Tintim sou eu

Ainda hoje me lembro de ter tido um pesadelo no dia em que comecei L’étoile mystèrieuse, um dos primeiros livros de Tintim que li na vida. A aranha que fizera a sua teia na ponta do telescópio e, gigantesca, parecia fazer parte do planeta observado, abraçando-o, assustou-me. Era miúda quando comecei a ler o Tintim e os livros eram em francês, de capa dura e do meu irmão mais velho (que ainda os tem). Na altura, não tinha idade para me aperceber da dimensão dessa fascinante personagem (um miúdo de calções seguido por uma cadelinha, mas afinal já repórter e a investigar matéria de peso, portanto não miúdo, mas afinal sem namorada ou mulher, o que era estranho, mas...) nem das implicações políticas das aventuras de que era protagonista. Muito mais tarde, depois de reler várias vezes os livros, encontrei um ensaio esclarecedor, ainda que às vezes demasiado imaginativo, sobre Tintim, escrito como tese de doutoramento em psicanálise por um francês chamado Serge Tisseron e intitulado muito justamente Tintim no Psicanalista. (A epígrafe desse livro é, de resto, o título deste post e foi, como todos sabem, dita por Hergé, o criador da personagem, numa entrevista.) Nesta tese, o nosso querido repórter do caracol afastado da testa é psicanalisado e, entre outras coisas, descobrimos que o Professor Tournesol desempenha o papel de sua mãe e o Capitão Haddock de seu pai e que, afinal, a infância de Hergé tem muito que ver com uma certa orfandade da sua personagem. Bastante original.

Comentários

  1. Eu, que comecei a ler O Cavaleiro Andante e mais um ou outro que havia nesse tempo, que li montes e montes de Patinhas, nunca engracei com o Tintim e pouco ou nada li dele. Ainda leio BD, embora outra, mas não lerei nunca Tintim. Dessas figuras desses tempos, tenho saudades do Peninha...

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    1. O Peninha é uma personagem interessante e eu gostava de saber se foi criada pela Walt Disney americana. Na Alemanha, ainda não encontrei ninguém que conhecesse o Peninha!! Nem a redacção do Jornal "A Patada"!! O que me leva a pensar que serão criações brasileiras (como todos sabemos, lia-se em Portugal a versão brasileira desta BD, não existia uma portuguesa).

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  2. Não era das minhas BD preferidas mas isso não me impediu de ler toda a colecção. As férias eram muito grandes e a Bedeteca da Figueira foi lida e relida muitas vezes. Já agora, tenho a impressão que o Milou é um cão e não uma cadela (apesar do nome), é mais uma ambiguidade do Hergé.

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  3. Uma aranha no telescópio?! Já nem me lembrava. Fui confirmar e lá estava ela, a passear na lente. Dá-me jeito, porque tenho andado de volta de Aracne , de Franco Alexandre. Os primeiros Tintim que li eram da Editora Flamboyant de São Paulo, Brasil, que se vendiam aqui pelos anos 60 e, salvo erro, chamavam ao Haddock Capitão Rosa. Tirando um pormenor ou outro, nem se notava essa proveniência ou a diferença ortográfica. O racismo evidente e a estranha ausência de mulheres, que reconheci mais tarde, não me conseguem fazer renegar o Tintim da minha infância. Posteriormente, tive acesso a uma edição brasileira mais recente, e chocou-me a linguagem incrivelmente modificada, cheia daqueles modismos em que a língua parece ser mais prolífera a sul do Equador.

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  4. Li o livro de Tisseron. Tem na parte final considerações psicanalíticas acerca da prática do desenho nas crianças. Já não me recordo do teor, mas por isso guardei o livro. Recordo-me também uma entrevista de um desenhador francês na berra dos anos 70, Mandryka, onde diz que a razão inconsciente de desenhar estava na similitude sonora entre o pai ser médico (médecin) e os rabiscos (mes dessins)... E esta?
    CPTS.

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  5. Comprei o livro há muitos anos.
    E tive a grata oportunidade de assistir a uma palestra do Tisseron no Instituto Franco-Português, lá para 1993. Magnífica!
    Quando lhe perguntei se não estava a descobrir coisas demais em relação ao que Hergé quereria transmitir, respondeu: "É bem capaz de ser verdade".

    Voltou a Portugal e voltei a ouvi-lo a propósito de um assunto completamente diferente da BD. E não é que me esqueci do assunto?

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