Retrato de época
Sou muito pouco televisiva e, em minha casa, quando a caixinha está acesa, é normalmente a Sport TV que impera... Não me importo muito, porque o ruído de fundo do futebol não me perturba por aí além e posso ler um livro ao mesmo tempo que o Manel vê os jogos e, de vez em quando, já nervoso, dá uns pontapés no ar. Havia, porém, uma série que gostava muito de ver aqui há um ou dois anos. Chamava-se Conta-me como Foi e fora escrita, entre outras pessoas, por uma guionista que muito admiro (e de quem sou amiga, convém que se diga) – Helena Amaral –, tendo como consultora outra Helena (esta Matos), que fez ali um trabalho excepcional de reconstituição de época. Provavelmente, essa pesquisa foi o princípio de uma investigação mais demorada para um livro que acaba de sair – Os Filhos do Zip-Zip –, centrado no Portugal dos anos 70 do século passado. Quem se lembra do Zip-Zip, um programa que mudou a forma de ver televisão em Portugal, conduzido por Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado, sabe que estou a falar de uma aventura televisiva que mobilizou milhares de espectadores ao longo do período em que foi emitido, tanto pelo divertimento como pelo lado polémico e transgressor. Este livro parte, pois, dele para nos oferecer um relato das mudanças que então se verificaram no País, desde a ida de muitas famílias para os arredores, as tertúlias nos cafés, o aparecimento dos primeiros supermercados, as músicas, os anúncios e os brinquedos como o Lego. A minha geração agradece a lembrança. Ainda não li, mas já o tenho em casa.
Cheguei a Portugal um pouco depois dessa época mas lembro-me bem de chegar a um país onde supermercados só existiam nas grandes cidades, onde escadas rolantes eram um sítio de peregrinação, onde tinha de esperar pela hora de a televisão "abrir" e onde, mais estranhamente, a Heidi tinha uma saia cinzento-escuro. Não foi fácil...
ResponderEliminarAposto que isso aconteceu alguma vez em todos os países incluindo o seu, seja ele qual for. A Bwphd é que não estava lá para o ver.
EliminarEra no tempo em que os dias tinham manhã, tarde e noite...e em que um Natal se distanciava um século do próximo...
ResponderEliminarNão me recordo do Zip-Zip : nessa altura vivia nos Açores e não havia televisão, no arquipélago. As emissões começaram em 75, já eu tinha 12 anos. Nada que me fizesse falta, garanto. Na minha infância era à volta da rádio que passávamos os serões. Talvez por isso, ainda hoje, privilegio muito mais a rádio.
ResponderEliminarGostei muito do Conta-me como foi. A reconstituição da época estava perfeita! Adorava ver aquilo. Até as latas de guardar o açúcar e a farinha eram iguaizinhas às da minha mãe. Achei o máximo!! E vou procurar esse livro que refere: adoro rever essa época. Dá-me uma imensa nostalgia.
Gostei bastante do Conta-me como foi, série que brilhava na boa reconstituição de época, bem interpretada e para mim com o aditivo de ser contada. Talvez por ter pertencido a uma geração em que os contos não eram lidos, mas se contavam, ainda hoje prefiro filmes em que uma voz calma se insinua pela sala e toma posse, já despida das paixões que a habitaram, a desfiar a vida e o seu entendimento dela.
ResponderEliminarE, sabendo que todos os tempos são mudança, acompanha-me a convicção de que as gerações a quem foi dado viver o antes e o depois de Abril, são obrigadas a contar. Oralmente. Porque a tradição do conto é oral. E por escrito. O interesse pela árvore genealógica é curta linha de entender quem fomos. Quem somos. Ninguém deixa de ser quem foi.
Somos o nosso passado. O presente talvez não exista e o futuro ainda não somos.
EliminarÓ Cristina
EliminarEu não sou o meu passado nem o meu futuro: sou o meu presente. E, este, vivo-o dia-a-dia, considerando que o anterior já é passado e o seguinte uma incógnita.
Como historiador, busco e rebusco o passado, mas tenho a impressão que já não lhe pertenço.
Só aceitando o nosso passado, os bons e os maus momentos, tudo o que faça parte de nós, podemos construir o futuro. Começar (ou recomeçar) do zero, é, para mim, uma utopia. Podemos usar a expressão sob um aspeto simbólico, mas só isso.
EliminarO seu breve comentário sintetiza tudo o que foi dito. Subscrevo.
EliminarCristina
EliminarTalvez já nem leia...mas só agora um tempinho.
Creio que somos sempre também o nosso passado. Mas toda a acção é do presente e transforma-nos - penso que será esse um dos motivos porque não somos apenas passado; se o fôramos, o agir tinha morrido. Só somos passado inteiro, se morremos. Na totalidade. Ou em parte. Que também se morre por partes. Vivemos rodeados de morte. Mas também ressurgimos e renascemos :), é tudo vida. As mortes, as nossas muitas, são constitutivas.
Quanto ao futuro, concordo, ele ainda não é, mas o projecto é a sua antevisão. E há um lado desejante de nós que projecta. O desejo é todo do futuro. Porém, sente-se no presente :)
Não podemos fugir ao tempo nem à sua sequência. Creio que nem saberíamos.
Beatriz,
EliminarEu usei uma imagem filosófica que diz que o presente não existe, porque tudo o que se passa... já passou (seja um segundo, ou uma fração de segundo). É apenas uma teoria. No nosso mundo palpável, podemos dizer que vivemos no presente (que existe, quanto mais não seja, como tempo gramatical ;). Por isso, concordo quando diz que o presente nos transforma.
Ressurgimos e renascemos, é verdade. Mas, a menos que soframos de amnésia (uma doença que, indubitavelmente, existe), carregamos sempre um certa bagagem: a nossa experiência de vida, ou seja, o nosso passado. E, na minha opinião, projetamos melhor o futuro (no presente), se incluirmos o nosso passado. As partes menos boas também não devem ser ignoradas, pois ajudam-nos a evitar erros já cometidos. Isto soa óbvio, muitos opinarão que nem há necessidade de o dizer. Mas, na verdade, uma grande parte das pessoas está constantemente a cair nos mesmo erros!
Cristina
ResponderEliminarEntendi o sentido filosófico. Mas, em filosofia pode, defender-se tanto o passado como que o presente é o único que existe, ou que o futuro o seja (poderia fazê-lo aqui, mas não me apetece :); sobretudo por discordar parcialmente de tais explanações teóricas). Na vida não.
Concordo consigo, o passado levamos onde estamos, somos também ele E é lição, sim. Mas não é tão fácil dizer como fazer, projectar como executar; todos nós dizemos que à primeira cai qualquer e à segunda só quem quer. Mas cai-se mesmo não querendo. Porque nem tudo na vida é da ordem racional. Há em cada um de nós obtusos inexplicáveis.
Se a vida fora como propõe, quase não haveria erro ou culpa. Emendávamos à primeira. Mas o que é verdade para situações técnicas, digamos, não o é para aquelas que nos habitam do lado de dentro. O homem, como dizia Kant é aquele ser que não é por conhecer a lei que a si mesmo deu que a pratica :).
E assim é viver. Também.