Ser feliz

Daqui por uns dias comemora-se o Dia Mundial da Felicidade – e é por isso uma boa altura para ler o novo ensaio de Miguel Real, escrito no seguimento de Nova Teoria do Mal, que foi publicado no ano passado e acendeu a polémica. Nova Teoria da Felicidade não é menos controverso, tendo em conta que aponta mais uma vez o dedo a uma classe política enriquecida à custa de benesses e subsídios, que manda os jovens emigrarem e acentua diariamente as desigualdades sociais, chamando «piegas» aos Portugueses. Miguel Real, num estudo filosófico sobre a felicidade – isso que todos buscamos incansavelmente –, reflecte sobre o poder, o desejo, a necessidade e o prazer em cerca de centena e meia de páginas e acusa uma classe dirigente de chicos-espertos, oportunistas e carreiristas de impedir a realização pessoal dos outros e, consequentemente, a possibilidade de esses serem felizes. Revisitando os filósofos antigos e as suas teorias, esta é também uma obra sobre o presente e, por isso, ainda mais imperdível e oportuna.





Comentários

  1. Muito interessante este livro ! Fez-me pensar muito e é daqueles de que podermos sempre reler fragmentos isolados, útil para nos acompanhar a vida inteira. Interessante a humildade do Miguel Real que no prefácio se considera ser um romancista competente mas mediano, e acrescenta ter a ousadia de pensar que este seu ensaio está um degrau acima da sua produção de ficcionista. Livro de um filósofo e homem culto que, ao que julgo ter lido algures, tirou proveito das deslocações de comboio entre Sintra e Lisboa para pôr no papel as meditações de uma vida sobre esse tema eterno: o Mal e as suas várias expressões e perceções ao longo dos tempos. É estranho que este livro não se tenha transformado em best-seller. Quando saiu, eu imaginei que, sustentados neste livro, múltiplos debates e encontros se realizariam neste país a propósito da nossa condição atual, e não só.

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    1. Ó Artur pois mesmo por ser um livro muito interessante é que não se transformou em best-seller, e ainda por cima falando de verdades (normalmente não se gostam de ouvir)...

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  2. Ontem a SEDES lançou o seu último projeto de responsabilização da sociedade civil e que permitiu extrair as seguintes conclusões: uma descrença muito grande por alguma elite na autorregeneração do sistema, de um sistema fechado e tomado pelos interesses dos detentores do poder efetivo (das percebidas verdadeiras elites atuais , as elites do poder: os partidos - na perspetiva da definição de Gaetano Mosca; e a divisão de opiniões entre os que pensam serem as instituições responsáveis pelo atual estado das coisas e os que pensam serem essas instituições os homens que por elas passam (e a crise da sociedade atual derivar de um quase determinismo similar aos altos e baixos de Kondratieff - estando nós hoje no inexorável ciclo baixo dos valores, que modelam as instituições).

    Um dos intervenientes lembrou, e bem - já que tem tempo de lembrança suficiente para isso - que há num país aparentemente mais formado e informado verdadeiramente três responsáveis pelo atual estado de coisas: a desresponsabilização individual, a falta de valores, a ética - de serviço.

    A essas três, que penso constituintes do atual estado de coisa dos atuais ditames democráticos, acrescentaria uma quarta: as elites portuguesas, sempre divorciadas das sempre estigmatizadas e enjeitadas massas do povo português.

    Apetece perguntar: e o povo, pá? haverá democracia sem povo ou tudo não passará de um jogo de espelhos dos enjeitados a cada momento e da rotatividade do poder?



    A Nova teoria da felicidade passa, assim, por nos lembrarmos de que o desejo, a necessidade e o prazer, são um combate de todos os dias e não uma lembrança para tempos piores.

    E de nos lembrarmos de como os nossos interesses imediatos e egoístas - de que temos muita dificuldade em nos separar, mesmo quando assumem a forma exclusiva de um momento de prazer pelo reconhecimento - nos podem trazer uma felicidade imediata em detrimento da felicidade perpétua, de que a paz perpétua de Immanuel Kant - tornando-nos uma verdadeira comunidade em detrimento do mais simples estágio de sociedade - já parecia um projeto inicial coletivo.

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    1. Quem organiza já um debate sério, independente dos partidos e sem populismos, sobre o país e o mundo? Lido o que o Pedro Almeida Sande deixa (sempre muito bem) escrito atrás, fico com a esperança que a SEDES encabece esse processo, a mesma SEDES que foi instituição cívica decisiva no final do marcelismo por apontar vias para a um futuro melhor, profetizando os novos tempos que estavam a chegar. E repito a ideia que deixei atrás: parece-me que "A Nova Teoria do Mal" seria uma excelente âncora para este tão necessário novo debate (e provavelmente também a "A Nova Teoria da Felicidade", mas sobre este último livro não posso falar).

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  3. Estou desejosa de o ler! Já o procurei nas livrarias mas ainda não tinha saído. Vou ver se o compro, hoje.

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  4. A Nova Teoria do Mal, que Miguel Real apropriadamente actualiza, estava já prenunciada no último poema da “Mensagem” de Pessoa (1934):

    « Nevoeiro

    Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
    Define com perfil e ser
    Este fulgor baço da terra
    Que é Portugal a entristecer –
    Brilho sem luz e sem arder,
    Como o que o fogo-fátuo encerra.

    Ninguém sabe que coisa quere.
    Ninguém conhece que alma tem,
    Nem o que é mal nem o que é bem.
    (Que ânsia distante perto chora?)
    Tudo é incerto e derradeiro.
    Tudo é disperso, nada é inteiro.
    Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

    É a Hora! »

    De facto, como demonstra Miguel Real, no Portugal dos nossos dias "Tudo é incerto e derradeiro / Tudo é disperso, nada é inteiro".

    Já antes, também na Mensagem, encontramos a inquietação, o desejo de mudança, nesta última estrofe da "Prece":

    «Senhor (...)

    Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –,
    Com que a chama do esforço se remoça,
    E outra vez conquistemos a Distância –
    Do mar ou outra – mas que seja nossa! »

    Sim, precisamos de reconquistar a Distância, ou por outra: reinventar a Felicidade – o que quer que ela seja, mas que seja a nossa.

    Nesse sentido, atenção, pois, àquele derradeiro verso da Mensagem, àquela palavra de ordem – “É a Hora!”

    Do que dele conheço é este, palpita-me, o sentido que Miguel Real propõe que despertemos, de novo, em nós.

    É a Hora!

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