Excerto da Quinzena

"São só sonhos. Também deves ter pesadelos, às vezes. Se calhar não tens, como és padre."


Ele riu-se. "Acho que tive mais do que a minha conta." E disse-o com aquela voz baixa e meiga com que costumava falar às viúvas, sabendo que o fazia. "Às vezes uma pessoa sente-se melhor quando fala deles."


"Com quem é que tens andado a falar deles todos estes anos? Deve ser com o velho Boughton."


Ele acenou com a cabeça. "Com o Boughton."


"E com Jesus, acho eu."


"Com Jesus."


"Nunca me contaste nada dos teus sonhos. Nadinha."


"Há muito tempo que não tenho sonhos de que valha a pena falar. Às vezes, anda uma coisa a perseguir-me e não sei para onde fugir. Depois acordo. A maioria deles resume-se a isto. Corro como o diabo. Já não corro assim desde os dez anos. E depois acordo com o coração a bater muito depressa."


"E é isso que dizes a Jesus."


 


Marilynne Robinson, Lila, tradução de Maria do Carmo Figueira

Comentários

  1. O excerto lembrou-me (talvez um conto, ou história) de Maria Judite de Carvalho.
    Leio Javier Marías "Os enamoramentos", livro que aqui já foi amplamente citado, pelo que me escuso a copiar um excerto.
    Bom fim de semana a todos

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  2. Bom dia

    Já que o mote são pesadelos deixo-vos dois

    1) A minha (mísera) tentativa de tradução de um excerto duma obra que julgo não editada em Portugal:

    "No final, ele estava a tentar dizer-nos que o que afligia as pessoas em Admirável Mundo Novo não era que elas estavam a rir em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam a rir e porque haviam parado de pensar."

    Rir até morrer: o discurso público na era do espectáculo, de Neil Postman

    2) O post de hoje, cujo conteúdo é, na opinião de alguns, um pesadelo em si mesmo

    https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/amusing-ourselves-to-death-by-neil-19807

    Bom descanso, boas leituras!

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