Calinadas imaginativas

Um dia destes, ao falar com uma médica, apercebi-me dos problemas que as pessoas analfabetas – ou quase analfabetas – têm para compreender ou reproduzir palavras ou expressões que se prendem com a saúde (e não só). Já sabia, por exemplo, que muita gente crê que deve medir a atenção com regularidade para prevenir enfartes e tromboses e que agora está na moda as parturientes pedirem uma pipidural, de forma a não gritarem de dores com a dilatação; mas ainda não tinha ouvido que há pessoas que sofrem de úrsulas no estômago, que morrem de homilias pulmonares e que as gravidezes utópicas quase sempre (pois claro) acabam mal. Contou-me ainda a médica que os filhos de uma sua paciente terminal, perante a morte iminente da progenitora, lhe revelaram que esta tinha manifestado o desejo de ser cromada; e que, por existirem alguns problemas de identidade com um homem que deu entrada no banco do hospital, este referiu que tudo se resolveria em breve, pois recentemente tinha passado a afectivo no emprego e já metera os papéis para ser neutralizado português...

Comentários

  1. Confesso que a minha preferida é «neutralizado português»: há calinadas que, por linhas tortas, escrevem direito .

    ResponderEliminar
  2. A minha sogra, lá na Beira Interior, é coleccionadora de endocospias - tem feito muitas - e já me afiançou ter sido também submetida a uma ressonolência magnética.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, mas alego em defesa da senhora sua sogra uma explicação: eu adormeci profundamente durante a única a que fui submetida.

      Eliminar
    2. Ah! e também há o castrol. Aparentemente, sente-o mais elevado nuns dias do que noutros.

      Eliminar
  3. Fiquei fascinada pelo facto de alguém querer ser cromado. Ah ah! Como tenho alguns amigos e familiares médicos na província sou também coleccionadora de algumas lindas expressões. Há, por exemplo, a senhora que sofria da cardica, o homem que tinha diabéticos nos olhos e aquele que dizia que o cancro não matava mas a cancra é que era fulminante. Além disso houve no Alentejo uma senhora que se queixou a um amigo meu de sofrer de problemas na prosta.

    ResponderEliminar
  4. a minha avó dizia muitas, algumas para simplificar o "português".

    lembro-me que chamava Hernâni ao Herman, porque devia achar que aquele nome era uma "invenção", pois não conhecia ninguém que se chamasse assim.

    mesmo o Sócrates, para lá das brincadeiras do "socras" e companhia, ganhou outros nomes por essas aldeias fora, por aproximação, também por não ser vulgar.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A propósito de nomes. Estava eu na Mealhada, há vários anos, a televisão do café estava ligada, claro, e transmitia um programa ao vivo com um conhecido locutor (que também é cozinheiro e que já teve dias de maior glória). Uma senhora que entrou, olhou para a TV e virou-se para a amiga: "Olha, é o Coxa!"

      Eliminar
  5. José Navarro de Andrade14 de julho de 2011 às 03:34

    Não será isto um caso extremo de algo mais comum? Por exemplo: quando um médico vai à TV dirá o "paciente apresentava uma patologia" em vez de "pessoa doente". Qual o meu ponto? Que há uma tendência corporativa para falar tecnicquês, como forma de afirmação através da linguagem. Isto resulta nos divertidos lapsos que refere, mas também da diflculdade, comum a qualquer um de nós, em expôr um caso a uma advogado, sem dizer algumas asneiras linguísticas.

    ResponderEliminar
  6. Bela recolha. Confesso que a minha preferida é a "homilia nos pulmões", embora uma "pipidural" dê que pensar ... :)

    ResponderEliminar
  7. As "úrsulas" são o pão nosso de cada dia. Sinceramente a minha preferida é o doente que pergunta "E os meus diabretes como estão?" (é bastante frequente).

    Independentemente do discurso "tecniquês" dentro de cada classe profissional, o português típico acima dos 55 anos geralmente tem pouca educação para a saúde e cria até conceitos em relação às doenças muito engraçados. Claro que isto se repercute depois na forma como vivem e lidam com a doença. E tudo isto porque tiveram pouca educação formal e acabam por não perceber em que consiste a doença nem tentam perceber por outros meios.

    ResponderEliminar
  8. Olá Rosário!!

    Eu conheço é esta assim: o meu Júlio, ontem, foi a Lisboa fazer um exame ao Taco.
    Tem estado muito doentinho! Foi roçar um canibal e caíu da bondosa abaixo.

    Precisais de tradução? Eu já não preciso à força de tanto ouvir!!

    Mas então, aqui vai a tradução:

    Exame ao Taco = fazer uma tac

    Canibal = canavial

    Bondosa = bulldozer

    Cristina Carvalho

    ResponderEliminar
  9. E se eu vos contar que conheço alguém que quando ficou grávida pensou tratar-se de uma «úrsula». Nome ameaçou dar à menina quando nasceu. Felizmente o marido conseguiu apelar à sua sensatez.

    ResponderEliminar
  10. Só para que conste, estes disparates não acontecem só na província. Já tenho ouvido muitos destes em Lisboa.

    E... há também quem sofra da doença de Alzema. Ficam esquecidiços!

    ResponderEliminar
  11. Prefiro o povo das calinadas aos médicos e os sabichões, presunçosos desta terra: parasitas que nem produzem, nem deixam produzir - só furtam e são incompetentes de tanto saber, da treta. Uma médica exasperava-se porque a paciente nã o respondia à sua pergunta: - A senhora já defecou hoje?- Diga Sra. Doutora, Hum, nã sei... A médica voltava com a pergunta, a gritar e a doente encolhia-se, até que uma terceira pessoa atirou: - se já cagou? - Ah si, já sim, Sra. Doutora...

    ResponderEliminar
  12. Ma do Rosário: aqui em França, nota-se o que citou. E ainda: tanto nos transportes, como na rua, comércios ou mercados, há tendência para os analfabetos e iletrados, a misturárem as duas iínguas. Ex: vou para a casa da \"madama\"; comprei 1 \"fluta\"; a minha patroa quando teve a barriga à boca; abriram-me a barriga: tenho uma paralésia! Às vezes, fico estonteada!

    ResponderEliminar
  13. Confesso que o termo "traumatismo ucraniano" me vem à mente várias vezes.
    Estou capaz de apostar que, desde que há imigrantes de Leste nas nossas bandas, isto já deve ter saltado cá para fora.

    ResponderEliminar
  14. E há sempre as pessoas que vão ao médico dos pezes.

    ResponderEliminar
  15. E se todos vós fizésseis pouco de pessoas do vosso tamanho?! Que também as há muitas, como vós, que pensam que são grandes, mas não são nem grandes, nem grande coisa!!!

    ResponderEliminar
  16. Não deixa de ter uma certa graça ...
    O que não tem graça nenhuma é sabermos que tem assim fala é apenas e tão somente por não ter tido a chance de uma boa e cuidada instrução. O que não tem graça nenhuma, também, e até é trágico, é sabermos que há gente que foi à escola, teve a tal instrução e fala tão mal ou pior do que aqueles que não a tiveram ... são os tais doutores com os canudos em riste e os diplomas pregados nas paredes. Eu, sinceramente, prefiro os primeiros e entendo-os perfeitamente.

    Saudações,

    maria

    ResponderEliminar
  17. António Luiz Pacheco14 de julho de 2011 às 14:30

    Já me ri um bocado... se eu vos contasse...
    É que lido diáriamente com estes termos e mantenho conversas dentro deste género...
    Olá...

    Faltou o ir fazer um ketchup (escrevo em inglês,
    mas trata-se de um check-up), ou tomar umas escápulas, os pusitóiros c'o médeco receitou... o Agostinho uma vez até foi a uma consulta a um peqsiatra "...
    Depois há quem ande de volksvagner ou numa carrinha feijoa... faça furos com um blecadeca ... e quem tenha medo de belisomes !
    A buldoza ou catrapilo é uma máneca pusada e há também a reta ... (retroescavadora).
    Os aclipes são uma árvore que compõe um óc'lipal !
    A frágueneta do pão ou do pêixe ainda são uma forma de abastecimento, se bem que já não haja pitrólinos ... onde se fazia o avio do pitról para os candiêros ...

    Bóceses sábin lá! Viven pr'a lá de Bunavente ... e fázin troça da gente que vivêmos aqui e têm um trabalhêra c'a pinsão destas coisas c'a gente ópois na n'intendemos nada do quérin d'zer !!
    Olá!

    É óbvio que ainda há uma língua erudita e outra popular... aliás várias! O falar mal, isto é o aportuguesar ou aproximar de palavras conhecidas as que se desconhecem é um sinal de vitalidade, penso eu...

    ResponderEliminar
  18. Bom, já me ri um pouco. Mas ainda não apareceu um termo que é muito comum no Alto Douro. Refiro-me à seladinha de alface e tomate.
    E o ouro mocisso também vai aparecendo.
    E a gangrena que aqui no Porto há muita gente a dizer cancrena .
    Sobre a cancrena , um dia ouço um dos meus funcionários a comentar "que engraçado, escreve-se gangrena e diz-se cancrena " !

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco14 de julho de 2011 às 17:09

      Pois claro! A s'lada come-se da s'ladêra !

      Já as tais urças dão muito é no diodene !

      Conversa do Zé Pincel: Óvi um arruído! Avantê-me da cama, pantê as caulças e fui à jinela auv'servar! A nha Cuncêção ainda me disse: Ó home, apercaulta-te qu'ele anda pur'í uma malandraige! Afinal er'à c'chopa do Aguestinho que vinha do balho! Isto um gáijo nin pode dromir'in paz!

      Com uma família de advogados e juízes dos velhos tempos, dava para escrever um livro com cenas como esta história de tribunal que se contava cá em casa:
      - O juiz dirigindo-se à testemunha: "
      Ó homem de Deus... daqui a pouco é cada palavra cada calinada!"
      "Ah sedutor ajuiz ... nã sará fácel!"

      E a inquirição à testemunha de um acto de adultério flagrante:
      "Então vamos lá a confirmar: quando a senhora abriu a porta do quarto e olhou lá para dentro, viu que eles copulavam?"
      "Bem... o cu dele pulava... o dela nã vi!"

      Grande povo!! Tenham lá "pacência"...

      Bem... o Verificar Ortografia deve bloquear com medo de um vírus!!!!

      Eliminar
  19. Murse de chicolate.

    Dedicada a todos os médicos que criam tais inibições nos pacientes com o seu linguajar que estes se inibem de relatar todos os seus sintomas e abandonam a sala sem sequer perceber o que se passa consigo.

    ResponderEliminar


  20. Você ficou admirada,estarrecida ou lá o que seja,porque é ignorante.
    Se conhecesse o país ,não aquele que vem nos livros,mas o concreto,o real, não se admirava!

    E a foma é presunçosa. A presunção de uma certa esquerda arrepia-me...

    ResponderEliminar
  21. Aqui no Brasil uma das doenças mais populares é o "pobrema nos neuvos". Alas, entende-se e basta.
    :- )

    ResponderEliminar
  22. também há quem se queixe de inflamação nas vias recreativas... :)

    ResponderEliminar
  23. sou eu de novo mas desta vez prometo não gerar confusão

    "intoxicação por excesso de comprimidos"
    explicação: doente tinha lido

    -em caso de necessidade, aumentar a DOZE

    ResponderEliminar
  24. Não me parece que mereçam estes comentários (de gozo) pessoas humildes que certamente serão as que mais produzem estas expressões.

    Mais comentários mereceriam os doutores analfanetos, esses sim verdadeiros analfabetos que nem ler e escrever sabem e é o que há prá i mais......Basta ver os rodapés da TVI, por exemplo (feita certamente por doutores)...esses sim lhe deveriam merecer comentários.

    É muito fácil bater a a quem está no chão!!!! pelo menos dali não virá resposta...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz pacheco19 de julho de 2011 às 12:41

      Meu Caro António Severino

      Não tendo embora procuração para fazer a defesa de nenhum destes comentadores, creio que posso garantir-lhe em nome de todos, que não foi e nem é intenção de qualquer de nós, achincalhar, apoucar ou sequer troçar... mas sim de uma forma humorada, descer à terra e de facto comentar e trocar as simpáticas calinadas que diáriamente ouvimos dizer a não menos simpáticas e estimáveis pessoas.

      Notar estes deslizes e conviver com eles é antes de tudo o privilégio de viver a vida como ela é, sem a superficialidade da pseudo-cultura e a hipocrisia do fingir que não se dá por isso... afinal um desrespeito maior!

      Creia que se você não conseguir perceber este nosso espírito, não somos nós quem está mal e sim o António Severino que ou não percebeu ou não possui sentido de humor para o perceber.

      Não há ruralista mais convicto nem maior defensor da nossa gente boa e simples do que eu, acredite... e se fosse troça que aqui visse, creia que partiria a loiça ou outras coisas...

      Acredite.

      De qualquer modo registo a sua intenção e agradeço-lhe em nome do Zé Pincel, do Rui do Japão e outros amigos meus que são uma fonte de inspiração.

      Cumprimentos e fique bem que amanhã me vou para a Equimina e Baía dos Elefantes onde se vai começar a plantar vinha...

      Eliminar
  25. Mais duas ou três para este divertido rol.
    Em tempos, uma cliente (sou advogado) contava-me, desolada, que o pobre do filho sofria de uma "hérnia fiscal".
    Na área do direito, é famosa a expressão "usucampião" -- obviamente por usucapião.

    E colega meu já me contou a história de alguém que, pretendendo marcar escritura em cartório notarial, dizia querer celebrar uma escritura de doação, "daquelas com tutifrutti" (por usufruto).

    ResponderEliminar
  26. Caro António Luiz Pacheco

    Até poderei acreditar no que refere....mas às vezes é necessário "alertar" as mentes.

    E que comentários lhe merecem os "doutores" da nossa praça que não sabem ler nem escrever (atrevo-me até a dizer, a grande maioria dos recém-licenciados.. e não exagero), é que nem sabem construir uma frase; não dizem estas patacoadas como os analfabetos que refere (a tal gentalha humilde que quer queira quer não foi aqui achincalhada) mas por cada palavra que debitam duas não são portuguesas (ele são os back-ground, eles são os rattings e todas as variantes estrangeiradas que dizem em voz alta)...

    ResponderEliminar
  27. Seu blog tem algumas das informações mais fascinante!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário