Uma jóia rara

Não sei já em que ano, mas não há muito tempo, assisti no CCB a uma bela encenação de Miguel Loureiro do texto que Marguerite Duras escreveu a partir de A Fera na Selva, do romancista Henry James. Estudei Henry James na faculdade (The Turn of the Screw, que cá estava traduzido como Calafrio) e nessa altura, ou pouco depois, li Daisy Miller (e já tinha visto um filme baseado neste livro, com a Cybill Shepherd, mas já nada lembro dele). Não tenho ideia de ter voltado ao autor, e sei lá se voltaria, não fosse ter saído recentemente uma tradução de A Fera na Selva feita pela minha amiga Ana Maria Pereirinha, com quem trabalhei muitos anos em várias editoras. E, de facto, fiquei de alma cheia com a leitura, porque esta novela de Henry James (nascido americano e morto inglês, se não me engano) é uma prenda para qualquer pessoa que goste de um livro em que não exista um grama de gordura; é uma concentração de absoluto génio (em linguagem e assunto) que não é para qualquer escritor (nem qualquer tradutor, mas esta é das boas!); uma jóia que não se pode pode perder e é para ir degustando porque o seu grau de sofisticação e labor estético não se adapta às pressas destes nossos tempos, nos quais muitos não conseguem ler seguidas mais de cinco ou dez linhas sem suspirar de cansaço. Este é um livro para os amantes de um texto difícil, pensante, misterioso, excepcional. Em boa hora regressei ao senhor James. Boa Páscoa!

Comentários

  1. Deste autor só li "Os Papéis de Aspern". Gostei e fiquei de voltar mas nunca o fiz. Aqui está o "leit motiv" para que aconteça. Obrigado.

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  2. Os bons livros são aqueles que nos obrigam a pensar, dizia mais ou menos assim, o grande Vergílio Ferreira numa das pérolas da literatura portuguesa (conta-corrente)!

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  3. Teresa Palmira Hoffbauer6 de abril de 2023 às 04:17

    Li "The Turn of the Screw" ainda adolescente e senti mil calafrios.

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  4. António Luiz Pacheco6 de abril de 2023 às 08:12

    Os bons livros, são aqueles de que gostamos!
    Digo eu, traça dos livros, mui pragmática e lapalissianamente.
    Porque gostamos deles? Bom isso fica para conversarmos um dia, com tempo e pano para mangas, quem sabe se com um copo e mais alguma coisa que o enxugue...
    Um grande abraço cá da Cidade Morena, e, uma Páscoa Extraordinária para todos!

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  5. Vou ver se o encontro e gosto.
    Boa Páscoa, Rosário.

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  6. Ao deparar-me com a menção de "The Turn of the Screw", fui acometido por uma lembrança de outra obra que, à primeira vista, estaria tão longe de entrelaçar-se com as narrativas do ilustre James. Um canto de engenhos e invenções, onde a volúpia do parafuso se enrosca com eloquência e erudição em cada parágrafo. Em contraposição à intrincada teia psicológica de James, estoutra obra revela como a mecânica das singelas roscas permeia o nosso devir e quotidiano.

    Acaba por existir uma inusitada relação entre "The Turn of the Screw", do notável Henry James, e "One Good Turn: A Natural History of the Screwdriver and the Screw", da pena do exímio Witold Rybczynski. Em Rybczynski, somos arrebatados pelos requintes mecânicos dos parafusos, cuja evolução tem sido intrínseca à própria história da humanidade. A eloquência e erudição do autor imobilizam-nos ante a maravilha que é a mecânica destas ferramentas.

    Já em Henry James, deparamo-nos com um enredo de tensões e horrores psicológicos, onde o título alude a uma intrincada manipulação de emoções e percepções. A metáfora do parafuso, neste caso, serve como símbolo da tensão e suspense crescentes, enroscando-se no subconsciente do leitor, enquanto este se aprofunda nas sinistras reviravoltas da história.

    Ambas as obras, à sua maneira, demonstram o poder do parafuso como símbolo das forças que movem a humanidade, seja através de sinistras tramas psicológicas, seja pela evolução de invenções que moldam o nosso mundo. A principal diferença talvez resida em que, enquanto Rybczynski, munido de uma chave de fendas de alta tecnologia, aperta os parafusos com precisão, James dá-lhes voltas e mais voltas, com a sua literária chave americano-inglesa, até estes estarem quase em ponto de ruptura.

    Que espectáculo delicioso é a leitura que nos permite encontrar semelhanças em obras tão díspares e nos faz sorrir ao imaginar um hábil ferreiro, com uma chave C.P.Snowniana, a enroscar um parafuso cerebrino que unisse a ficção de James à análise tecnocientífica de Rybczynski…

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  7. Este anónimo veio animar este blog!Tem andado um bocado chocho…

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