A maldição dos Cobra

Já aqui falei certamente dos livros de autores portugueses que iria lançar em 2013 e chegou a hora de me alongar um pouco mais sobre Os Demónios de Álvaro Cobra, o romance que, em 2012, ganhou – com toda a justiça – o Prémio Literário Cidade de Almada. Escreveu-o Carlos Campaniço, um autor nascido alentejano que, morando actualmente no Algarve, nada perdeu das suas raízes, colocando como cenário do romance uma aldeia chamada Medinas que tem muito do nosso Alentejo. Em Medinas vive o protagonista, Álvaro Cobra, um lavrador que tão depressa é tido por santo como por demónio, homem corpulento que atrai fenómenos sobrenaturais, entende os animais e ouve a terra girar sobre si própria. Com ele na mesma casa moram uma bisavó velhíssima e aparentemente eterna, uma mãe com mãos de dois tamanhos distintos (que faz com elas coisas diferentes e ao mesmo tempo), uma irmã acometida de febres que às vezes incendeiam os lençóis e um filho que será o protagonista de uma funesta história de amor. Porém, para além desta família curiosa, a extensa galeria de personagens inclui judeus, árabes e cristãos às turras, uma dona de um bordel ambulante e muitas outras ainda mais deliciosas que lembram o realismo mágico latino-americano mas são, simultaneamente, completamente portuguesas. A ler, absolutamente.


 


Comentários

  1. Tanto o nome do autor (tipicamente alentejano) como o título do livro despertaram-me logo a curiosidade e o interesse.

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    1. A mim por acaso não me entusiasma porque já são vários os escritores alentejanos que têm enveredado nos últimos anos por um realismo mágico regional que, embora bem escrito, é excessívo na falta de verosimilhança dos personagens e das sucessivas estórias que vão contando, como me tem acontecido ao ler o Rui Cardoso Martins ou o Afonso Cruz, cujos livros não consigo terminar. Para realismo mágico leio latino-americanos ou Salmon Rushdie . Muito gostaria de ler bons romances sobre o Portugal atual , tal e qual. Somos fracos em realismo puro e duro, à la Eça de Queiroz.

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    2. Pela parte que me toca, confesso que estou a gostar muito da leitura de "Os Demónios de Álvaro Cobra" de Carlos Campaniço. Está a ser uma surpresa agradável tendo em conta o facto de nunca ter lido nada do autor.
      Em Portugal dá a ideia que se aparecem novos escritores é porque aparecem, se não aparecem é porque não aparecem. Independentemente de outros nomes de peso (ou não) da literatura portuguesa de outros tempos e mesmo alguns contemporâneos, não significa que todas as pessoas tenham de gostar de todos eles, da mesma forma que cada um tem um estilo próprio e formas de abordagem diferentes.
      Discordo totalmente quando mencionam determinados nomes de autores (novos) dando conta que não sabemos o que pensam sobre o panorama atual em que vivemos tendo em conta que não refletem isso nas suas obras.
      Por que razão todos os escritores deverão abordar a atual conjuntura? Já há muito quem fale sobre o assunto. Por vezes até demais!
      Sempre houve e sempre haverá escritores que são mais interventivos e outros nem por isso. A literatura não tem de seguir ela própria um determinada linha de orientação. Há espaços próprios, como as entrevistas para se poder compreender e conhecer o que certos autores pensam sobre determinados assuntos. O mesmo acontece com escritores estrangeiros.
      Para quem não conhece ou nunca ouviu falar de Sandro William Junqueira, sugiro a leitura do seu mais recente livro publicado em 2012 "Um Piano para Cavalos Altos". A meu ver foi o melhor livro publicado no ano passado no que respeita a escritores portugueses. O livro remete para uma realidade e escrita diferente daquilo a que estamos habituados. O livro tem como tema central uma distopia com características invulgares e, mesmo aí, há questões do ponto de vista político e social que se levantam.
      Tenho a certeza que muitos que venham a ler este livro não fiquem indiferentes a ele.
      Para uma escrita mais interventiva e mais abrangente nomeadamente para aqueles que se preocupam e interessam por questões da atualidade, recomendo igualmente "A Implosão", o mais recente livro publicado por Nuno Júdice.
      É comum os portugueses darem mais valor ao que se faz lá fora, ao que é publicado lá fora e muitas vezes bons livros e bons escritores portugueses passam-nos ao lado porque ou não os conhecemos ou porque simplesmente não os vamos ler.
      Jorge Navarro

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    3. Obrigado ! Para mim é decisivo ouvir a opinião de quem já leu um livro para o escolher como próxima leitura. Este seu generoso post dá entusiástica recomendação de vários livros recentes de autores portugueses que eu anotei para meu próprio interesse. Bem haja !

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    4. Obg pelas simpáticas palavras. É sempre um prazer imenso participar nalguns blogues relativos a livros sendo, pois uma forma de partilharmos propostas de leitura assim como receber outras cujas opiniões por aqui desfilam. Independentemente das opiniões, o importante é ler!
      Após ter ontem colocado o meu 'post', andei à procura de uma passagem da obra "Um Piano para Cavalos Altos" (2012) de Sandro William Junqueira que poderia ser pertinente aqui partilhar aumentando, desse modo, o interesse em descobrir uma obra singular de um jovem autor português.


      "O motor: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo

      O medo é motor indispensável à civilização.
      Agente potente que, bem oleado, bem afinado, bem conduzido, permitirá o progresso económico. Não controlado, este movimentador de massas tornar-se-á adversário. Inimigo em vez de amigo. Uma bomba temível que fará a política resvalar para terrenos lodosos e encravar engrenagens. O Governo deve ter isto em atenção. E analisar com argúcia todos os seus componentes e peças: do pequeno receio ao grande terror; da cautela particular ao pânico geral. É necessário examiná-los, testá-los, pô-los em movimento, a todos. Lubrificar o medo. Realizar experiências. Trabalho de oficina. Para do medo retirarmos o máximo lucro. E o rápido avanço. Está mais que provado: o amor é inútil, só atrasa, não dá lucro. E é talvez o maior adversário da boa política.
      Assim e, antes de qualquer tomada de decisão, este Governo deverá ter sempre presente, como auxiliar formal e pedagógico às suas ideias e leis, os números, as tabelas, enfim: os consumos do medo.
      O que mais teme o povo?
      Deverá ser a primeira questão."

      In "Um Piano para Cavalos Altos"
      de Sandro William Junqueira, p. 204

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  2. Artur, não sei se os escritores que citas (Rui Cardoso Martins e Afonso Cruz) serão alentejanos.
    Mas, por exemplo. sobre o Alentejo já li um excelente livro aqui recomendado "VIDA E MORTE DOS SANTIAGOS " de Mário Ventura.Também não poderei deixar de citar outro livro "FREDERICO GARCIA OU INEXISTÊNCIA INACABADA" que sendo de um autor lisboeta J.M.COURINHA (a residir no Alentejo) retrata muito bem uma atmosfera que se poderia ter passado em qualquer lugar do Alentejo.

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    1. Sobre o Mário Ventura, os maiores louvores. "Évora ou os Dias de Guerra" é, para mim, uma obra prima não inferior às do Saramago. Infelizmente, apesar de premiado, este livrinho relativamente fino passou bastante despercebido, penso que devido à enorme luminosidade saramaguiana da altura. O próprio Saramago também começou a sua fase mediática com o bem alentejano "Levantado do Chão". Mas eu estava a referir-me atrás aos escritores alentejanos atuais e ambos os que citei têm fundas raízes alentejanas e tratam ambientes humanos e paisagísticos do Alentejo. E não me parece que possam ombrear com o Mário Ventura ou com o Manuel da Fonseca. Fica o benefício da dúvida, claro, para o novo escritor que a Maria do Rosário editou. A ler, vinda a recomendação de onde vem.

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    2. Dos dois escritores em questão (Rui Cardoso Martins e Afonso Cruz) não li nenhum livro sobre o Alentejo (nem conheço).E estou de acordo em que efectivamente não poderão ombrear nem com o Mário Ventura nem com o Manuel da Fonseca, especialmente com este último. Mas é como dizes - uma recomendação da Maria do Rosário é um elemento a ter em (elevada) conta (eu tenho).

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  3. Também não aprecio o realismo mágico à la portugaise. É demasiado fora, desenraizado. Infelizmente, também demasiado publicável em detrimento de obras bem mais interessantes que certamente ficarão na gaveta.

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  4. Parece-me que, nos últimos tempos, está a emergir da literatura portuguesa uma onda de realismo mágico, serôdio, cujo fenómeno gostaria de compreender, aventando desde já a hipótese de a explicação residir na maior facilidade que se instaura na construção de uma narrativa. De facto, na minha opinião, basta uma boa dose de imaginação para criar um punhado de personagens e situações “do outro mundo”, e logo se consegue “parir” um romance que pretensamente encanta e seduz pela sua maravilhosa criatividade, com a agravante de a maior parte desses romances nem sequer se estear numa qualquer metáfora da vida ou da sociedade, como a boa literatura dessa estirpe, estrangeira, obviamente, já demonstrou e me deliciou.

    Fujo disso tudo e ainda de narradores e personagens defuntos; estratégia narrativa duvidosa, já utilizada por bons escritores da nossa praça, tratando-se de um “barroquismo balofo”, pois não acrescenta nada ao corpus romanesco nem à realidade retratada. Fujo também de romances que me parecem inspirados noutros, e, neste enquadramento, confesso que As Maldições de Álvaro Cobra me empurra instantaneamente para o romance Breviário das Más Inclinações, mas isto pode ser apenas uma reação subjetiva.

    Prefiro, sem dúvida, a tudo isto, um bom clássico realista, tal como o romance que tenho em mãos: Os Teles de Albergaria, de Carlos Malheiro Dias.

    Concordo com as opiniões do Manel e do Artur.

    E agora, minhas senhoras e senhores, já têm muitos motivos para me chicotearem os neurónios. Sou todo ouvidos.

    Barrius

    P.S.: não desejo nenhuma maldição ao Carlos Campaniço. Pelo contrário, quero felicitá-lo pelo prémio alcançado e que continue a escrever, com ou sem realismo mágico.

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  5. Fiquei muito curioso. Irei dar-lhe uma oportunidade quando o vir nas livrarias. Já tem data de lançamento?

    Rui Miguel Almeida

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  6. Na verdade, e apesar de ser apenas uma leitora, leio bastante menos que as pessoas que por aqui vão estando. Talvez por isso me tenha prendido ao blogue - fazem o que não consigo.
    por isso "desacordo". Gosto de realismo mágico talvez por quase o desconhecer na ficção portuguesa. A literatura sul americana dá-nos abadas consideráveis que me fazem pensar se será aquele caudal influência do ar que se respira. Ou se, pelo contrário, uma moda.

    O Alentejo. Que amo em respirações difíceis, a saber-lhe sincronias de cegonha e modorras de calor, a conhecer-lhe os homens tão à míngua como a terra que se rasga em gretas fundas, nos estios sem uma gota. A sofrer nos sobreiros a timidez resignada a quem os deixa nus sem pedir licença.

    E todos os escritores sabem escrevê-lo. Mas procuro em cada um uma fundura que tire fundo às palavras. E em alguns mora essa pertença de raiz.

    Talvez também neste autor.

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  7. Eduardo Pitta escreve hoje na LER sobre o que, acima, o Manuel chamou de escrita "demasiado fora" e "desenraizada" dos novos escritores portugueses. Neste artigo, Pitta cita nomes de escritores de que não se sabe minimamente o que pensam sobre os dramas que vivemos: Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Sandro William Junqueira, valter hugo mãe, etc., etc.

    É a minha perspectiva também, relativamente à maioria dos escritores portugueses e também acho que essa moda foi um pouco 'criada' pelos novos editores, que, claro, fazem parte desta sociedade alheada. Mas mesmo que os editores não sejam tão alheados como a sociedade em geral, sabem o que vende e talvez não tenham opção.

    Claro que há excepções entre os novos escritores. O mês passado, li "A Decadência dos Olfactos" de Luís Caminha, "Largo da Capella" de António Canteiro e "Guardador de almas"de Rui Vieira. Estilos completamente diferentes (aprecio particularmente o de Luís Caminha) ao serviço de mensagens poderosas e que nos fazem pensar sobre a vida que enfrentamos todos os dias. A consequência? São ostracizados, pouco divulgados e, com excepção de António Canteiro, atirados para editoras alternativas. Acho que escrevem por carolice, para meia dúzia de leitores que, por acaso, chocam com algum dos seus livros.

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    1. Bem visto - realmente estes escritores de que não se sabe minimamente o que pensam sobre os dramas que vivemos: Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Sandro William Junqueira, valter hugo mãe, etc., etc. - Será que andarão distraídos com os "negócios"?
      Nota:-Sandro</a> William Junqueira-não faço a mínima de quem seja este personagem...(escritor?).

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    2. Pensava que haveria lugar para todos desde que a mensagem transitável, a agradar.

      Não me parece que Peixoto seja tão claramente quimérico e mágico. O bem que nos faz lê-lo suplanta qualquer artigo de revista sobre o seu tipo de prosa. Peixoto não é um adjectivo que juntemos aqui e ali. É substantivo. Muito próprio.

      Também não me parece que por viver nesse mundo meio mágico, que entendo como um caminho possível da libertação criativa da mente, não haja nesses livros nos escritores, a manifestação de preocupações e problemas na sua actualidade. Não vejo que. Mesmo na literatura sul americana.

      Mas não leio a revista Ler.

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    3. Belas sugestões ! Irei folhear esses autores e livros. Obrigado !

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    4. Bem visto, Beatriz.
      Afinal voltamos à mesma questão: o que nos interessa quando lemos um livro, o homem ou o escritor? Em última análise, que me importa o que Peixoto pensa desta crise? Certamente o homem em si merecerá a minha admiração se eu souber que está solidário com este povo crivado de impostos, mas não define a grandeza dos seus livros.
      Por acaso até acho o Peixoto um mau exemplo para ilustrar esse lado mágico e fora da realidade. No "Nenhum olhar" soube retratar as gentes do Alentejo, ainda que tenha recorrido a alguma fantasia. Em o "Livro" também soube retratar essa realidade que é a emigração. Enfim como diria a beatriz há lugar para todos.

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    5. Talvez, quem sabe, esse realismo mágico irrompa por contraste. De ser a realidade tão escabrosa e insolúvel se constrói outra. E um lado onírico em roda livre.
      O Zé Luís tem esse fundo mais fundo que as palavras fundas que escreve. Como Torga, é telúrico e provinciano. O que só engrandece.

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  8. Sim, porque actualmente tudo é negócio, tudo é invstimento, uma palavra é um negócio, um sorriso é um investimento, tal como um novo emprego é um desafio (não é um emprego), é a sociedade do cifrão em andamento...e assim vai o mundo (alguém ainda se lembra de ver no cinema, antes do filme começar, o comentário ACTUALIDADES FRANCESAS?)

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    1. É possivel que "actualmente tudo é negócio, tudo é investimento", mas ainda assim, ficamos maravilhados quando encontramos o tal livro, emocionamo-nos com o tal filme...enfim, há esperança.

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  9. Convém não meter tudo no mesmo saco. Um autor emergiu por mérito, ganhou um prémio literário de prestígio, por que raio vamos agora compará-lo e enquadrá-lo naquilo que já existe em língua portuguesa e em Portugal? Não poderá o autor ter uma voz própria? E que tal ler o livro? Pelo menos um excerto...

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