Excerto da quinzena
Há histórias horrendas. Parte do labor de se aguentar estar vivo é aprender a conviver com elas. No imaginário desta praia tão apreciada, pesam dias terríveis como aquele em que, sem que ninguém se apercebesse, duas irmãs penetraram o oceano irado, atraídas pela lengalenga centrípeta de um redemoinho. Sorvidas por uma crónica implacável. Todos os que estavam na praia, naquele dia, presenciaram a demorada batalha entre a certeza da água e da morte. Foi um tempo todo ele consumido pelos rostos chocados, abesbílicos, de quem assistia.
— Isto é inaceitável…
Houve quem se organizasse em grupo para vociferar:
— Não consentimos!
Um homem de meia-idade resumiu o senti mento geral de consternação ao dizer:
— O mundo? O mundo está todo ao contrário.
Alguém vaticinou que aquele lugar nunca volta ria a ser o mesmo depois de aquelas duas crianças morrerem assim, desta forma, perante os nossos olhos tão abertos, tão bem informados. Os leitores amarguravam-se pelo poder narrativo daquela praia, e lamentavam:
— O que podemos nós fazer? Somos meros leitores! Se ao menos aparecesse o Narrador…
As duas meninas afogaram-se. Parágrafo algum as veio ajudar. Ensombrada por eventos destes, a mais bela praia da região perdia reconhecimento, mesmo se nunca o fascínio. Nunca nela cessaram as marés, nem o ir e vir das histórias que nos levam, palavra a palavra, parágrafo a parágrafo, onda a onda, reposicionando o nosso corpo bem longe da costa. Narrativas que nos despejam em alto-mar, no lençol espesso e branco da folha, sem que ninguém nos dê uma bóia ou um colete insuflável. Nem sequer coordenadas, direcção, ou caminho de volta. E nós aqui, neste exacto parágrafo, a ler «e nós aqui, neste exacto parágrafo» sem que se explique a repetição. Sem saber como viemos aqui parar, o que significa esta frase, e a próxima, e mais esta, e o que fazer com elas quando se acumulam desta maneira. O que iremos fazer uma vez que terminem as palavras, ou como iremos sobrevive.
Joana Bértholo, Do Amor e de Outros Fantasmas (contos)

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