O livro ou o prémio

O senhor do quiosque onde há muitos anos compro diariamente o jornal e um maço de cigarros – e que, além destes dois mesmíssimos artigos, vende também ao Manel a Lire, a Ler, Os Meus Livros, o Magazine Littéraire, o JL, El País de sábado e tudo o que tenha que ver com livros – diz que já há algum tempo que não vende revistas. Não, não é por causa da crise. O que quer dizer é que já não são exactamente as revistas que as pessoas lhe compram, mas as malas, sandálias, lenços, faqueiros e outra tralha que as revistas oferecem ou comercializam a preço de saldo para conseguirem vender-se; e que as pessoas já não escolhem entre a Lux, a Caras e a VIP, mas entre, por exemplo, umas havaianas, uma bolsa de ráfia e um saco de praia. Recentemente, uma editora de livros, que por acaso até é do grupo para o qual trabalho, também pôs à venda cinco títulos diferentes acoplados a echarpes de cores distintas – e temo que as pessoas deixem de olhar para os autores desses livros e, afinal, escolham sobretudo pelo tom da echarpe que lhes dá mais jeito. Quando, numa sessão no Chapitô, se discutiam recentemente as vantagens e desvantagens do livro electrónico, o editor Carlos da Veiga Ferreira aproveitou logo essa campanha para dizer: «E nos e-books como é que incluem as echarpes?»


 

Comentários

  1. isso confunde toda a gente, os vendedores e os compradores.

    às tantas perde-se a noção do que se está a comprar e a vender. :)

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  2. A técnica de apresentar um produto habitual com uma nova "roupagem" ou a técnica de oferecer brindes (que são pagos, pois por norma quem os coloca já sabe que nesse produto aumentam as chances de ter mais vendas) são apenas artefactos de marketing que ajudam ao objectivo final, que é vender.
    Não me admiro nada que para vender um e-book na net, ofereçam com a compra, por exemplo um primeiro capitúlo de um outro livro em formato PDF ou outra coisa do género. De certeza que já inventaram processos deste género para para promover a venda dos e-books.
    Nós os consumidores é que temos o poder de escolher o livro ou o prémio. Pessoalmente opto sempre por escolher um livro pelo livro e não me recordo de lguma vez ter comprado um livro com uma oferta em anexo.

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  3. Pois eu deixei de comprar as revistas e passei a comprar os livros (os que valem a pena) que vêm junto e que podem ser vendidos à parte.

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  4. Pois a mim, acontece-me com alguma frequência receber brindes por ter comprado livros.

    E o que é o brinde?...

    Pois – um livro extra, grátis, à minha escolha!

    Isto acontece nas feiras mensais de Amarante e Figueira da Foz, onde se vendem velharias. Entre elas, livros em segunda mão.

    É verdade que, de há uns anos a esta parte, me abasteço nestes locais por razões de rating, se me faço entender…

    Mas isto fez-me, justamente, entender plenamente o que é a essência do conceito de livro.

    Um livro, para adquirir a plenitude do seu estatuto, deve transitar antes de chegar às nossas mãos.

    Esse trânsito anterior acrescenta-lhe conteúdo, enriquece-o com algo de dificilmente definível, qualquer coisa extra que lhe é incorporado pelos anteriores leitores, e que fica ali subjacente, impossível de ignorar quando eu exerço a nova leitura.

    Quer dizer: cada livro que aqui compro traz consigo, já intrínseco, algo de extra, o brinde deixado à minha imaginação pelo(s) anterior(es) leitor(es).

    Não existem regras para isto – ou, se existem, não foram ainda sistematizadas (ainda bem…).

    Tenho encontrado as mais variadas pistas deixadas por anteriores leitores. Algumas visíveis. Num caso concreto, liguei para o nº de telefone que vinha apontado numa das páginas. A pessoa que me atendeu não tinha sido proprietária transitória do livro. Mas, graças ao meu contacto, leu o livro e, mais tarde, telefonou-me a agradecer, porque o tinha lido na expectativa de que, falando dele no seu círculo de relações, haveria de descobrir quem havia acrescentado o seu nº de telefone ao livro. E descobriu. E consolidou essa amizade.

    Joaquim Jordão, Amarante

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  5. António Luiz Pacheco8 de julho de 2011 às 08:54

    Chamo muito respeitosamente a atenção para o facto de que as revistas na versão... coisa... sei lá, em não-papel pronto, nunca terão outras utilidades nada despiciendas:
    - Serem lidas na retrete!
    - Metidas por dentro da roupa impedirem o frio quando se anda de mota ou carro sem capota!
    - Decorarem salas de espera dos dentistas, dos advogados e as barbearias!
    - Não se poderem recortar as fotografias de meninas com maminhas grandes e de calções pequeninos para pôr nas paredes das oficinas!
    - Forrarem a mesa da cozinha para se arranjar peixe.
    - Forrarem o fundo da gaiola do pássaro, do caixote do gato ou o ninho do cão!
    - Enroladas servem para matar moscas ou dar umas bordoadas no tal cão... ou até num jovem sobrinho-peste .
    - Embrulharem as tigelas e tachos quando se fazem mudanças...

    É por isso que acho que a imprensa em papel jamais acabará!

    Quanto à praga das ofertas... tenho caixotes de vídeos, quase sempre péssimos, e não sei o que lhes hei-de fazer... já são demais para fazer flashers para a pesca no azul, e são de menos para espantar os estorninhos da vinha ou os pardais do trigo... quanto aos melros que me vão ao dióspiro não tenho onde os pendurar!

    Bom fim de semana!

    PS - Já recebi o "Histórias do Deserto" e já percebi que vou gostar, até da poesia que é à minha medida!

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  6. Já me aconteceu é comprar revistas porque trazem livros :)

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  7. Em Portugal compra-se, infelizmente, mais os livros pelo "design" do que pelo conteúdo. Não faltam casos exemplares, e os opinion makers cá do cantinho bem têm contribuído para isso, ostracizando grandes livros que não têm o design xpto que lhes agrada, e pondo nos píncaros os livros da... e da... e da... porque têm capas X, mesmo antes de lerem o livro e saberem se é bom ou não.
    Mas, enfim, é o que temos por cá. Há que parecer bonito por fora para ficar bem na prateleira e o conteúdo pouco interessa. País triste.

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