O drama africano

 Num país nunca nomeado, mas africano de gema, o ditador aquece o lugar por quase quarenta anos, recusando eleições, neutralizando os concorrentes, enriquecendo para lá do aceitável à custa da miséria do seu povo. Ora, se este Presidente nos lembra alguém, é porque o romance Afrocalipse se inspira assumidamente na insanidade, na cleptocracia e no abuso de personagens reais  como Kumba Yalá (Guiné Bissau), José Eduardo dos Santos (Angola), Mobutu (Zaire) ou o terrível Bokassa (República Centro-Africana) que se coroou imperador em 1984, retratando ainda o horror das guerras civis pós-independência e o genocídio do Ruanda, bem como a subserviência do povo, a fome e o desgoverno crasso que infestam muitos países em África e constituem hoje talvez a principal causa do seu atraso. Nesta ficção, porém, as mulheres cansam-se e ajudam a mudar a história. Mas nem é só neste facto que reside a novidade: ela está presente na linguagem inventiva e belíssima com que o autor fala de coisas, afinal, tão feias e também na circunstância de ser o primeiro escritor de África a assacar aos próprios africanos parte importante da responsabilidade pelas desgraças sociais e pelo descalabro dos Direitos Humanos. Este é um livro poético, irónico e cheio de humor, como são sempre as obras de Mário Lúcio Sousa, com pinceladas sobre assuntos muito sérios que interessam a todos os leitores. Quando se se celebram 50 anos de independência das antigas Colónias portuguesas, Afrocalipse corre o risco de se tornar um clássico. O autor estará a falar dele e da sua obra com Bárbara Reis na Feira do Livro de Lisboa hoje às 21h30. Na quinta será o lançamento no Centro Cultural de Cabo Verde às 18h30.



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