Ideias originais

Quando conheci Afonso Reis Cabral, em 2014, tinha ele vencido o Prémio LeYa antes ainda dos 25 anos, fiquei a saber que, em adolescente, ele tinha ido de camião TIR até a Alemanha sem a família em busca de uma história. Depois disso, atravessou o País a pé pela Estrada Nacional 2 (a mítica) e publicou um livro sobre essa aventura; e, mais tarde, tentou tudo por tudo para acompanhar os militares num submarino durante dez dias, mas por qualquer razão não conseguiu que o deixassem integrar a equipa. Agora teve mais uma ideia louquíssima e está a viver por uma semana no Centro Comercial Colombo, numa loja de sapatos desactivada onde lhe puseram uma cama e para onde levou duas malas de rodinhas com roupa, computador e papel, disposto a tomar banho nos balneários do ginásio, pois a ideia é mesmo não sair de lá para nada e ir assistindo ao que por lá se passa. Um sítio onde está sempre tanta gente só pode oferecer boas histórias, e o Afonso quer escrever um pequeno livro sobre o que é viver num Centro Comercial, entrevistando lojistas e consumidores, quiçá empregados da limpeza também, e passeando provavelmente pelos espaços vazios quando o Centro fecha, como outros escritores já fizeram em museus, embora ver pintura e escultura deva ser mais compensador do que ver montras. Vamos lá ver como acaba esta residência literária e o que nos trará. Ideias originais, não há dúvida.

Comentários

  1. Não deixa de ser curioso, que alguém para escrever livros, ter ideias, falar com pessoas, tenha de passar uma semana enfiado numa loja de um Centro Comercial.

    Pelo menos consegue ser notícia, numa altura em que se fala mais do "nada" que de "livros"...

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  2. António Luiz Pacheco6 de maio de 2026 às 03:36

    Ontem mesmo li essa notícia!
    Uma idéia original, bem ao jeito dele digo eu, e, aposto que vai recolher muito material de escrita. Aguardemos o desenrolar da coisa, pois a escrita é algo de vivo!
    Votos de sucesso cá desde a Cidade Morena.

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  4. "A minha filha chama-se Teresa, tem cinco meses e não percebe nada de astrofísica, literatura ou finanças públicas. Além disso, é analfabeta"
    22 de Outubro de 2024

    Este é o excerto de uma crónica de Afonso Reis Cabral.
    A menina Teresa, analfabeta, tem cerca de dois anos.
    Seria mais útil para a menina que o pai em vez de ter fugido uma semana para um centro comercial estivesse em casa a tomar conta dela, a dar-lhe carinho, a dar-lhe amor, a cuidá-la.
    Que tipo de pai é que foge da família para ter uma experiência, para escrever um livro?
    Será que não podia ficar em casa e escrever um livro sobre:
    "Uma semana no meu apartamento a cuidar da minha filha, a fazer comida, a vigiar-lhe o sono, a mudar-lhe as fraldas, a dar-lhe banho, a acalmar-lhe a berraria e a trabalhar, a escrever um livro"
    Isto sim, seria um livro que eu quereria ler.
    Brincar aos escritores e sobrecarregar os outros é fácil.


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  5. A sério? Que giro!!
    Lamenta-se apenas que o tetravô da criatura dê voltas na tumba…

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  6. A sério que achas isto curioso, Luís?
    Deixar uma filha bebé para ir brincar a uma experiência imersiva num centro comercial, será o novo neo-realismo?
    Um Orwell que em vez de ir combater na guerra civil espanhola, um Hemingway que foi fazer a "Fiesta" num bar mexicano do Colombo, à experiência, enfim, cada um com os seus heróis.
    Eu acho desprezível esta opção.

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  7. António Luiz Pacheco6 de maio de 2026 às 14:36

    Extraordinário, digo-o com leve e saudável ironia.
    Extraordinária diversidade de opiniões e reacções que resultaram desta curiosa iniciativa.
    Bom sinal, estamos vivos, discordamos e manifestamo-nos, assim seja diáriamente.
    Notem que sou dos que apostam no Afonso Reis Cabral, sou fã mas não fanático, aliás lembro que nem gostei assim tanto do seu último... todavia reconheci ainda neste uma notável capacidade de observação e entendimento, o que me mantém a apostar nele.
    Sinto que desta sua e novel experiência de recolha ao vivo pode muito bem sair coisa muito boa! Deus e o Eça o iluminem!
    Faço notar que não creio que uma semana passada num centro comercial vá ter repercussões no desenvolvimento da sua filha... sinceramente. Aliás (lamento a franqueza) acho um argumento assim um bocadinho tolo. Enfim... não quero ofender e estou pronto a defender o que disse.
    Foi um bom dia neste Blog! Sempre Extraordinário.
    Grande abraço ao Afonso.

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  8. Não consigo compreender por que razão um escritor que é também pai, não pode separar-se da filha durante uma semana. Estarão os dois sós no mundo?! Só se têm um ao outro? Não haverá quem substitua o papá durante 7 ou 8 dias?! E a criança fica assim tão lesada por separação tão curta? Por acaso imagino que existam poucos progenitores que nunca se tenham separado dos filhos.
    Julgo que a separação é por uma boa causa. Afinal o jovem parece que é um fenómeno, cada livro cada êxito. Portanto...deixem-no ser como é, tomar os caminhos que entende que possam levá-lo à escrita. Também nós saímos a ganhar.
    Nota: é muito curiosa e original a forma como descreveu a filha. Até me lembrou Pessoa.

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  9. Muito inovador, até porque ninguém vive num centro comercial. Uma espécie de sem-abrigo num hotel de luxo. Com o lápis atrás da orelha e um bloco notas no bolso das calças. A não ser que vá buscar um portátil à Fnac.

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  10. "Escrevi isso no A arte da fuga, mas as coisas têm de ser contextualizadas. O livro era sobre uma pessoa que tinha problemas de abandono. Quando lidava com o abandono do Mágico, protagonista dessa história, que é verídica, lidava também com os meus sentimentos de abandono. Quis pôr o meu abandono infantil [no livro] relacionando-o com a situação de abandono [relatada] porque isso é muito importante em terapia. Quando estamos a lidar com um problema que tem alguma coisa a ver connosco, temos de equacionar o nosso problema. Na altura reflecti sobre esse meu abandono"
    Daniel Sampaio, tem 79 anos e nunca ultrapassou o trauma de ter sido abandonado, mais ou menos da idade da Teresa, para os pais irem passear, com o irmão Jorge Sampaio, aos Estados Unidos da América, ele é psiquiatra, deve saber do que fala.
    Uma coisa é ir trabalhar, ir para a guerra, etc, etc, etc. algo muito diferente é fugir da família e da filha para ter uma experiência de reclusão num Centro Comercial.
    Posso ser eu e o Dr. Daniel Sampaio que estejamos a ver isto mal e que seja muito útil e benéfico para o desenvolvimento dos bebés serem abandonados pelos pais.
    Cumprimentos para o Ultramar .

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  11. Mais um excelente golpe publicitário do escritor sem nome próprio: "Trineto de Eça de Queirós vai ver como vivem os pobrezinhos!". A Imprensa adora e a publicidade gratuita está feita. É a literatura moderna, o escritor-publicitário que se sabe vender. Se daí resultar boa literatura, nada contra... mas que há cada vez mais carros a seguir à frente dos bois, há.

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  12. Não posso achar outra coisa, Pedro.

    Cada um de nós vive a vidinha como sabe e como pode...

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  13. António Luiz Pacheco7 de maio de 2026 às 03:53

    Abraço para a metrópole... eheheh! Até ao meu regresso.

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  14. É uma tristeza ler alguns destes comentários, não preciso dizer quais.
    O Afonso Reis Cabral é um grande escritor e um grande ser humano. Basta lê-lo e ouvi-lo para perceber isso.
    Desprezível é vir aqui destilar veneno e querer ensinar alguém a ser pai...
    Boa tarde!

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  15. Cara pessoa anónima,
    Discuta ideias e opiniões, não pessoas.
    Há pessoas que têm opiniões com as quais concordamos ou discordamos e que as fundamentam, com a própria experiência, com citações, etc e que assinam o próprio nome.
    Há pessoas como a senhora (ou senhor) que não acrescentam nada.
    Ser pai não se aprende?
    Todos nascemos cheios de sabedoria, todos sabemos ser excelentes pais e maravilhosas mães?

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  16. A cara pessoa anónima está apenas a lamentar as ideias e não os autores dos comentários.
    Picou-se?
    Mas não deveria, já que me parece tão cheio de certezas relativamente ao que um pai deve ou não fazer...
    Boa noite!

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