Camões

Claro que, como qualquer pessoa que gosta de poesia, muitas das minhas horas nestes últimos tempos, por conta de comemorações e outras razões, têm sido dedicadas a Camões (tantas rimas!), nascido (supostamente) há 500 anos, mas não menos actual do que muitos poetas da actualidade (e melhor do que todos, lá diria Vasco da Graça Moura, que não gostava por aí além de Pessoa). Uma genialidade que não está ao alcance de todos, claro, e que lhe dá o direito de ser celebrado juntamente com a festa do nosso dia nacional (o 10 de Junho), ou não fossem Os (seus) Lusíadas uma epopeia sobre os Portugueses, com Vasco da Gama a representá-los. Li também sobre Camões e recomendo-vos hoje um livro intitulado Camões, Vida e Obra, de Carlos Maria Bobone, de que gostei imenso. Surpreende, por um lado, por ser uma espécie de não-biografia (dado que, quando se fala do Príncipe dos Poetas, quase nada está provado e as fontes são poucas e frequentemente contraditórias); e, por outro, pela cultura do autor que, ainda jovem, está incrivelmente bem informado e documentado e tem, de resto, teses bem interessantes da sua lavra sobre vários assuntos (a origem social, a natalidade, o temperamento, a obra, o tempo em que o poeta viveu). Leiam Camões e leiam sobre Camões. Em breve, falarei aqui também da excelente biografia de Isabel Rio Novo, mas ainda estou longe de a acabar.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco14 de maio de 2025 às 02:08

    Diria eu, no meu atrevimento de traça literária, que Camões é um tema que não tem fim.
    É um personagem fascinante, não apenas enquanto poeta ou porque poeta, mas o todo, e, creio que esse fascínio começa justamente na genialidade que lhe é reconhecida e imediatamente percebida assim que se lêem as primeiras palavras?
    A ponto de, impressionarem o jovem de 14 ou 15 anos que eu fui, quando comecei a estudar a sua obra no liceu. Já antes Camões, o duelista, boémio, zaragateiro, galã, aventureiro, soldado, desde a escola e no que ia lendo, passando até por colecções de cromos, me fascinara o bastante para lhe dar a maior atenção quando chegou a hora de estudar mais a sério (sim!) a sua obra, no Curso Geral dos Liceus. Felizmente tive eu mesmo a fortuna de ter tido um professor de português que além de apaixonado era um comunicador Extraordinário e me abriu essa porta para a Largueza que Camões nos transmite.
    Nunca fui leitor de poesia, já o disse várias vezes. Porém ao entrar na obra de Camões, teve ela o condão de me despertar para o facto de que há poesia cujo conteúdo afinal tem outros significados e finalidades, despertou-me então para, Gedeão, a seu tempo Pessoa, e posteriormente, imagine-se, Shakespeare, Coleridge, Yeats, Frost... etc.
    Percebi com Camões, e, fiquei desperto para a mensagem filosófica da poesia que muitas vezes contém, o seu fundo. Não sou suficientemente ilustrado para o analisar ou sequer exprimir, perdoem esta traça dos livros. Com o tempo e ao longo do tempo fui descobrindo outros poetas, continuo a não ser leitor de poesia, porém certa poesia eu leio como a um ensaio, se é que me consigo explicar.
    Não vejo porque uns possam colidir com os outros, cada um no seu Mundo e com a sua visão do Mundo, onde consigo ir beber as idéias que contêm e aquilo que me transmitem, até em comunhão de sentir e da forma de ver. É notável.
    Talvez porque ignorante e não-leitor de poesia, não entendo porque quem goste de Camões não aprecie Pessoa, ou porque qualquer deles inibam gostar de Gedeão?
    Camões, sempre, concluo. Fica aqui essa nota para mais uma leitura sobre ele, a adquirir logo que calhe, enquanto termino a leitura interrompida da obra Extraordinária de Isabel Rio Novo, que recomendo vivamente, mesmo e sobretudo aos que não se interessem por Camões.
    Houve alturas em que Camões pareceu sair de moda, apontaram-lhe defeitos que não possui, fruto de más interpretações e porque o Estado Novo quis fazer dele aquilo que na verdade é, um símbolo nacional, mas na forma errada e pelas razões que se sabem. Camões foi até considerado "fascista", imagine-se o disparate.

    Saudações Camoneanas cá da Cidade Morena.

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  2. Como diz o Extraordinário António Luiz Pacheco, “Camões é um tema que não tem fim.” Foi sempre um mal-amado, porque ele é mais do que o nosso espelho. O nosso espelho devolve-nos apenas o que queremos que nos devolva, mas Camões tem tudo o que de melhor e de pior há na pessoa humana. Com ele estamos sempre a ver-nos na totalidade dos nossos defeitos e virtudes. Por isso Camões é incómodo e, à parte na comemoração dos centenários, é normalmente esquecido.
    Desde muito novo, apaixonei-me pelo escritor e pelo homem, pelo seu conhecimento e a arte que tem em no-lo transmitir, pela frontalidade, pela paixão que põe em tudo o que faz, pela crítica mordaz, pela ousadia na crítica social e política e, finalmente, por ser um português.
    Se me é permitido, deixo um conselho: leiam tudo o que puderem de e sobre Camões. Já temos muita gente a escrever com honestidade, sobre esta figura ímpar.
    Lamento que, nos 500 anos do seu nascimento, não se tenha ainda editado uma obra de referência à sua altura, que seja um marco destas comemorações-
    Manuel Dias da Silva

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