim como quem pede desculpa por levar o texto escrito, costuma citar o Mário de Carvalho (julgo que é ele) dizendo que "...o improviso é para os pássaros".
      Isabel

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  3. Só um analfabeto não conhece a real situação do País. Só um analfabeto desconhece o que está certo e errado quanto às medidas políticas e sociais adotadas pelo Governo. Portanto, as opiniões dos escritores, para além de não resolverem a crise, nada acrescentam à realidade conhecida, a não ser a assunção do ponto de vista do autor. Ora, a exigência da afirmação pública do escritor está, quase sempre, armadilhada: pretende ser um aproveitamento político e ideológico. E tanta preocupação impositiva por parte de algumas personalidades da nossa sociedade é uma forma de ditadura intelectual.

    Entendo que o escritor, como cidadão, não tem de ser engajado. O escritor existe para escrever sobre o que quiser e bem lhe apetecer. É livre de manifestar as suas opiniões como cidadão ou intelectual, mas não o obriguem a isso.

    Como leitor, leio obras literárias; não leio autores e respetivas ideologias.

    Barrius

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    1. Até porque trabalho é trabalho e política é política, não sei se estão a ver...onde é que eu já ouvi isto????

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  4. Salvaguardando que nunca estive numa reunião literária e apenas lhes imagino o curso; que sou leitora de livros e menos de jornais e revistas. Ainda assim, o que prefiro são artigos de escritores e crónicas de opinião, por vezes de jornalistas que conheço e aprecio. Porém, cumpre-me acrescentar que uma entrevista com um escritor é, por norma, uma espécie de fruta recém comprada, nova; aroma próprio que apetece, nunca neutro; que cria, anula, esclarece ou acrescenta a opinião. O escritor tem quid. Marca-nos o seu dizer fora de ser um livro. O mesmo acontece na literatura de viagens. Se em vez do jornalista for o escritor a viajar, é outro o interesse no escrito. Que o escritor não é impessoal e nem pretende. Leia-se o “Dentro do Segredo” de José Luís Peixoto, por exemplo, e verifique-se.
    Se a escrita é a “obrigação do escritor para com a vida; se o resto é cidadania, mas é aí que não se pode cada um demitir das obrigações”….o escritor está repleto de obrigações. Como cidadão. Como escritor. Seria extraordinariamente aborrecido se desatassem todos a escrever sobre o momento político. Uma maçada, diria Lobo Antunes. Contudo, nada lhes está vedado como objecto de escrita. Que a obrigação cívica temos todos. Eles podem reforçá-la. Ser exemplo. Dizê-la daquela forma cativante que sabem, já que domam melhor que nós as palavras e até o raciocínio. E têm peso substantivo. Por tudo isto e mais algumas coisas, devem intervir civicamente. E até por meio do seu trabalho, se a criatividade a isso os conduza. Parece-me.

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  5. Cito: «(…) obras, que podem não reflectir nada do que se está a passar (…) é ao escrever que o escritor cumpre a sua obrigação para com a vida. O resto é cidadania – e é nela que não se pode demitir das suas obrigações.»

    De facto, bem vejo que é um risco tentar fazer literatura com os assuntos da actualidade política e social.
    A actualidade é, por definição, efémera. O risco é o de a obra literária que dela se ocupa ficar datada. Em pouco tempo ultrapassada, esvaziada.

    Pelo menos neste livro, Paulo Varela Gomes não separa as suas obrigações de escritor das que tem como cidadão.
    Assume reflectir, no livro, “o que se está a passar”.
    Corre esse risco. Mas não o escamoteia, pelo contrário, enfrenta-o sem subterfúgios – a começar logo pelo próprio título, datado: “O Verão de 2012”

    O livro é um intrincado de narrativas veiculadas por várias vozes, diversos registos, mas onde está sempre subjacente um fio condutor – a inquietação.
    Ora, a inquietação é, também, o fio condutor, o resultado das inúmeras narrativas que nos atormentam a actualidade que vivemos.
    Por isso me parece que a estrutura deste livro é poderosamente actual. Tão poderosa que é capaz – talvez – de sobreviver à malfadada actualidade.
    Até porque esta, graças ao crescente caudal da nossa geral inquietação, não irá sobreviver – oxalá – por muito mais tempo. Desejavelmente, seremos protagonistas de uma substancial, drástica, mudança da sua actual configuração.

    Se assim for, palpita-me que “O Verão de 2012” perdurará na Literatura.

    Só por isso – digo eu, que estou a escrever isto movido pela emoção que me causou esta leitura, que terminei há poucas horas – só por isso valerá a pena que, à semelhança deste escritor neste particular livro, não afrouxemos, não nos demitamos das nossas obrigações de cidadania.

    É que a actualidade e a Literatura, em raros momentos… – como este, em que, mero e inquieto cidadão e leitor, já não sou capaz de dizer mais nada…

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  6. José Cipriano Catarino9 de março de 2013 às 04:00

    Creio que não podemos desligar o "engagement" da temporalidade: problemas que hoje nos afligem e nos parecem de vida ou de morte terão pouca importância dentro de dez ou vinte anos. Um escritor excessivamente colado aos problemas da sua actualidade pode conhecer sucesso imediato, mas, se mais não houver na sua obra, ela dificilmente será apreciada no futuro — veja-se o caso dos nossos neo-realistas. Pelo contrário, nas obras que melhor resistem ao tempo é o drama da condição humana que pulsa e lhes dá vida. A Ilíada, a obra literária mais antiga da civilização ocidental (traduzida por Frederico Lourenço e editada pela Cotovia) é o melhor exemplo que me ocorre: vinte e sete séculos depois, quando nada me interessam os palácios revestidos a bronze ou a listagem dos aqueus que atacaram Tróia, fascina-me o drama das personagens, maravilha-me a técnica narrativa desta obra, assombra-me a genialidade de um autor da idade do bronze que roubou a originalidade aos ficcionistas posteriores — porque, de uma forma ou de outra, quase tudo o que se escreveu, e sobretudo o como se escreveu, está presente na Ilíada.
    Ora isto só sucedeu porque Homero criou uma realidade em vez de se limitar a espelhar a do seu tempo.

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    1. Bem visto. Mas por vezes - como julgo ser o caso que refiro no meu comentário acima - a condição humana está bem presente no quadro de actualidade do livro. E essa presença acrescenta-lhe força, poderá originar a transcendência da obra no tempo.
      Cumprimentos.

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    2. Está tudo dito.

      Barrius

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  7. Como qualquer cidadão o escritor deve poder veicular as suas ideias, se bem que tenha a vantagem de, por ofício, saber exprimi-las melhor do que o comum dos mortais. Porém, o direito "a não querer ser da companhia", ou à passividade, ou a não querer mudar o mundo deve também assistir ao escritor como a qualquer pessoa. Philip Roth diz que o papel do escritor é escrever o melhor que puder. Em A Mancha Humana vemos aonde podem chegar os exageros da perseguição puritana de uma forma que ultrapassa em muito qualquer ensaio. Nos livros do Manuel da Fonseca sentimos o impacto da miséria do Portugal de salazar melhor do que num discurso político.

    Quanto aos jornais, como leitor agradam-me os cronistas que não cedem ao dia-a-dia. Todos sabemos a situação em que vivemos... às vezes é preciso ar para respirar. Não compro o Público todos os dias mas quando o faço gosto de encontrar o MEC a falar das couves de Colares e dos primeiros banhos de mar do ano. É só a opinião de um leitor.

    DL

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