A autobiografia familiar de Eduardo Halfon
Aqui há cerca de um ano, um grupo de leitores da Cinemateca convidou-me para lá ir partilhar sugestões de livros. Lembro-me de pensar que talvez não fosse boa ideia falar dos que publico, porque, não podendo falar de todos, cometeria uma injustiça que, de certezinha, acabaria por chegar aos ouvidos de algum dos autores omitidos. Então, mais do que autores, sugeri projectos literários que me parecem muitíssimo interessantes, entre os quais o de Eduardo Halfon (o guatemalteco e judeu que residiu anos a fio nos Estados Unidos e só sabia inglês, pelo que, de volta à Guatemala, começou a escrever em espanhol para aprender a língua e nunca mais parou). Trata-se de uma obra coerente, toda ela centrada na sua família e em episódios decorridos em diferentes épocas e com diferentes membros, da qual tinham saído em Portugal Canção e Luto (este último é maravilhoso) e acaba de sair Tarântula. Vencedor do Prémio Médicis em França em 2024, este livro, que é mais um passo nessa espécie de autobiografia familiar, fala do regresso do ainda jovem Halfon à Guatemala numas férias para participar de um acampamento judeu, cujo conselheiro traz uma farda com uma tarântula bordada no braço. Mas, se a ideia era os meninos distraírem-se, tire daí a ideia: o campo tem tudo a ver com... um campo de concentração? Pois. Os franceses acharam este pequeno romance uma verdadeira jóia, apesar do horror das tarântulas. Não perca.
Na sequência do poste de ontem sobre árvores, andei à procura e encontrei um disco onde Paulo de Carvalho cantava há cerca de 50 anos um poema de Dórdio Guimarães de que fui mantendo na memória os dois últimos versos: Na estrada à noite/não pode haver desencontros/Eia tanta gente amiga/são as árvores.
ResponderEliminarE o primeiro livro de Halfon em Portugal foi publicado pela Cavalo de Ferro "aos anos".
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