De leitura obrigatória

Bem sei que tudo o que cheira a obrigação traz em si uma promessa de aborrecimento e quase juraria que a maioria dos livros que tivemos de ler na escola não fizeram muitos leitores futuros dos seus autores. E o pior é pensar que isso aconteceu porque, em muitos casos, não tínhamos maturidade suficiente para os compreendermos. Ocorre-me, por exemplo, que Gil Vicente nos divertia com os seus palavrões (no meu tempo frequentemente suprimidos), os parvos e as alcoviteiras, mas dificilmente abarcávamos as implicações teológicas e o anticlericalismo dos seus textos; e que Fernão Lopes foi sempre ganhando peso e maravilha à medida que eu crescia e o relia, transformando-se numa coisa completamente diferente no final. Outros, porém, ficaram mesmo por reler, como o Herculano que, na adolescência, me pareceu tão insuportável (“E a abóbada não caiu!”) que nunca mais me chamou para a releitura. Em todo o caso, fiquei, sei lá porquê, chocada ao saber que Camilo desapareceu do currículo escolar. Bem sei que o novo ministro pode reintegrá-lo, mas num tempo em que as pessoas parecem apreciar enredos trágicos e paixões funestas, não seria de aproveitar a onda e, de caminho, ensinar centenas de vocábulos portugueses a uma população que recorre a um léxico cada vez menor?

Comentários

  1. Não posso deixar de comentar que, por muito maus que fossem: o currículo, os professores (excelente, diga-se de passagem) ou os manuais, eu a-d-o-r-e-i «Os Maias». E fui pelo Eça fora, a ler, a ler. E detestei o Garrett. É assim. Voilà.

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    1. Aos 13 tinha lido o Eça todo, excepto ter parado na reliquia pq era mto palermita. Não li, por respeito, o livro que ele não quis que fosse publicado. Se me dessem todas as palavras do Eça (e Camilo) e fosse homem tinha uma união de facto com ele, conquistava-me. Como diz a Ana de Am: para que serve o sentido de humor? ;)

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  2. Os livros não devem ser obrigados a ninguém, mas devemos apontar caminhos para iniciar a sua leitura. É verdade que no meu tempo de escola fui obrigado a ler Garrett, Gil Vicente e também Alexandre Herculano. Não apreciei o Garrett, mas a sua poesia abriu imberbes caminhos à minha iniciação poética. Só não gostei de discutir os poemas de As Folhas Caídas e os seus sentidos com a professora, pois a minha leitura tinha outras interpretações. Enfim. Adorei o Gil Vicente e o seu humor mordaz e deliciei-me com a escrita burilada de Herculano, e tão fascinado fiquei com Eurico, o presbítero que quase chorei com a sua morte, oferecendo o pescoço ao alfange, com a loucura da sua amada. Depois dessa obra, atirei-me, sôfrego, ao Bobo, ao Monge de Cister, à Harpa do Crente.
    É uma pena que Camilo não faça parte do programa, assim como Camões, Florbela Espanca, Bocage, António José da Silva, Tolentino, Aquilino Ribeiro, entre tantos outros esquecidos.

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    1. O Rui foca um aspecto importante: o gostar, ou não, de certas leituras pode depender do/a professor/a. Acho que é muito importante eles interessarem-se pela interpretação dos alunos (e discutirem-na). Deviam mesmo ficar contentíssimos por cada aluno/a que faz a sua própria interpretação.

      Mas, enfim...

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  3. Há um crescente facilitismo na orgânica do sistema educativo.

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  4. Na determinação das leituras escolares programáticas, projetam-se fantasmas de quem determina. Mas a leitura deve provocar e não revogar. Há mais modos de ler do que livros. Os efeitos das experiências escolares são sempre diferidos.

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  5. Boa tarde,

    Porque diz que vivemos num tempo em que as pessoas parecem apreciar enredos trágicos e paixões funestas?
    Não terá sido sempre assim?

    Obrigado pelas suas sempre agradáveis exposições.

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    1. Basta ver a audiência dos noticiários mórbidos, das telenovelas e ainda saber que o Correio da Manhã é o jornal mais vendido.

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    2. António Luiz Pacheco5 de julho de 2011 às 07:17

      Lá isso... a morbidez atraiu e atrairá!
      Se bem que não me pareça apanágio nosso...

      Concordo com a opinião de MªRP ...
      E veja-se que muito do que se publica de origem portuguesa, continuam a ser romances pesados e cinzentos, cheios de estados de alma negativos e opressivos, de conflito interior ou com o Mundo... os fantasmas dos escritores exorcizados no papel!
      Enfim... é o que me parece, posso estar errado.

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  6. António Luiz Pacheco5 de julho de 2011 às 05:17

    Os grandes autores ou obras são eternos!

    Frase feita, talvez mesmo lapidar, que foi verdade durante muito tempo... e por isso é que Fernão Lopes ou Gil Vicente (para falar de dois que foram muito bem citados) chegaram até à nossa juventude.

    Mas, para o público em geral entenda-se já não é assim! Para o público, tudo depende do merchandising e das políticas do marketing das distribuidoras, editoras e livreiros...

    Para um apaixonado, o pesquisador, o "rato de biblioteca", aquela frase ainda é e será sempre absolutamente verdade!
    Esperemos que persistam...

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  7. António Luiz Pacheco5 de julho de 2011 às 05:27

    Acredito que a escolha daquilo que serão os autores ditos escolares, de facto depende da inclinação política e filosófica de quem a faz, e, dos seus traumas ou fantasmas, como foi aqui dito. Pessoas que recusam ou não entendem a sua própria cultura e os que fizeram a história. Que deliberadamente querem apagá-la, porque ou seguem modas e tendências ou não entendem o clássico como aquilo que é.

    Claro que Garret é chato!(perdoem-me Ana Margarida, João, Blu...)
    E Herculano, chatíssimo! (A este não peço desculpas, já que os meus vizinhos Ferreira Lima deram seguimento sobretudo ao azeite e mantiveram a casa, no maior respeito.)
    Pessoalmente confesso que não gostei lá muito de Gil Vicente...
    Mas percebi, porque me foi explicado (obrigado drª Mª Helena, dr. Carlos Barata, drª Virgínia Lima) o que significaram cada um e qual a sua importância no contexto temporal, no panorama cultural e político. Ensinaram-me a remontar à época e analisar segundo esse prisma aquilo que para miúdo adolescente nos anos 60 e 70 parecia ridículo... uma caretice!
    Essa a diferença, talvez, porque havia e tive muito bons professores de português nos três ciclos liceais!Durante a minha curta experiência pedagógica de 6 anos, os meus colegas que leccionavam português eram sobretudo oriundos de história e filosofia. Talvez isso tenha marcado de modo negativo todo o processo, aliás e perdoem-me, muito influenciado pela visão política da esquerda que ainda hoje domina o professorado!

    A mim o que mais marcou indelévelmente e depois me levou a ler tantos autores, foi sem dúvida a "Selecta Literária", e, em vez de se ler obrigatóriamente uns tantos autores, creio que seria muito mais pedagógico e enriquecedor, ler trechos de obras!

    Pessoalmente não compreendo que se retire Camilo do programa... logo ele! Mas quem sou eu?

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  8. A primeira resenha que fiz foi de "O auto da barca do inferno", e lembro bem que a história termina contabilizando dez condenados ao inferno e seis agraciados com o paraíso, proporção que, a toda evidência, não deve empolgar os crentes.
    :- )

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  9. Os livros estão para humanidade como para a civilização, é fato.
    Tanto como caminhos ou barreiras, pontes ou precipícios.
    Até quando? E, pois desde quando assim o fora...
    Por como obras e de toda obra, hão de ordem!
    Quem sabe lidar com responsabilidade das palavras?
    Com este trajeto pode nos trazer a consciência ou a imprudência por não saber dos limites. Quais as reais diferenças entre o conhecimento e a causa de cada autor, ao que deste abençoa ou se do contrário. E se exista algo que, atrasa, emperra ou, que influencia quando não correto.
    Ao que suspenda e produza esta aura de discernimento, de crescimento e entusiasmo.
    Então, se assim o for seria possível sanar todo vício pela humanidade.

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  10. A Matéria dos Livros5 de julho de 2011 às 12:19

    Todos temos crenças sobre as leituras escolares e as consequências das obrigações implicadas. Diz-se que o dever impede a criação de leitores daquele autor clássico lido a contragosto, muitas vezes sob a forma de resumo...
    Ora, se esta constatação será visível em certos casos, noutros é exactamente ao contrário. Há quem tenha gostado muito de Herculano, nos seus dezasseis, dezassete anos, e gostado nada de Cesário e que, mais tarde, se tenha tornado leitora de ambos, especialmente do último. Na minha perspectiva, o que condiciona indelevelmente o futuro é a ignorância e a insistência nela, em nome do prazer, do lúdico, ou do útil. Assim, ainda mais chocante que a ausência de Camilo nos programas de Português é, ainda no meu modo de ver, a rasura da poesia trovadoresca, de muitos dos clássicos da nossa literatura e da indefinição quanto à poesia do século XX, a que alguns chamaram o século de ouro da poesia portuguesa. E todo este silenciamento para quê? Para se introduzirem os textos utilitários, tais como requerimentos, regulamentos e quejandos?
    Partilho a saudade de Camilo, mas temo que o deserto seja muito mais árido do que aquilo que as sempre delicadas palavras de Maria do Rosário Pedreira, e dos seus leitores, podem fazer crer, infelizmente. Já não basta um professor apaixonado, como alguns comentários anteriores parecem indicar. Esse professor talvez tenha de procurar uma praia ensolarada, para fugir à depressão! (Aqui, brinco um pouco; perdoem-me os outros participantes, autora e comentadores, pela acidez do verbo...)

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    1. António Luiz Pacheco5 de julho de 2011 às 13:22

      Esclarecida a sua opinião, e esclarecedora, se me permite o atrevimento!

      E assim me silencio... porque daqui por diante o que quer que dissesse seria ruído - mais do que o habitual!

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