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Bibliotecas nocturas

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O meu irmão deu aulas por duas vezes na Brown University, nos Estados Unidos, e dizia que, ao contrário do que acontecia em Portugal, os estudantes não saíam  à noite, sobretudo durante a semana, porque não podiam de modo algum correr o risco de chumbar nos exames, já que a educação superior era caríssima e os que estudavam com bolsa não a podiam de modo nenhum perder por faltas ou más notas. Lembro-me de uma das minhas sobrinhas, que estudou Direito, ir estudar à noite para a biblioteca da sua universidade, que se mantinha aberta noite fora, e não sei se isso acontece noutras universidades do País. Mas li com surpresa o anúncio de que a Biblioteca do Palácio Galveias, sita no campo Pequeno em Lisboa, vai passar a ter três salas abertas até às 00h00, horário pensado especialmente para os estudantes que precisam de prolongar o seu dia de estudo depois de jantar ou para aqueles que tendo trabalhado até ao fim da tarde têm finalmente tempo para as suas pesquisas e leituras. Saúdo esta iniciativa e divulgo-a para quem precisar de um poiso. E, se o frio apertar e os sem-abrigo quiserem começar a ler para se acoitarem, pode ser que se tornem leitores, nunca se sabe.


 

O que ando a ler

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Uma das maiores escritoras de ficção literária da América Latina, Samanta  Schweblin, é contista. Penso que, até agora, a autora argentina escreveu apenas dois romances (Distância de Segurança, finalista do International Booker Prize, e Kentukis), mas foi curiosamente com os seus incríveis livros de contos que ganhou os principais prémios e distinções:  Pássaros na Boca, com que se estreou, ganhou o Prémio Casa das Américas; Sete Casas Vazias (de que já aqui falei) ganhou o National Book Award na categoria de Literatura Traduzida; e no ano passado o seu livro de narrativas curtas O Bom Mal, que estou a ler neste momento, valeu-lhe um prémio chorudo, de um milhão de euros (a primeira edição do prémio Aena para literatura hispano-americana), sobrepondo-se a dezenas de romances. O livro abre com um conto realmente único sobre uma mulher que pensa acabar com a vida, e tem várias histórias profundamente originais, como a de uma escritora que gosta mais do gato do que do marido, a de um menino que não fala e fica perdido numa estação de serviço a meio de uma auto-estrada, ou ainda a de duas irmãs de dez e treze anos que cuidam de uma poeta deprimida durante um Verão com consequências tremendas. A escrita não é especialmente trabalhada, mas como sempre as personagens são fortes e perturbadoras, e o enredo muito imaginativo, mantendo-nos agarrados a cada página desta excepcional colectânea, elogiada pelo grande Vila-Matas, que acaba de ganhar o Prémio das Letras de Espanha. E agora vou para a última narrativa.

 


 

Versátil

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É mesmo assim que se chama, Versátil, um festival cultural que acompanha a Feira do Livro de Leiria entre amanhã e 8 de Novembro. Com curadoria de Isabel Lucas e Nuno Artur Silva, convida cerca de 40 escritores para reflectirem sobre «O Comum», partindo do que une as comunidades e do que liga a literatura ao quotidiano. José Luís Peixoto, Patrícia Portela, Paulo Moreiras, Anabela Mota Ribeiro, Rui Zink e Gonçalo Tavares são alguns dos nomes que vão participar nas conversas que contribuirão decerto para cimentar a candidatura de Leiria a Capital Portuguesa da Cultura já no próximo ano. Os encontros nas escolas e as sessões em torno da literatura infantil serão de novo centrais na programação, pois é de pequenino que se torce o pepino, já dizia a minha avó, e é verdade. Nesse âmbito, estarão presentes, entre outros, Catarina Sobral, António Mota e Maria Inês Almeida. Haverá ainda música com Sérgio Godinho e Júlio Resende e um espectáculo de poesia, com Luísa Cruz, Nicolau Santos e Manuel Lourenço. Viva a versatilidade!

 


 

3 de Maio

Quando todos os jornais falavam da proeza que é Hoje, 3 de Maio de Patrícia Portela, o seu romance anterior, Manual para Andar Espantada por Existir, ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Patrícia Portela está também ligada ao teatro e é autora de performances, tendo sido directora artística do Teatro Viriato, em Viseu, e trabalhado no estrangeiro, onde estudou cenografia e cinema. Os seus livros são, por isso, se assim pudermos dizer, bastante "encenados" e Hoje, 3 de Maio não é excepção. A autora esteve em residência artística em Madrid e tudo leva a crer que tenha passado horas no Museu do Prado diante de Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, a pintura de Goya que inspira este romance e que serve para que entendamos que hoje, que não é 3 de Maio, nem 1808, continuam infelizmente a existir guerras, mortos e assassinos, e que vermos a guerra de longe é como olharmos para este quadro impressionante. O romance, que vai sendo intercalado por pormenores da magistral pintura, fala justamente de quem fuzila e de quem é fuzilado, criando vidas para os que a perdem diante das espingarda e vidas também para quem, contra a sua vontade ou não, dispara sobre inocentes. A autora sugere leituras várias, mas confesso que li o romance de fio a pavio e que só quando tiver uma aberta experimentarei outra ordem. Esta é uma obra de grande originalidade e imaginação que, claro, promete voltar a ser um sério candidato ao prémio já ganho por Patrícia Portela.

Literatura e cinema

Recebo regularmente do estrangeiro propostas de publicação, algumas delas de romances cujos direitos para cinema foram comprados por uma produtora e acabarão por dar origem a um filme; se o realizador já for referido, e se tratar de um desses bem badalados ou premiados, é certo e sabido que isso aumenta o interesse dos editores em traduzir a obra e, se possível, em fazer coincidir o lançamento do livro em Portugal com a saída do filme. O mais certo é esse filme não ser tão bom como o livro, bem sei, mas o cinema hoje defronta desafios incríveis, e os cineastas nunca tiveram tantos recursos para fazerem filmes maravilhosos, mesmo que muitas vezes o guião fique aquém. Por outro lado, parece que muita gente deixou de ir ao cinema, preferindo ver séries de televisão ou esperar que as grandes produções cheguem ao pequeno ecrã que têm em casa. De tudo isto e muito mais vai falar o jornalista Mário Augusto amanhã às 18h30 no El Corte Inglés, contando da importância que a sétima arte teve para o público no século XX e explicando as mudanças e a evolução que tem sofrido no presente. Será que o cinema tem condições de continuar a ser a forma mais atraente e criativa de contar histórias? Ele o dirá.

Na cozinha

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Entre o final do século XIX e o primeiro programa de culinária na televisão nacional (1958), dezenas de mulheres portuguesas – muitas desconhecidas, algumas celebrizadas, outras escondidas atrás de pseudónimos – publicaram livros de culinária que moldaram a economia doméstica, os saberes alimentares e a identidade gastronómica do País. O Lugar da Mulher É na Cozinha? – As Primeiras Autoras Portuguesas de Livros de Culinária (1894-1967) reconstrói, pela primeira vez, a história integrada dessas autoras e dos seus livros, analisando um corpus cronologicamente contínuo, desde os primeiros manuais domésticos escritos por mulheres até à transição para a modernidade alimentar. Com prefácio de Inês Meneses e aturada investigação histórica, incluindo imprensa feminina e abordagem de contexto social e político, Guida Cândido, já premiada várias vezes com os seus livros, publica mais uma obra importantíssima no âmbito da História da Alimentação, que inclui uma selecção de cinquenta receitas comentadas, revelando ainda como a cozinha se tornou palco inesperado de voz, criatividade, autoridade e, por vezes, resistência.


 

O ALA

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Às vezes, na voracidade dos dias, alguém na editora falava do «ALA». Referia-se, claro, a António Lobo Antunes, fazendo uma sigla a partir das iniciais do seu nome. Não era um autor que, nos últimos vinte anos, fosse regularmente à editora, nem um autor que desse demasiadas entrevistas, sobretudo fora do âmbito de um romance ou livro de crónicas que tivesse acabado de lançar. No fundo, sabe-se pouco sobre o homem que foi ALA; e uma maneira bonita de o homenagear é justamente deixar falar a seu respeito quem com ele privou. Amanhã, pelas 18h30, no Grémio Literário, em Lisboa, vamos poder ouvir justamente a sua mulher, Cristina Lobo Antunes, explicar como era ser casada com ele; uma das suas filhas dirá sobre o pai que ele era; Miguel Lobo Antunes contará como era o irmão e Daniel Sampaio como era ser seu amigo. Ainda se ouvirá falar do que lia (Rui Cardoso Martins), do psiquiatra que foi (Maria Rueff), do melómano (Vitorino), do alferes miliciano (Boaventura Martins) e ainda de como era como entrevistado, do que falará a jornalista literária Isabel Lucas. Como diz o comunicado que anuncia a sessão, «um António como nunca se viu».


 

Excerto da Quinzena

A Varanda de Julieta 

 

Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.

 

Nuno Júdice, 50 Anos de Poesia, Antologia Pessoal (1972-2022) 

Ditadura da Opinião

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Os festivais estão na moda mas não os exclusivamente musicais ou literários. Desta vez, falo-vos de um festival de Filosofia intitulado É Proibido Proibir, que decorre nos dias 23 e 24 de Outubro no solar dos Zagalos, em Almada, e tem como tema a Ditadura da Opinião. É bom que haja quem invente um festival que convide à reflexão e que faça pensar, cruzando conversas, oficinas e encontros de leitura. Desta vez são convidados, entre outros, Ricardo Araújo Pereira, Rodrigo Guedes de Carvalho, Inês de Medeiros (que é a presidente do Município de Almada), João Miguel Tavares, Pedro Adão e Silva, António Castro Caeiro, Rui Zink e Joana Bértholo. Com nomes assim, a coisa promete. E algumas mesas são aliciantes, como «O humor tem opiniões a mais» ou «Jornalismo e opinião», passando por «Como combater a desinformação». O encontro também não esquece os mais novos, propondo oficinas divertidas e interessantes onde se ensina o valor das perguntas, da escuta e da reflexão. Boas ideias.


 

Escritaria

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No ano passado, o festival Escritaria, organizado pela Câmara Municipal de Penafiel, fez o favor de me homenagear, o que agradeço muito, até porque não é todos os dias que temos oportunidade de ouvir pessoas a falar (só) bem de nós. E hoje mesmo será lançado em Penafiel um livro com esses e outros testemunhos, mas, infelizmente, não vou poder estar presente. Se pudesse, estaria a passar o testemunho ao escritor timorense Luís Cardoso, que é o homenageado deste ano (a partir de hoje). Autor de obras como Crónica de Uma Travessia, Requiem para o Navegador Solitário, O Plantador de Abóboras e Hotel Timor, recebeu o Prémio Oceanos em 2021, e o Colar da Ordem de Timor-Leste em 2023. Luís Cardoso vai ter com ele várias personalidades que vão conversar sobre temas da sua obra e sobre o seu país, entre as quais se contam Ondjaki, D. Américo Aguiar, Adelino Gomes, Ana Gomes, Pedro Bacelar de Vasconcelos ou Ana Sousa Dias. Participarão também João Gil, Sérgio Godinho e Dulce Pontes e haverá exposições de vídeo e fotografia dedicadas ao território timorense. Entre outras actividades, passará ainda um documentário intitulado O Voo do Crocodilo, O Timor de Ruy Cinatti, de Fernando Vendrell, que comentará o filme junto de Mário Augusto e Lúcio Sousa. A programação é extensa e pode ser consultada no site da Câmara de Penafiel.


 


Bons alunos

Uma vez, disse a uma rapariga que me tinha enviado um livro para avaliação que o texto não tinha qualidade para ser publicado: além de o enredo ser pobre, era demasiado previsível (ao fim de um capítulo, já se sabia como seria o fim) e não havia nada de especialmente original na estrutura ou na linguagem do romance. Qualquer leitor o perceberia e, como tal, recusei-o. A rapariga era bastante jovem (pré-universitária, creio) e ficou compreensivelmente aborrecida. Telefonou-me depois de ler o meu e-mail, dizendo que não compreendia a minha decisão, pois tinha sido sempre a melhor aluna da turma a Português. Tive de lhe dizer que ser competente a Português nada tem que ver com ser um escritor talentoso, embora ache que ela não chegou a aceitar a minha explicação. Mas vejamos: Einstein não era um bom aluno na escola quando talvez todos pensem que era um génio da Matemática. E muitos escritores famosos foram alunos sofríveis, porque, mesmo tendo jeito para escrever, podem ter sido preguiçosos, desatentos (é o mais certo) ou nefelibatas (andar com a cabeça nas nuvens). Escrevo isto a propósito do Prémio Nobel de Literatura Jon Fosse, que tive o privilégio de ouvir no FÓLIO, em Óbidos, numa sessão em que a tenda rebentava pelas costuras. Ora, Fosse explicou que detestava a escola quando era novo, que faltava às aulas e não estudava  (preferia beber) e que foi um enorme espanto para os pais e professores quando uma revista literária aceitou um conto que tinha escrito para publicação quando ele tinha 15 anos. Mas o talento não tem mesmo nada a ver com ser bom aluno. Há grandes marrões que não têm nada de criativo. 

Mulheres que viajam sozinhas

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A vida é uma equação que não se resolve facilmente, mas qualquer escolha que façamos pode significar uma mudança irreversível. Sanna anda cansada do casamento, dos amigos, da rotina e da sensação preocupante de que a sua vida se tornou demasiado previsível. Será mesmo só isso que a espera no futuro? A precisar de uma pausa – e também de se afastar de um colega de trabalho sedutor –, decide viajar sozinha para uma ilha no Mediterrâneo, deixando para trás o marido e as duas gémeas ainda pequenas. No hotel onde se instala, conhece Evelyn, uma mulher mais velha que trouxe consigo uma mala cheia de cartas por abrir, cartas essas que o homem com quem nunca conseguiu partilhar a vida lhe foi escrevendo. Só agora, que ele morreu, Evelyn encontra coragem para revisitar as dolorosas memórias de um tempo que teve tanto de feliz como de triste; e para isso viaja até àquela ilha grega para encerrar uma história de amor marcada pelo poder, pelo silêncio e pela vergonha. Entre as duas mulheres nasce então uma ligação inesperada. Apesar da diferença de idades, reconhecem uma na outra as mesmas inquietações, desejos e remorsos. E, à medida que as suas histórias se entrelaçam, são levadas a confrontar-se com aquilo que realmente devem a si próprias e com o verdadeiro preço das escolhas que fizeram em nome do amor. Este é o enredo de Mulheres Que Viajam Sozinhas, da norueguesa Connie Barr, um livro que fala das escolhas que fazemos e não fazemos, do arrependimento e do remorso.

 


 

 

Zeferino Coelho

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Sabemos por alguns filmes e livros (mas nem era preciso) que o papel do editor não é, na maioria dos casos, insignificante. Claro que se pode discutir o que é um bom editor nos tempos estranhos que correm: se aquele que dá muito dinheiro a ganhar à casa onde trabalha, se aquele que faz um excelente catálogo e dá a conhecer ao público escritores que ficarão na história da literatura. O homem de que hoje falo é deste último tipo. Desde que começou a trabalhar, no Porto, nunca mais deixou os livros, e tem sido responsável por escritores como Isabela Figueiredo ou Patrícia Portela, Ondjaki ou Mia Couto, o historiador Borges Coelho ou o psiquiatra Daniel Sampaio e, para não ficar esquecida, a colecção Uma Aventura. Foi ainda editor de Saramago durante muitos anos, editor também de uma série de autores do espaço da lusofonia (Luandino Vieira, João Melo, Germano Almeida...), sem nunca esquecer a atenção aos escritores mais jovens que hoje já dão cartas, como Joana Bértholo ou Sandro William Junqueira. Pois bem, Zeferino Coelho, o meu colega da Caminho, é homenageado no próximo domingo no FÓLIO, às 14h30, numa iniciativa do Presidente da Câmara de Óbidos, pelo que esperamos por si na Tenda Vila Literária para o merecido tributo. O Presidente da República honra o editor com a sua presença, e faz muito bem. 
 

 

Os esquecidos

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Hoje existem festivais de tudo e mais alguma coisa, as Câmaras não param e multiplicam eventos, e às vezes até as freguesias têm uma programação cultural regular. A de Santo António dos Olivais, em Coimbra, manda-me frequentemente convites para assistir a eventos, e o mesmo acontece com a freguesia de Arroios em Lisboa, que tem várias actividades em marcha. É nesta freguesia, de resto, que o Clube Atlético de Arroios promove em Outubro o Mês da Música; e, como poesia é também música, na próxima sexta-feira, às 21h30, o público contará com o saxofonista José Lencastre para tocar e acompanhar o jornalista e promotor cultural João Morales, que vai dizer «poesia esquecida». Uma excelente ideia para, digamos, falar de autores que podem injustamente cair no esquecimento como poetas, mesmo que em alguns casos a sua obra em prosa esteja disponível e circule. Falo, por exemplo, de José Saramago, Fernando Namora ou Clara Pinto Correia, mas também de Luísa Costa Gomes, Joaquim Castro Caldas, Júlio Henriques, Fernando Grade (lembro-me de ele vender os próprios livros na minha faculdade!) e Zetho Cunha Gonçalves. Vamos lá ouvir?


 


Homenagem a Nuno Júdice

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Nuno Júdice é um dos mais inesquecíveis, premiados e internacionais poetas portugueses. Quem lê os seus poemas encontra uma voz única, e a sua produção poética estendeu-se desde os anos 1970 até muito recentemente, em que foi publicado um livro póstumo de que aqui falei. No âmbito da iniciativa Ler no Chiado, o Centro Nacional de Cultura vai prestar-lhe homenagem logo mais à tarde, que se dividirá em dois momentos distintos. O primeiro, na Livraria Bertrand da Rua Anchieta, onde serão lidos poemas por outros poetas (incluo-me no grupo e faço vénia ao Nuno pelo poema que escolhi e por todos); o segundo, nas próprias instalações do Centro Nacional de Cultura, no qual várias pessoas falarão do grande poeta que (não) perdemos, incluindo Luís Filipe Castro Mendes, que foi dele muito próximo, e Guilherme d'Oliveira Martins. Deixo o cartaz abaixo para que, querendo, possam ir e participar.

 


 

Dignidade

Estava hoje de manhã na editora a falar com um colega da falta de dignidade com que frequentemente somos tratados pelos médicos. No ano passado fui operada a uma anca, mas até descobrir o cirurgião passaram meses. Um dia, recomendaram-me um grande catedrático e operador. Milagrosamente, consegui uma consulta; quando, depois de duas horas de espera, fui atendida, entrei no gabinete, sentei-me e, antes sequer de eu dizer ao que ia, ele perguntou de rajada: «É para operar?» Deu-me o número da secretária e uma data de papelada para a mão, explicando que a lista de espera era de três meses. Não fez mais perguntas, não me quis ver a perna, não me mandou mexer, nada. E ainda tinha atrás dele um provável estudante de Medicina, nunca me tendo explicado quem era o jovem nem pedido autorização para ele assistir à consulta. Eu era apenas um porta-moedas na frente dele. Pois o senhor até podia ser um bom operador, mas não me senti bem tratada, saí, paguei e fui a outro médico talvez menos sonante, mas mais humano. Contava esta história a um colega quando li por acaso que hoje, no El Corte Inglés, às 18h30, António Bagão Félix vai falar da Ética (do Cuidado) e Dignidade da Pessoa. Espero poder lá ir. E quem sabe convidar vários médicos muito pouco humanos para também lá irem aprender qualquer coisa.

Um puzzle de Tabucchi

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Uma mãe melancólica e distante, que ouve no gramofone a canção «Amado mio»; um pai fotografado com o braço eternamente estendido; um tio que colecciona bonecas; uma cave onde algo terrível aconteceu. E também uma Aprilia vermelha, um piano, um rato morto. E, por fim, Duccio, a quem chamam Cino, um rapazinho que descobre o lado mais abjecto da vida e tenta esconjurá-lo com os meios que tem. Por exemplo, escrevendo ao Capitão Nemo... Eis os protagonistas deste romance breve e enigmático, ambientado numa villa na costa toscana, na véspera de um Ano Novo da década de 1950. Uma obra a que Tabucchi se dedicou por muitos anos, sem nunca a publicar, e que declarou até ter destruído, mas estava afinal dividida em agendas, e em várias versões, como um autêntico puzzle. Recuperado por entre os papéis guardados numa gaveta na casa do escritor, e pacientemente reconstruído por Thea Rimini, Cartas ao Capitão Nemo é, nas palavras do autor, «crónica de uma dissociação psíquica, metáfora da solidão ou radiografia de um futuro “vingador”». Um livro onírico e pleno de sugestões, além de um retrato muito eficaz da Itália do pós-guerra. 


 

Excerto da quinzena

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Há histórias horrendas. Parte do labor de se  aguentar estar vivo é aprender a conviver com elas.  No imaginário desta praia tão apreciada, pesam dias  terríveis como aquele em que, sem que ninguém se  apercebesse, duas irmãs penetraram o oceano irado,  atraídas pela lengalenga centrípeta de um redemoinho. Sorvidas por uma crónica implacável. Todos  os que estavam na praia, naquele dia, presenciaram  a demorada batalha entre a certeza da água e da  morte. Foi um tempo todo ele consumido pelos rostos chocados, abesbílicos, de quem assistia.

— Isto é inaceitável…

Houve quem se organizasse em grupo para  vociferar:

— Não consentimos!

Um homem de meia-idade resumiu o senti mento geral de consternação ao dizer:

— O mundo? O mundo está todo ao contrário.

Alguém vaticinou que aquele lugar nunca volta ria a ser o mesmo depois de aquelas duas crianças  morrerem assim, desta forma, perante os nossos olhos tão abertos, tão bem informados. Os leitores  amarguravam-se pelo poder narrativo daquela praia, e lamentavam:

— O que podemos nós fazer? Somos meros leitores! Se ao menos aparecesse o Narrador…

As duas meninas afogaram-se. Parágrafo algum as veio ajudar. Ensombrada por eventos destes, a mais  bela praia da região perdia reconhecimento, mesmo se  nunca o fascínio. Nunca nela cessaram as marés, nem  o ir e vir das histórias que nos levam, palavra a palavra,  parágrafo a parágrafo, onda a onda, reposicionando o  nosso corpo bem longe da costa. Narrativas que nos  despejam em alto-mar, no lençol espesso e branco da folha, sem que ninguém nos dê uma bóia ou um colete insuflável. Nem sequer coordenadas, direcção, ou  caminho de volta. E nós aqui, neste exacto parágrafo,  a ler «e nós aqui, neste exacto parágrafo» sem que se  explique a repetição. Sem saber como viemos aqui  parar, o que significa esta frase, e a próxima, e mais  esta, e o que fazer com elas quando se acumulam desta maneira. O que iremos fazer uma vez que terminem  as palavras, ou como iremos sobrevive.

Joana Bértholo, Do Amor e de Outros Fantasmas (contos)

 


 

A culpa da IA

Recentemente, a história veio a lume. A Academia Goncourt, responsável pela atribuição em França do prémio literário com o mesmo nome (talvez o mais prestigiante para um autor de língua francesa), fez sair um comunicado a dizer que iria retirar um dos romances da lista de nomeados deste ano. Tratava-se de C'était ça ou mourir, de Thélyson Orélien, escritor e jornalista de ascendência haitiana e nacionalidade canadiana. Ao que se soube, o jornalista foi acusado de escrever em jornais vários artigos plagiados, recorrendo à Inteligência Artificial. Orélien admitiu que era verdade nos artigos, mas desmentiu categoricamente que tenha recorrido a quaisquer ferramentas de IA na escrita do romance que está na lista do Prémio Goncourt e que, além de já ter recebido uma data de prémios e estar nomeado para outros tantos, foi vendido em cerca de 20 países, incluindo Portugal. Porém, não sendo possível a Academia provar que as declarações de Orélien são verdadeiras, achou mais prudente retirar do prémio C'était ça ou mourir. Em Portugal, a decisão foi suspender para já a publicação, o que de resto aconteceu na maioria dos países onde os direitos tinham sido vendidos. Mas em França o romance, até pela polémica, continua na lista dos mais vendidos.

Contar

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Não costumo publicitar aqui o meu trabalho, mas hoje vou perder a vergonha e ser oportunista porque isso me rende um post e, como ando louquíssima com trabalho, dá mesmo jeito. Apesar de eu, como escritora, ser sobretudo referida como poeta, ao longo dos anos pediram-me várias vezes contos, ou para festivais, ou para revistas (a Egoísta, por exemplo) ou para colectâneas de Natal, agendas, postais, enfim, textos que estavam guardados no meu computador sem grande serventia, apesar da insistência do Manel para que os publicasse. Quando, no ano passado, a Escritaria quis generosamente homenagear-me, era preciso em pouco tempo um livrinho da minha autoria que celebrasse o acontecimento e a que os penafidelenses pudessem ter acesso antes dos outros. E foi nessa altura que libertei os contos e os revi, juntando os que achei melhores num pequeno volume que o meu colega editor Jorge Reis-Sá produziu e agora reimprimiu. E reimprimiu porque, surpreendentemente, o livro ganhou o Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores. Alguma vez eu iria pensar que era com a prosa que a APE me iria distinguir? Bem, aconteceu e hoje mesmo recebo o Prémio Branquinho da Fonseca em Cascais, cuja Câmara Municipal é a patrocinadora através da Fundação D. Luís. É às 17h30 e, se viverem para aqueles lados, estão convidados a aparecer. De contrário, fica aqui uma imagem do livro: como é pequenino, talvez não esteja visível nas livrarias, mas, se gostarem de contos, perguntem por ele (eu disse que tinha perdido a vergonha, não disse?), leiam-no e depois dêem-me a vossa opinião.