Compra-Venda

No mundo inteiro, como dizia o nosso querido Padre Vieira, os peixes grandes comeram os peixes pequenos. Falo, embora não pareça, de edição. Grandes casas editoriais compraram editoras interessantes mais pequenas e somaram-nas a outras, construindo verdadeiros impérios. Mas não só: às vezes a compra partiu de indústrias que nada tinham que ver com os livros – como em França, por exemplo, onde uma empresa originalmente ligada às águas, a Vivendi, se tornou proprietária de muitas editoras, entre as quais a Belfond, as Presses de la Renaissance, a Plon, a Larousse e a Nathan. Diz-se que, quando assim é, o que os novos proprietários desejam é engordar o porco para o vender mais à frente... O problema é que, para poderem recuperar o investimento, sacrificam muitos autores que não vendem assim tão bem e os substituem por sucessos importados, que vendem imenso no ano de lançamento mas uns anos depois já ninguém sabe o que são (quem se recordará daqui por cinco anos de Ronda Byrne e O Segredo?). Só que, para vender o porco gordo, não importa apenas a conta bancária, mas também o relevo dos autores que constam do catálogo – e, com esta dinâmica, o catálogo esvazia-se em três tempos. Fará então sentido deixar de publicar autores que vendem lentamente, mas pingam sempre, e substituí-los por sucessos-relâmpago, descaracterizando as chancelas e tornando os catálogos um imenso vazio? Francamente, acho que não.

Comentários

  1. Li recentemente (penso que no El País) que Diderot teria dito que a sua atividade de editor lhe ensinara que de 10 livros publicados, 1 pagava as contas, 4 não davam lucro e os outros 5 davam prejuízo, mas que esse sucesso/insucesso comercial pouco tinha a ver com prazer que tinha tido em ler livros que escolhera para editar. Já no século XVIII !

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  2. Bem...antes de ler o comentário do Artur Águas ia sugerir que voltássemos à realidade de décadas passadas...em que os grandes autores eram, em simultâneo, os que mais vendiam. Agora já não sei o que diga... :-)

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  3. o "capitalismo selvagem" descaracteriza tudo, inclusive os meios editoriais.

    não tenho dúvidas que existem livros a mais para leitores a menos na actualidade.

    isto acontece porque não há qualquer racionalidade na oferta, é por isso que os livros param um mês nas bancas (os que param...), sendo substituídos por outros no mês seguinte...

    nem sei a quem é que estas mudanças nos mercados servem.

    de certeza que cada vez se vendem menos livros, até pela crise cada vez mais aguda no país...

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  4. Um excelente tema a exigir uma reflexão panorâmica, ao estilo BBC, «Vida (num mundo) selvagem.»
    Num mundo a múltiplas vozes o espaço autoral também já não é ele um espaço de soberania. A edição «sofre» hoje do fenómeno «globalização», um fenómeno que tanto mata como engorda. No mundo soberano a defesa da honra era local, neste mundo de hoje a defesa da honra é glocal . No tempo pré-moderno os suseranos arregimentavam os seus exércitos através de noções de comunidade de afetos . Hoje os «fetos» que deambulam pelas antigas praças são já muito mais coloridos, vindos de lugares distintos e dispersos e não de pequenas aldeias, todas elas muito parecidas, feitas a uma medida quase tribal. A edição tornou-se assim - e também - um negócio glocal . O autor soberano deixou assim de estar dependente de um suserano local que vai alimentando a sua própria casta, ordeira e dependente, e que lhe presta muitas vezes vassalagem não por sintonia, mas por um interesse de sobrevivência.
    Há um autor, sociólogo, muito dado a temas de globalização, cidadania e identidades com um pensamento muito pouco mainstream », muito out of the box» e que merece uma visita de interesse: Boaventura Sousa Santos. Formula o autor a globalização em dois tempos: o tempo do localismo globalizado (quando determinado fenómeno local é globalizado com sucesso) e o globalismo localizado (quando as condições locais se desestruturam e reestruturam de modo a responder a esses imperativos transnacionais). E é neste tempo/lugar que estamos hoje.
    A pequena tempestade deu lugar ao tornado relâmpago; o pequeno pingo, à carga de água mais brutal. Pelas veredas da montanha o estrato vegetal é arrastado e substituído pelas pedras (calhaus?) mais angulosos, comuns (rafeiros para alguns), a maior parte das vezes estranhos à paisagem. Mas a paisagem aos poucos irá se transformando, reestruturando gostos, eliminando gostos, espaço - temporalizando o mundo a um globo que nos caberá na palma das mãos. Até o porco já não será (é) só porco-preto, a sua denominação de origem já o encontra com outros padrões em outros tantos lugares. Aliás já não o era desde que o muppet - show nos deu a conhecer a figura do sapo cocas e de miss Piggy: as suas cores de pele não desmentem a sua proveniência.
    Vivemos no mundo da financeirização, em que tudo se compra e tudo se vende. E é por isso que precisamos cada vez mais de pequenas aldeias locais imunes e resilientes à normalização empobrecedora. Aos grandes grupos suceder-se-ão os pequenos glocais, (de nicho), cujas poções mágicas derrotarão as hordas mais substantivas. E essa poção mágica só tem um nome: qualidade. Qualidade que tem o seu tempo de maturação, o seu tempo de paciência e espera.
    Nada é excludente: tudo se complementa. E tudo se transforma e se democratiza: até a escrita.

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    1. Bela mensagem serena e otimista , sem necessitar de simplisticamente ignorar a complexidade dos globalizados tempos atuais . Acreditemos que tudo se complementa e nada se exclui !

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  5. No outro dia vi um comentário de António Lobo Antunes que referia precisamente, esta diferença de mercados em termos de edição de livros: Os Efémeros e os que daqui a 100 anos ainda se irão vender e ler.
    Um bom livro é o que fica a pingar vagarosamente durante séculos - acredito eu.

    Carla Pais

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  6. Boa abordagem: é isso - o porco em vez de cevado , definha. Perde o agiota (capitalista), porém que mais afectado fica são os leitores e sobretudo alguns autores...

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  7. Mas a Ronda Byrne não é aquela peixeira da Malveira que trabalha com a Goucha na TVI?

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  8. Edita-se muito e muito lixo. o lixo vende mais, o problema é que no meio de tanto lixo os verdadeiros escritores perdem-se.

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  9. Concordo com o post da MRP, mas tenho algo de talvez politicamente incorrecto para dizer. É que eu acho que a Leya vai pelo mesmo caminho, que não está a apostar naqueles autores que vendem pouco mas que têm qualidade. Ou não quer saber deles ou desiste deles depois de se "enganar", publicando-lhes um livro.

    Estou a lembrar-me do Luís Caminha, com quem estive há meia dúzia de dias, num pequeno convívio em que apresentou o seu segundo livro. Alturas tantas, alguém lhe disse que era muito difícil encontrar esse livro apesar de, na opinião dessa pessoa, ser ainda melhor que o primeiro, editado pela Caminho (não sei comparar porque apenas li o segundo, editado pela Lua de Marfim). O autor apenas disse qualquer coisa como "a Caminho é a Caminho, uma editora que ainda é garantia de qualidade", e não quis desenvolver. Mas eu fiquei, pela expressão dele, com a certeza de que não foi ele que desistiu da Leya...

    Pelo que li de Luís Caminha sei que nunca será um best-seller. Mas poderia ser, se as editoras dessem mais atenção à qualidade e à intemporalidade da sua escrita, um long-seller.

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    1. Apoiado. Mas o caso de Luís Caminha não é um mistério para mim.
      Miguel Real já escreveu uma vez que ele é uma das 10 principais revelações da primeira década deste século. António Ferreira, no seu programa Leitura em Dia da Rádio Universitária do Minho, também já referiu algumas vezes este autor como um dos principais novos autores e que tem sido injustiçado. Eu creio que o que se passa é que é um autor difícil, não escreve com duas mil palavras como quase todos os outros autores actuais e tem um registo demasiado poético para os cânones actuais. Creio que seria um autor importante se tivesse vivido antes do 25 de Abril. Mas depois deu-se a democratização da literatura, com tudo o que isso tem de bom... e de mau. Porque democratização, no caso português e infelizmente, também é capitalismo.

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  10. Por favor, senhores editores, deixem-nos a oportunidade de bons livros!

    Sempre houve material que vende e faz época. Que nem todos os leitores são iguais. E o mais que aqui já foi bem dito.

    Mas não nos impeçam a boa leitura, a que dura séculos e se relê em novidade.

    É egoísmo, mas preciso desse manual de instruções.

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  11. Mas o ideal não seria caminharmos para a superação dessa dicotomia? Então os bons autores não podem vender muito? Com certeza que sim! Basta a adaptação da temática seleccionada à pertinência do momento e a agilização do estilo utilizado. E o que se deve entender por intemporal? É intemporal o livro marcante pela crítica da época durante a qual foi escrito...ou aquele que, por não estar concatenado com nenhum momento histórico, se perpetua na sua própria ausência de localização temporal?
    Há quem não esteja disposto a fazer isto por entender a escrita como um processo solitário? São opções. Há espaço para todos. Mas toda a causa tem a sua consequência...

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  12. Vou contra a corrente do post e do que aqui foi dito. As grandes editoras que absorvem as médias e as pequenas são, muito maturalmente, fábricas de dinheiro para accionistas, os quais preferem a ceva do "reco" para o venderem melhor numa feira próxima onde outros, com sede de mais dinheiro, queiram adquiri-lo. Às vezes, pode acontecer que, com tanta "ração", o porco acabe por esticar o pernil e ir ao chambaril, morto e esquartejado, pelos accionistas que o "engordaram".
    São as leis do mercado. O livro faz parte do mercado (livreiro), pelo que é legítimo os editores( grandes, pequenos ou médios) escolherem o que "querem" editar, independentemente dos seus gostos( um accionista pode nem sequer ter apetência para ler livros, a não ser os dos cheques), porque aquilo que lhes interessa são as vendas. E as vendas, caríssima Rosário e confrades estraordinários das horas ditas, são o supra-sumo de quem vende, seja ele ouro, prata, ouropel ou fancaria.
    Uma pequena editora não tem possibilidade de editar apenas obras "maiores" ou de "culto", porque pode a grande massa adquirente não lhe interessar ler essa sumidade literária. É natural, como bem trouxe aqui o Artur Águas, se queira levar em conta a teoria de Diderot, mas trabalhar um só para tantos, só na actual conjuntura nacional é que se verifica essa anormalidade.
    Caríssima Rosário,com a metáfora dos suínos, - e com todo o respeito que lhe guardo - tenho de dizer-lhe que nem sempre é compensador para um editor deitar "pérolas a porcos". Eles engordam no chiqueiro.

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    1. Ora bem. Eis uma questão que sempre me causou a maior perplexidade. Refiro-me aos escritores que afirmam, alto e bom som, «escreverem para si». A arte é um bem consumível. Toda a arte, incluindo a literatura. A própria definição de arte, constante de dicionários e enciclopédias, tem inerente a ideia de «manifestação». Face a este entendimento, a arte enclausurada sobre si própria é a sua própria negação. Um escritor escreve para ser lido, assim como um pintor pinta ou desenha para ser apreciado e um actor representa para ser visto. Nenhuma forma de expressão artística pode subsistir sem dicotomia com o público ao qual se dirige. E quando este se expandiu, por força da democratização, política e cultural, não deverão os agentes culturais procurar adaptar-se diversificando as escolhas disponíveis? Fica a questão.

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    2. É isso mesmo, Sandra. Quem escreve deve fazer uma escolha (ou várias), de forma a cativar o público leitor em qualidade ou em quantidade (preferencialmente em ambas, o que é raro). Se escreve para um público limitado - ou se essa escrita, sem que ele o saiba, vai ter um número limitado de leitores - corre o risco de não ser editado no futuro, porque não há mecenato nas editoras. Um editor tem mais de mercenário do que de mecenas, e isso é justo, se ele vive daquilo ou tem de pagar a quem com ele trabalha. O escritor pode ser o seu próprio mecenas: desembolsa o custo gráfico, dá a maior percentagem do lucro a uma distribuidora ou conta o número de amnigos que lhe fazem o favor de ficar coim um exemplar.
      Os autores que vendem lentamente podem esgotar a edição, mas não renovam o mercado e as editoras não ficam ressarcidas do investimento a não ser a médio prazo. Eu não sou editor - o que editei foram livros da minha autoria, pois assim tive de me inscrever como tal e consta o meu ISBN - mas tenho de concordar com aqueles que editam preferencialmente o que mais vende (infelizmente, na maior parte dos casos, lixo), porque é disso que vivem - de vez em quando, correm o risco e lá se deescaem com uma obra que acaba por ser vendido ao quilo.
      A nossa anfitrtiã sabe isso. Ela própria aquilata isso nas escolhas que faz dos originais dos autores. E não vende a alma ao diabo, porque o editor, o que paga (talvez o administrador, que apenas lhe interessa o mapa dos gráficos mensais, presumo), quer ver resultados. E a Maria do Rosário é das que apresentam resultados, porque tem a sorte de acertar com os autores e as obras ou,m o que é mais certo, tem o condão de saber acertar com os autores e as obras.
      Não haverá justificação para a estultícia que julgue que só são escolhidos os melhores autores. Há muitos originais recusados que seriam um "boom" de vendas e de negócio para as editoras, mas não foram escolhidos e jamis viram a luz do dia. Provavelmente, muitos deles com mais qualidade do que a que anda poir aí com chancela, mas não foram aceites e, com esse gesto, talvez tenha o original morrido com a negativa e o autor morrido para a escrita. O editor não é Deus embora, no caso particular, tenha de fazer o seu papel.
      Daí eu estranhar este post de hoje. Ela, a Rosário, mais do que eu (mais do que a maioria dos visitantes), sabe que as regras do jogo são estas, são legítimas e só entra no barco quem quer embarcar.

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    3. Infelizmente, é certo que a maioria do que hoje se edita não possui grande qualidade, quer a nível material (nele se incluindo a trama e o desenho das personagens, bem como as problemáticas suscitadas) quer a nível linguístico ou formal. Também me desgosta a pouca variedade do léxico dos autores actuais.
      Mas cabe a cada um de nós (os que escrevemos) aperfeiçoarmos o nosso nível de expressão a cada dia sempre tendo presente que a arte é manifestação, é dádiva...e existe um público expectante a olhar-nos.
      Obrigada a todos mais uma vez por esta excelente discussão.

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  13. Cláudia da Silva Tomazi26 de março de 2013 às 11:44

    Bem, o nosso querido padre Vieira, seria, um tanto mais delicado (dedicado) ao sermão.

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  14. Ainda bem que acha que não, pois sei que assim vai continuar a publicar com qualidade. Percebo, no entanto, que exista toda uma vertente comercial, a qual deve ser tida em conta não só pelos editores como os próprios escritores. Acredito ainda que a venda continuada apenas existe para livros de qualidade e que a tentação de editar um sucesso comercial, sem a devida qualidade literária, pode colocar em causa toda uma confiança na editora.

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  15. Essa questão que levanta está ligada ao post “Autopublicar” que escreveu no passado dia 19 de Março. A “qualidade” das editoras históricas fica em causa quando a lógica financeira que sustenta as aquisições e fusões do mundo editorial seguem outro padrão. No dia em que a editora não produzir lucro suficiente por, eventualmente, não ter sabido gerir os seus ativos (p.e. os direitos de publicar autores/livros de qualidade) o destino da mesma é ser vendida, trespassada ou dissolvida e liquidada. Se o objectivo for puramente financeiro podem-se adquirir empresas de qualquer sector.

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  16. Sugestivo e honrado "post". Mais vale tarde do que nunca...

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