Dia da Poesia
Hoje é Dia da Poesia em Portugal e, por esse País fora, multiplicam-se as sessões de leitura poética com presença de autores ou dedicadas a poetas já desaparecidos. Dedico também hoje, por isso, o meu post a livros de poesia recentemente postos a circular nas nossas livrarias. O primeiro é uma reedição de O Problema da Habitação, de Ruy Belo, originalmente publicado em 1962 e agora prefaciado pelo também poeta (e professor universitário) Fernando Pinto do Amaral, que o considera um dos mais marcantes do autor, no qual se responde, numa dezena de textos (sete longos e três mais curtos), à interrogação sobre o papel que o homem desempenha neste mundo. O segundo é uma novidade. Trata-se de Fogo, o mais recente livro de poemas de Gastão Cruz, cujo texto inicial aqui reproduzo. Para festejar.
Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio
Que belo poema sobre o envelhecimento !
ResponderEliminarOu talvez sobre a morte de alguém querido. Não terá muito a ver mas lembrou-me Kaváfis e os seus círios (conforme tradução de J.M.dos Santos):
EliminarOs dias do passado ficam para trás,
uma triste fileira de apagados círios:
ainda fumegantes, os mais próximos,
os outros frios, derretidos, recurvados.
Obrigado por partilhar o poema de Kaváfis. Melancólico e belíssimo !
EliminarLindo.
EliminarPosso ter entendido mal. Mas me parece um poema a alguém bem vivo. Com quem até na morte esteja o poeta.
ResponderEliminarE mesmo que não seja isto, é o que vi tão bonito!
Obrigada à Rosário
E um bom Dia da Poesia a quem chegar. Vou ali ver se a vivo um bocadinho :)
Não resisto em transcrever para aqui o poema do António Botto que ouvi logo pela manhã na Antena 2 (faz parte de "Canções").
ResponderEliminarO mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.
Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.
Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.
Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.
Hoje já a ouvi na Antena1 definir poesia e muito bem definida! Gostei de a ouvir.
ResponderEliminarE gostei da sua partilha, que a mim me fez lembrar a morte do meu pai. Pouco tempo depois enviaram-me este poema de Santo Agostinho, que aqui deixo:
O amor nunca desaparece
A morte nada é
Apenas passei para a sala ao lado
Eu sou eu, tu és tu; aquilo que fomos um para o outro somo-lo sempre
Dá-me o nome que sempre me deste, fala-me como
sempre falaste,
não uses um tom diferente, não assumas um ar
solene ou triste
Continua a rir daquilo de que nos riamos juntos
Sorri, pensa em mim, reza por mim
Que o meu nome seja pronunciado em casa como sempre foi, sem
Ênfase de qualquer tipo, sem qualquer traço de sombra
A vida significa aquilo que sempre significou, ela é aquilo que ela
Sempre foi: o fio não foi cortado
Porque estarei eu longe do teu pensamento simplesmente porque estou fora
Da tua vista?
Espero-te
Não estou longe, somente do outro lado do caminho
Vês, tudo está bem.
Obrigada, Anabela. Lindíssimo.
EliminarO Dia da Poesia celebra anualmente a mudança de estação.
ResponderEliminarHabitualmente a Poesia é, neste dia, a cerimónia convencional das boas-vindas à Primavera.
Porém, nos tempos paradoxais que vivemos, precisamos de alento para – quem diria? – enfrentar a Primavera.
Sublinho: “Enfrentar a Primavera” – necessidade que, sendo imperiosa, é de todo contraditória com o estabelecido no protocolo dos símbolos e mitos associados a esta estação.
A Primavera não é o que era.
O que nos vale é que a Poesia permanece, é vária, tem recursos ilimitados.
Quer dizer: podemos reinventar a Primavera.
“Antes viver do que morrer no pasmo” – eis o que, a propósito, nos incentiva Ary neste Soneto, que eu preferiria intitular “Alento”:
Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?
Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.
Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.
Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.
No dia da poesia, não resisto a partilhar a última de Luís Caminha, postada hoje no seu blogue Ocasos:
ResponderEliminarnão se nos deu por asas abrir caminho
mais tarde ou menos
somos de afundar a subida
e ir ao desengano
bater de fundo
mãos abertas de ânsia
olhos ao sol cerrados
mais e mais este chão de abismo
menos de menos o céu em tudo
eis a crença no voo
E já agora, porque é primavera, porque se comemora a poesia, este clássico intemporal de Alberto Caeiro, com o meu pedido de desculpas por ocupar tanto espaço com um poema que toda a gente conhece. Mas que hoje me parece calhar tão bem:
EliminarQuando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
no seguimento da partilha de hoje, deixo os seguintes poemas de Daniel Faria em Explicação das Árvores e de Outros Animais (1998):
ResponderEliminarEXPLICAÇÃO DO POETA
Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio
Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço
GUARDA A MANHÃ
Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
Olha,
ResponderEliminarvês o que a Primavera nos trouxe?
Há lilases
e o sol nasce no meio da relva.
Há sorrisos dançantes
e as cores avivam-se.
A Primavera tem nome de Poesia.
Olha,
vês, a Primavera morreu,
o Outono acinzentou-nos a alma
e o sol não nasce aqui,
talvez algures.
Ouve,
escutas o silêncio frio do Inverno?
Não vejo nem escuto nada.
Toda a Estação morre,
feia, fria e nua ...
Só a Poesia continua ...
Comboio noturno
Eliminarpara tanto lugar
Olha, vês
Se a estação fria desperta
a tua atenção
por detrás do teu olhar
é porque a uma estação que morre
deste demasiada importância (...)
é que tudo o que desperta,
adormece,
e à estação fria
sucederá a estação quente
recheada de cor
e de tantos outros milagres (...)
e pelo murmúrio dessa estação
saberás que haverá sempre nela
muitos comboios a partir
mas muitos mais a chegar.