A quem pertence Borges?

Não é novidade para os leitores de Jorge Luis Borges (o enorme escritor argentino a quem, segundo muitas vezes se diz, não deram o Nobel da Literatura apenas por razões políticas) que ele não teve filhos e se casou já no final da vida com Maria Kodama, a mulher que o acompanhava havia anos, fosse como leitora (assim começou, ao que parece, a sua relação, pois Borges cegara bastante cedo), fosse como uma espécie de secretária (era ela que organizava a sua agenda). Acho que Maria Kodama foi também uma intérprete do mundo para Borges, pois li uma vez que viajou com ele ao Japão e lhe ia relatando tudo o que via; depois disso, ele escreveu um maravilhoso texto sobre esse país, como se facto tivesse podido ver o que cheirara, ouvira e sentira. Mas hoje o que eu queria dizer é que Maria Kodama morreu no final de Março e que ninguém encontra o seu testamento. Deste testamento constariam certamente os nomes das pessoas para quem seriam transmitidos os seus bens, nomeadamente os direitos de autor das obras de Jorge Luis Borges. E, se o documento não for encontrado, a propriedade será transferida para o Estado argentino, o que não é obviamente uma boa notícia. Por isso, tomara que a viúva do escritor tenha realmente feito um testamento a favor de alguém que saiba cuidar deste património tão especial e que apenas esteja a demorar a ser encontrado.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco13 de abril de 2023 às 02:56

    Borges pertence a todos nós, é património da literatura Mundial.
    Pertencerá ele á Argentina? Á Suíça? A Espanha? Aos EUA?
    Onde morreu Maria Kodama? Talvez isso possa dar uma pista. Ele deixou alguma vontade escrita? E ela teria deixado testamento?
    Em caso negativo, onde se encontra o acervo do escritor? Na Suíça onde faleceu? Sendo o mais provável, talvez fique acautelado.
    A Argentina não parece dar garantias... enfim, não neste momento e quem sabe quando o dará, mas também talvez não esteja em condições de o reclamar, ou para aí virada.
    Borges além de escritor foi uma pessoa deveras fascinante!
    Maria Kodama também deve ter sido, pelo menos capaz de ser os olhos dele, o que é notável.

    Saudações matinais cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
  2. "A quem pertence o Borges ?"
    A quem o direito sucessório argentino permitir/determinar.

    Se a sucessão do de cujus fosse regulada pelo direito português atender-se-ía ao duplo normativo conceptual da sucessão legítima ( a que ocorre em virtude da lei) e à (eventual) sucessão testamentária ( a que é realizada por meio de testamento), às classes dos sucessíveis ( v.g. cônjuge e descendentes, cônjuge e ascendentes, irmãos e seus descendentes,outros colaterais até ao 4.º grau, ao Estado, este o último da ordem).

    " A quem pertence o Borges " ? Ou a quem pertencerá os direitos de autor das suas obras ?
    Oxalá a quem divulgue legítimamente a sua Arte.

    ResponderEliminar
  3. " A quem pertence o Borges " ? Ou a quem pertencerão os direitos de autor das suas obras ?

    quis dizer; ressalve-se o lapso calami

    ResponderEliminar
  4. Também não conheço o Direito argentino, mas costuma ser assim: quando não há testamento, herdam os parentes mais próximos que se encontrarem (como já foi dito acima, por outras palavras).

    ResponderEliminar
  5. Também me perguntei ,depois da morte de Kodama. Em conversa com a companheira cheguei a comentar a estranheza de em tempos tão fofoqueiros não ter ainda surgido qualquer boato ou indício acerca do destino da Obra.
    Mas a pandemia de cancelantes e rasuradores exige medidas de saúde pública.

    ResponderEliminar
  6. En el laberinto de Buenos Aires, ciudad que Jorge Luis Borges tanto había recorrido, yacía oculto un secreto que intrigaba a sus habitantes. María Kodama, la última compañera en la vida terrenal del escritor, había dejado este mundo sin revelar el paradero de su testamento. La noticia de su muerte, aunque dolorosa, desató una frenética búsqueda de aquel documento que decidiría el destino de las creaciones literarias de Borges.

    Un abogado, al que llamaremos Ireneo, había sido un ferviente lector de las obras de Borges y se vio atrapado en el enigma de la desaparición del testamento. No sabía si la búsqueda era un acto de justicia o una vanidad personal, pero se embarcó en la travesía con el alma inquieta y el corazón ardiente. En la casa de María Kodama, descubrió entre los objetos personales una copia de "El Aleph", el libro de cuentos de Borges, con una nota en la primera página: "El secreto yace donde converge lo infinito".

    Esta pista lo llevó a explorar los misterios de la literatura, buscando en los cuentos de Borges la clave para descifrar el enigma. Pasaron los días y las noches, y en las bibliotecas, Ireneo se adentró en laberintos de palabras, espejos y tigres, abismos infinitos que lo absorbían y lo desorientaban. Fue entonces cuando, en medio de su desesperación, encontró la solución en una cita del cuento "La muerte y la brújula" que, aunque aparentemente no relacionada con herencias o testamentos, contenía un mensaje escondido. La cita decía: "La muerte (o su alusión) hace preciosos y patéticos a los hombres".

    Ireneo comprendió que el testamento no era un documento tangible, sino una metáfora de la herencia literaria, un legado que debía ser compartido con todos los lectores y escritores del mundo. Entendió que la intención de María Kodama había sido sumergir a todos en un último enigma borgiano, donde la realidad y la ficción se entrelazaban para dar forma a un tesoro inmaterial y perpetuo. Así, el testamento se convirtió en la historia de todos aquellos que, con cada lectura, exploraban y redescubrían el universo literario de Borges. La muerte y su alusión, aunque trágicas, volvían aún más preciosos los textos de Borges, mientras que la búsqueda desesperada del testamento se tornaba más patética en su contraste con la inmortalidad literaria que estos escritos representaban.

    ResponderEliminar
  7. António Luiz Pacheco17 de abril de 2023 às 07:42

    Belo!
    Gostei muito de ler, Ireneo. Muito bom e bem escrito, bonita peça e inteligente bocado de ficção.
    Saludos desde la Ciudad Morena!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório