Envelhecer nas badanas dos livros

Um dos autores que imediatamente associo à minha carreira no mundo da edição é Ian McEwan, cujo mais recente romance foi escolhido como o melhor livro de 2025 por vários meios de comunicação. Quando comecei a trabalhar nos livros em Janeiro de 1987, o primeiro romance que veria publicado pela editora para onde fui trabalhar, a Gradiva, foi justamente O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, e lembro-me perfeitamente de que na badana se falava de um romancista altamente promissor, uma nova estrela, segundo a revista Granta, um jovem turco das letras britânicas (elogiados no mesmo número eram também Kazuo Ishiguro e Martin Amis). O livro era de facto diferente e muito bom e, naturalmente, fui acompanhando o autor não só durante os nove anos que trabalhei na Gradiva (penso que Amsterdão, que ganhou o Booker Prize, foi o primeiro livro dele publicado depois da minha saída; e se calhar é por isso que nem gosto muito dele), mas até hoje, tendo lido todos os seus livros traduzidos em Portugal, excepto Lições (que tenho, mas ainda não li porque tem umas 700 páginas) e o tal romance muito elogiado pela crítica, O Que Podemos Saber (que me ofereceram no Natal e até já espreitei). O friso McEwan na minha estante nota-se bem; e, ao retirar alguns dos títulos mais antigos (A Criança  no Tempo, O Inocente, Cães Pretos, O Sonhador...) e comparar a cara do escritor com a da foto que aparece na badana deste novo romance, vejo como aquele «jovem turco» envelheceu e sinto-me eu própria uma senhora de idade, embora grata por ter podido trabalhar, rever, ler antes dos outros, algumas das suas obras. Tomara que McEwan ainda escreva muitos livros.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2026 às 01:39

    Tenho lido alguma coisa de IMcE, desde "A criança no tempo" que me foi oferecido num já longínquo Natal. Não o leio com regularidade mas também estou curioso sobre o seu último livro publicado, visto no escaparate da Bertrand aqui em Santarém.
    Acho curioso o título de hoje, pois justamente e a propósito da minha última leitura de J.E. Agualusa, cuja foto também vem na badana, pensei que o autor estava a amadurecer mas nem por isso a envelhecer, desde que o leio, também já vão alguns anos e outros tantos livros.
    Envelhecer a escrever deve ser algo muito reconfortante, suponho eu. A longevidade de um escritor é muito interessante e talvez até mais do que a sua produção... o nosso Camilo C.B. produziu muito mas morreu novo, por exemplo.
    Isto decidiu-me até a avançar para "Camilo Broca", que espero terei tempo de ainda ler por cá. Ontem à noite, acabei à lareira e entre algumas canecas de chá, a leitura de "África (para sempre) minha", uma interessante colectânea das histórias pessoais de pessoas tocadas por África, o que entendo perfeitamente.
    Votos de uma boa semana, que se anuncia fresca, entre lareiras e chá quente, próprias a quem gosta de ler.
    Saudações cá do Bairro Ribatejano.

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  2. Li e leio muito Ian McEwan.Como é lógico,há uns que gosto mais e outros menos.Neste momento tenho à espera “Lições” e ainda o último para comprar .
    Gostava só de pedir um esclarecimento-porquê “jovem turco”?Há qq coisa que me escapa.
    PS-sou o anónimo que referi,que sente a sua falta,mas não aquele que teceu comentários sobre touradas respeitante a ALPacheco.

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  3. Já sei porquê “jovem turco”-porque envelheceu!Não conhecia esta expressão.

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  4. Ah! A MRP fala de cancros especiais. O pai do autor e os outros com quem falou no IPO. Quer um conselho? Se não puder estar sentada, levante-se; deite-se. O contrário também é aconselhável.

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  5. Aceite, por favor, um conselho: esqueça o McEwan. Os srs Águalusa e Peixoto são, com ele, incompatíveis

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  6. Por causa de uns verdadeiros «jovens turcos» que se rebelaram contra o sultão durante o Império Otomano, a expressão passou a ser usada para jovens revolucionários que procuram reformar o sistema, e McEwan escrevia realmente de forma muito menos clássica do que hoje.

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