Soberania ou incompetência
Todas as línguas têm regras e estas fizeram-se para ser cumpridas. Mesmo assim, um certo incumprimento pode ser visto como marca estilística de determinado autor, como o comprovam a pontuação nos livros de Saramago ou a ausência de maiúsculas em valter hugo mãe. Acredito que ainda seja uma opção consciente de António Lobo Antunes a supressão do «de» antes do «que» em expressões que o exigiriam (como «ter medo», «aperceber-se» ou «estar à espera»), uma vez que as suas obras são todas fixadas por Maria Alzira Seixo e não a vejo a perdoar esta falta (chamemos-lhe assim) por sua alta recreação, estando, pois, convencida de que o autor simplesmente não aprecia o «de» e exerceu a sua soberania. De qualquer modo, já li livros muito literários – alguns inclusivamente galardoados com prémios importantes – que não entendo como foram publicados e distinguidos com erros tão graves como o desconhecimento do verbo «posar» (as personagens «pousavam» todas para as fotografias ao longo do romance), a ortografia errada nas palavras inglesas («Okey» por «Okay» repetia-se até à exaustão) ou a sistemática confusão entre os verbos «vir» e «ver», que, num caso, produzia uma frase bastante sugestiva que nunca esqueci: «[...] bares onde se vêm bailarinas grávidas com batons escuros.» Neste romance, penso que não se tratou de soberania: já é grave que um autor não saiba coisas tão elementares, mas a pessoa que assina a revisão bem podia devolver o dinheiro que recebeu pelo serviço…
ResponderEliminarTambém gostei das bailarinas.
É bom ter a arma sempre pronta a disparar sobre os autores que não sabem escrever (e não sabem) e os revisores que não sabem rever (e, em grande parte do tempo, saber ou não saber pouco importa porque, no fundo, o que eles não têm é tempo).
ResponderEliminarGostava antes de poder disparar sobre os editores (ou os pseudo-editores, ou aquelas pessoas que fazem livros, ou o quanto anda por aí a fazer sabe-se deus o quê que depois saem livros...). Ora, vejamos: são os editores que convidam ou decidem que escritores publicar - e se publicam um tipo que não sabe escrever só porque ele tem uma história para contar, devem estar prontos a pagar o preço. Depois, se dão uns quantos dias para que o livro seja revisto, não se pode pedir que o revisor seja o descobridor de todo o ouro do Brasil (aceito que ele terá que pensar duas vezes se vir uma bailarina grávida a vir-se, mas também já vi coisas bem piores a acontecer em bares escuros que só existem nos livros).
Ou seja, na altura da execução, comece-se por cima. Apagando umas nuvens é logo mais provável que comece a aparecer algum sol.
Dou-lhe completa razão, mas não estou, para que saiba, a falar desse tipo de livros encomendados de gente que não sabe escrever. Estou mesmo a falar de livros premiados com o PEN ou o APE, juro. E adorei o seu texto, digo desde já. Muito bem escrito. Não o convido a escrever um romance, porque isso poderia parecer uma encomenda e, com encomendas, já se sabe (risos).
EliminarChapeau.
EliminarNão me parece que as "culpas" se possam imputar a um só. Nos casos apontados parece-me óbvia, em primeiro lugar, a responsabilidade do escritor e depois a do revisor. Desconheço se há sempre um editor como MRP, mas se o houver, também terá a sua quota parte de responsabilidade. Conheço um caso muito concreto em que a responsabilidade é de quem manda editar, mesmo sabendo que tem erros. Há um livrinho que nem cem páginas tem, mas pleno de erros de tradução. É um livrinho cuja leitura um professor da disciplina de lógica da faculdade de Letras exigia aos seus alunos. A primeira aula era para corrigir os erros de tradução do livro. Esse professor deu-se ao trabalho de traduzir integralmente o referido livro, até com notas explicativas e ofereceu a tradução à editora. Pois e editora continuou a imprimir o livrinho com os mesmos erros. Erros bastante graves, porque não eram meros erros ortográficos mas alterações completas do conteúdo e sentido. Tanto quanto sei, nenhuma alteração foi feita até hoje e já lá vão bastantes anos.
ResponderEliminarSinceramente compactuar com erros?
ResponderEliminarToda edição tem que ser limpa e obedecer regras, pois só existem com esta finalidade. As regras são aterior ao estilo, como um fio que norteia a obra. A perfeição é adequar um estilo as regras e não novas regras como estilo. Eis a confusão entre quem é autor ou artista.
De impressão, (periódico) como editor(a), confesso ter assumido o prejuízo finaceiro ao suspender a distribuição, o critério foi nova impressão corrigida. E, por falha alheia.
Mas é da responsabilidade de cada um e não interessa desculpa de tempo, de família, de stress. São escolhas. A síndrome do super homem tem por agravante a má qualidade e uma cadeia de contágio, sintomas de euforia, quando na realidade a saúde deve ser entusiamo e discernimento.
"Um erro de impressão é como andar nu e cada um deve cobrir sua vergonha".
Sou revisora e há uns meses apanhei esta que se segue. Ipsis verbis, juro! «Os cientistas vêm-se a braços com os mesmos problemas de tradução.» Tratava-se, claro está, de uma tradução...
ResponderEliminareu já desisti de anotar os erros que encontro por aí. comecei a escrevê-los em papelinhos achando que mais tarde enviaria para as editoras, mas acabei por nunca enviar nada.
ResponderEliminarum dos que nunca esqueci foi uma troca de nome. no conto "fetos em álcool" de agustina bessa-luís (contos impopulares, 5a ed., guimarães editores, 2004), luciana passa a lucinda. tive de ler o conto várias vezes seguidas para me convencer que era realmente defeito e não feitio.
O meu terapeuta me proibe de participar de discussões inflamantes, daí porque apenas ressaltarei o que penso sem maiores pretensões.
ResponderEliminar:- )
A gramática, do meu ponto de vista, serve, se tanto, como sugestão, uma muleta àqueles que têm dificuldades de se expressar através do português. Nada mais.
Os lingüistas propõem "cientificar" o ensino de idiomas a partir de certas evidências, como a de que o cérebro humano possui uma estrutura modular que organizaria a aquisição da linguagem em princípios (universais) e parâmetros (culturais); daí porquê dos humanos adquirirem competências lingüísticas mais ou menos na mesma faixa etária. Tais evidências amparam uma teoria baseada em definições como competência (capacidade de determinar se determinada frase é gramatical ou não), performance (uso da língua) e recursividade (combinação de constituintes de mesma natureza), e outros tantos.
Com isso, o aluno aprenderia não apenas os parâmetros de seu idioma natural, como teria franqueado a compreensão gramatical de tantíssimos outros idiomas, bastando internar seus parâmetros. A vantagem da chamada "gramática gerativa" parece evidente neste caso. Outro ponto a favor dessa gramática é o fato de que ela não admite exceções, além de priorizar a lógica ao invés da "decoreba".
Atualmente, o ensino da língua portuguesa passa por dizer ao aluno o que seria certo e errado, partindo de paradigmas literários arbitrariamente escolhidos pelos gramáticos. Ocorre que o "certo" e o "errado" é uma noção muito subjetiva: Camões foi certo durante décadas, hoje é necessário "traduzi-lo"; os exemplos da gramática normativa no Brasil partem de Machado e Alencar, incapazes, "concessa venia", de responder à evolução lingüística.
Vamos aos exemplos:
Nas frases "Cê viu Maria saindo?" ou "Quem que cê viu saindo" é relativamente fácil perceber que o "cê" está no lugar do sujeito e substitui o pronome "você". Em outra língua a posição do sujeito seria a mesma e veremos quão mais útil se torna essa teoria. "You saw Marie living?"
Contudo, se deslocamos o "cê" para outro lugar, como na frase "A Maria vai ver 'ce", ao invés de "A Maria vai ver você", a substituição não é admitida, visto que o parâmetro exigido ali é outro.
O meu modo particular de manipular o idioma (o meu "idioleto", vá lá) valoriza princípios que radicalizam esse entendimento: eu simplesmente dispenso a gramática, gerativa ou tradicional, e me preocupo com noções como economia, síntese, redundância, ritmo e lógica; e penso que com Saramago havia mais ou menos a mesma coisa (perdoem-me a comparação); todavia, qualquer falante do português reconheceria a gramaticidade dos meus textos, ainda que o conteúdo o fuja numa primeira vista.
Incomoda-me em particular a ideia de que existam duas línguas, uma culta, outra coloquial; principalmente porque, dentro da própria "língua culta" existem diferentes níveis de profundidade. Culto seria utilizarmos o vós, como os italianos ainda o fazem, mas para o brasileiro o "vós" hoje é pedante.
Existiriam, pois, várias línguas cultas e várias línguas coloquiais, e a escolha de uma delas como padrão privilegia o modo de falar de um grupo em detrimento dos demais, abrindo espaço para preconceitos lingüísticos.
Perdoem-me por escrever demais sobre um tema que estou longe de dominar: no fim é apenas mais uma opinião.
:-)
Apesar de raríssimas excepções que, como se costuma dizer, confirmam a regra, a regra dos comentários neste blogue afasta-se bastante do padrão geral da blogosfera. Primam pela elegância da escrita, pela profundidade das análises, pelo respeito para com os restantes pontos de vista: em suma, pela elevada qualidade.
ResponderEliminarNa esmagadora maioria dos blogues o tema lançado pela MRP geraria uma vozearia (cheia de alarvidades, insultos, barbaridades lexicais, gramaticais e semânticas) contra a «ignorância» reinante no ensino (que há, sempre houve e sempre haverá), a «incompetência» dos professores (que há, sempre houve e sempre haverá), o «eduquês» (agora tão falado), isto a par da glorificação da excelente formação recebida pelos críticos de serviço, em ambientes igualmente de excelência, ministrado por mestres marcantes não menos excelentes. Isto é, uma gritaria que, espalhando vozes ao vento, mais não faria do que limitar, afunilar mesmo, a compreensão da questão.
Como em tudo na vida, as coisas nunca são tão simples como parecem nem são passíveis de simplificações apressadas: resultam de uma multiplicidade de factores.
Os erros apontados pela MRP são um bom exemplo dessa multiplicidade de factores (neste caso de responsáveis) que, em diferentes escalas de responsabilidade, intervêm no processo de produção, circulação e consumo de um livro: os indirectos, que se encontram a montante (ensino: programas, professores, alunos); os directos activos, que se encontram no «leito do rio turbulento» (escritores, editores, revisores, críticos literários); os directos passivos, que se encontram a jusante (os leitores).
E não falei do «ambiente ecológico» em que se vive, marcado pela pressão do Português do Brasil (e até do Inglês), «ambiente ecológico» esse que é veiculado pela presença avassaladora e pelo imediatismo dos «media» nas nossas vidas, que gera as mais estranhas formas de expressão escrita da língua, senão mesmo muitos dos inúmeros problemas no seu uso com que nos confrontamos diariamente. Eu arriscaria mesmo a classificar esses problemas como um retrocesso a caminho da «barbárie da língua».
Pela "barbárie da língua" haveria de ser herança dos quinhentos passados em busca de "terras sem mal". Pois nesta, a língua que desconhecida por chicote celebrava seu paraíso sem noção de suas vergonhas, não havendo culpa... Apenas existiam por existir e seria dádiva ou dadiva?
EliminarRestam os dedos que apontam para ecologia por derivação.
Cordialmente
Se as coisas fossem assim tão simples...
ResponderEliminarDeveria um revisor devolver o dinheiro que recebeu pelo serviço, se corrigiu e alertou mais de uma vez, mas o autor recusou implementar a correcção e o editor o apoiou cegamente?
Quantas vezes fui obrigado a deixar passar erros clamorosos, só porque o autor clamou que lhe «desfigurei todo o livro» (!) e o editor achou por bem fazer-lhe a vontade, sem pensar no prejuízo que estava a causar na imagem da editora para que trabalha?
Só quem está por dentro sabe como tudo isto se processa. E nem me referirei à questão do tempo, do pagamento ou falta dele, entre muitos outras. Daí o meu espanto por MRP se mostrar indignada. Indignado fico eu quando me vejo obrigado a pedir que o meu nome não saia na ficha técnica: se nem autor nem editor têm vergonha de ver o seu nome associado a determinados resultados, tenho-a eu.
Pois é, Tiago, só quem está dentro da mecânica das coisas é que consegue ponderar todos os «e se»...
EliminarJá me estou a imaginar a ler livros (apenas como exemplo) como a “Explicação dos pássaros” ou a “Morte a crédito” repletos de erros. Desde que não alterassem a percepção do texto, queria lá eu saber da porcaria dos erros.
ResponderEliminarMas sim, escrever correctamente é muito importante, sem dúvida nenhuma. Nem quero colocar isso em causa.
Boa análise.
ResponderEliminarFico curioso para ver como será recebido o meu Mau-Mau nesse aspecto. Na maior parte do livro o leitor vê o personagem a pensar , como quando falamos sozinhos. O tom é, portanto, torrencial.
ResponderEliminarTalvez muita gente desconheça, mas é perfeitamente normal que as bailarinas grávidas se venham quando usam bâtons escuros.
Os bâtons escuros potenciam a estimulação intelectual do ponto G, facilitando assim o orgasmo.
Muito foi dito e ainda há mais a dizer, mas meu comentário é um pedido: com indicação de autoria - é claro - peço para usar o post em aula. E não sou professora de língua portuguesa, mas de História (no Brasil), pois se a reflexão serve bem a pensarmos as dinâmicas do capital, os equívocos do mundo dos livros, algumas autorias lastimáveis, serve também a pensar sobre a liberdade que se constrói com a disciplina, onde o conhecimento é a chave da porta.
ResponderEliminarMuito obrigado por seus escritos, daqui do outro lado do oceano.