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No mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Meu Primeiro Apocalipse, cujo enredo decorre cerca de 2066 (não é um futuro tão longínquo como possa parecer), os céus já têm mais drones do que pássaros, e duas mulheres – uma delas curiosamente jornalista e escritora – querem resgatar a importância da leitura para tentar salvar o mundo. Penso que o assunto, sobretudo tratado por um jornalista, um homem que lida com informação e deve saber de notícias falsas e manipuladas como poucos, deveria ter gerado mais interesse dos nossos jornais, até porque se sabe que o QI tem vindo a baixar desde o princípio do século e que a culpa é sobretudo da falta de linguagem e consequente incapacidade de construir ideias e argumentos, resultado, claro, da falta de leitura. Mas não. Infelizmente, em vez de pegarem nesta questão, que foi falada num debate durante a feira do livro de Évora, por ocasião do Comboio Literário, os blogues, revistas e jornais referem a resposta do escritor à pergunta sobre o que o levou a estudar jornalismo em Lisboa. E porque terá sido? Bem, porque foi um desgosto de amor que fez Rodrigo Guedes de Carvalho abandonar o Porto natal e vir para a Universidade Nova de Lisboa. Caramba, pensei que os nossos meios de comunicação fossem um nadinha mais crescidos... Eu, que recebo os recortes de imprensa das Publicações Dom Quixote, estou sempre a ler sobre o coração partido de Rodrigo Guedes de Carvalho há décadas. Se essa ninharia levar as pessoas a ler o livro, tudo bem, mas duvido. Leiam-no os que se preocupam com o descréscimo do nível das leituras.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco26 de maio de 2026 às 03:46

    Bom... uma vez que parece comprovado o abaixamento do QI desde o início do século - caramba, em apenas 26 anos - não será de estranhar a acefalia que grassa nos meios de comunicação!
    Eu corro diáriamente as notícias, na imprensa on line, em cruzado e foco-me naquilo que me interessa. Noto a profusão de notícias sobre o novo amor da celebridade tal, a separação do casal mediático X, as mini-férias (?) da boazona de serviço, e outras irrelevantes novidades que me levam a pensar em que se celebrizam estas pessoas a não ser por via destas notícias perfeitamente imbecis? Afinal quem conduz à imbecilização do público são justamente os media, depois o pessoal lê parvoíces como estas e pelos vistos habitua-se a não pensar. Mais quando as mesmas celebridades resolvem pronunciar-se sobre a conservação do lince, os fogos florestais ou a guerra na faixa de Gaza, debitando lugares comuns que ficam bem, ou impressões próprias (de)formadas sabe-se lá como, mas raramente sensatas ou informadas, achando-se todos muito esclarecidos e sábios.
    Ficam para trás opiniões dos académicos e verdadeiros especialistas, pois estes raramente têm vez e mais raramente ainda dizem aquilo que se quer que seja dito. Se calha irem a uma TV ou dar entrevista, interrompem-nos e não deixam falar ou dão destaque ao que interessa noticiar segundo a corrente oficial pretendida.
    Tudo isto concorre para o baixo QI, vejam-se a profusão de humoristas a fazer comentário político, de reality shows e quejandos, que são estupidificantes e nem por isso entretenimento.
    Eu nem sequer vejo noticiários, pois deixaram de informar, os próprios pivôs agem como se fossem juízes e não repórteres. Em vez da notícia temos painéis de comentadores especialistas em tudo e mais alguma coisa, a dar-nos a sua versão e analisando sem nos dar hipótese de pôr em funcionamento as nossas próprias funções de selecção e síntese.
    O público actual considera-se esclarecido, mas não é! E assim nunca o será, pois só conhece uma narrativa e apenas um lado das questões ou uma vertente dos problemas.
    Realmente 2066 nem está assim tão longe... bom, duvido que lá chegue e em que condições mentais.
    Sem dúvida que ler é preciso, mas era também necessário haver mais diversidade na edição e publicação de livros, que eu noto ser cada vez mais restrita e dirigida.
    Fica a crítica, e não me digam que não é verdadeira, pois sei que é. Se duvidam vejam os livros (temas e autores) maioritáriamente divulgados ou expostos nas livrarias Sei que é negócio e que a economia manda, mas então não chorem porque se lê pouco, quando não promovem a diversidade que é a chave para o incentivo e a extensão da leitura.

    Enfim, um dia sombrio aqui na Cidade Morena e mais de cacimbo na Baía Farta onde me encontro e de onde envio as minhas melhores saudações.

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  2. Não foi combinado com MRP, mas podia ter sido.

    E contribui para explicar muita coisa:

    "Long-term slump in U.S. test scores per­sists, by BY CLAIRE CAIN MILLER, FRANCESCA PARIS AND SARAH MERVOSH

    Something happened globally around the same time: the proliferation of devices, at home and in school.

    Nearly half of American teenagers now say they are online “almost constantly,” compared with just under a quarter who said that a decade ago, according to Pew Research Center. Virtually all schools give children laptops or tablets in class, as early as kindergarten.

    Few rigorous studies have teased out the role of devices in academic outcomes. Yet educators say there’s no question that swiping has decreased students’ focus and persistence, and time on devices has displaced time spent reading or studying. Far more teenagers — nearly one in three — now say they “never or hardly ever” read for fun.

    In turn, schools expect less from students, assigning fewer whole books and simplifying the curriculum, said Carol Jago, associate director of the California Reading and Literature Project at the University of California, Los Angeles.

    “There’s no other way, except volume, in order to become a really proficient, fluent, avid reader,” she said."

    The New York Times

    https://leiturasimprovaveis.eu/2026/05/revista-de-imprensa-3/

    Boas Leituras

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  3. Obrigada. É assustador.

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  4. Já assisti à entrada de crianças e jovens em livrarias - que eu chamaria de cromarias - não para adquirirem qualquer tipo de livros para o seu escalão etário ou próximo, mas para comprarem montes de saquetas com cromos, principalmente dos que se relacionem com o futebol.
    Os pais entregam-lhes notas de 20 e 50 euros e eles que se satisfaçam com uma coleção que não lhes traz qualquer grau de aprendizagem ou de criatividade; aliás, a par, também lhes satisfazem o prazer de jogos com as tais laptops, telemóveis e similares, onde se colecionam jogos de uma futilidade aberrante, cuja coleção lhes agrada na soma de pontos que não lhes trazem qualquer mais-valia.
    Não é preciso chegar a 2066 para a Humanidade, neste carreiro de iliteracia e laptopedependência, com o digital á mesa, na cama e do WC, atingir ou recuar até ao patamar do Homo Sapiens cavernícola, depois de encherem toneladas de material, para reciclar, das tecnologias que se tornam obsoletas em poucos meses.
    Dos livros, os papás despreocupados, apenas poderão observar as lombadas - e apenas estas - nas estantes da sala de estar, como quadros mudos de exposição do saber que não procuraram.
    O telemóvel passou a ser, à mesa, parceiro do guardanapo; e, por incrível que pareça, mais utilizado do que o adereço higiénico.
    Desculpem este desabafo mas, tal como o Bocage, saiu-me em dia em que estou mais pachorrento.

    Cumprimentos desde o Planalto, ora bem aquecido.

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  5. Acho uma excelente ideia pôr os jovens a ler o Rodrigo Guedes de Carvalho e, já agora, o José Rodrigues dos Santos. Mais os ensaios historiográficos do José Gomes Ferreira e a obra completa da Judite de Sousa. São todos escritores com um altíssimo QI, como é público e notório.

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