Excerto da Quinzena
Castelo de Senigallia, Inverness, Escócia, 1927
Lembro-me da primeira vez que o Diabo foi lá a casa.
Podia ter sido Aguarela,
mas não,
fui eu que o vi.
– Um minuto! – avisou a minha irmã, já de olho pregado ao ponteiro do relógio de parede, ávida por me render à janela da mansarda que deitava para o relvado.
Um minuto.
Foi o tempo que bastou para o Diabo se mostrar e me dar a volta ao estômago. Escoltado pelas sombras que deixava sobre a relva, uma por cada archote que alumiava o caminho, atravessou a alameda em direção ao castelo no seu andar arrastado, como se carregasse esse fardo apodrecido das almas que desviava. Já mais próximo, pude ver-lhe o que eu não queria: o rosto incendiado pela troça e o azedume, e os olhos, Ai, os olhos, contraídos, sanguíneos, a chispar com agonia o mal que o glorificava. Secara como uma árvore, adivinhavam-se-lhe os ossos por baixo da capa preta com que se amortalhava, e eu, com a incúria das crianças, fui capaz de acreditar que olhá-lo assim de perto não me iria condenar a uma infância de pavor.
Então o minuto esgotou-se, e Aguarela chamou-me:
– Chuva… – Como não me mexi, puxou-me pela saia. – É a minha vez, Chuva, afasta-te!
Para poupar a minha gémea àquela visão doentia, finquei as mãos na janela e dei tempo a Satanás de alcançar a escadaria, a uns vinte passos de mim, onde já o aguardavam dois criados de libré. Assim que ele entrou em casa, saí dali a correr e fechei-me no meu quarto, a salvo na fortaleza de lençóis e cobertores, onde melhor abafava os meus terrores infantis.
João Pinto Coelho, Aguarela de Paris
Comentários
Enviar um comentário