Uma jóia rara
Não sei já em que ano, mas não há muito tempo, assisti no CCB a uma bela encenação de Miguel Loureiro do texto que Marguerite Duras escreveu a partir de A Fera na Selva, do romancista Henry James. Estudei Henry James na faculdade (The Turn of the Screw, que cá estava traduzido como Calafrio) e nessa altura, ou pouco depois, li Daisy Miller (e já tinha visto um filme baseado neste livro, com a Cybill Shepherd, mas já nada lembro dele). Não tenho ideia de ter voltado ao autor, e sei lá se voltaria, não fosse ter saído recentemente uma tradução de A Fera na Selva feita pela minha amiga Ana Maria Pereirinha, com quem trabalhei muitos anos em várias editoras. E, de facto, fiquei de alma cheia com a leitura, porque esta novela de Henry James (nascido americano e morto inglês, se não me engano) é uma prenda para qualquer pessoa que goste de um livro em que não exista um grama de gordura; é uma concentração de absoluto génio (em linguagem e assunto) que não é para qualquer escritor (nem qualquer tradutor, mas esta é das boas!); uma jóia que não se pode pode perder e é para ir degustando porque o seu grau de sofisticação e labor estético não se adapta às pressas destes nossos tempos, nos quais muitos não conseguem ler seguidas mais de cinco ou dez linhas sem suspirar de cansaço. Este é um livro para os amantes de um texto difícil, pensante, misterioso, excepcional. Em boa hora regressei ao senhor James. Boa Páscoa!
Deste autor só li "Os Papéis de Aspern". Gostei e fiquei de voltar mas nunca o fiz. Aqui está o "leit motiv" para que aconteça. Obrigado.
ResponderEliminarOs bons livros são aqueles que nos obrigam a pensar, dizia mais ou menos assim, o grande Vergílio Ferreira numa das pérolas da literatura portuguesa (conta-corrente)!
ResponderEliminarLi "The Turn of the Screw" ainda adolescente e senti mil calafrios.
ResponderEliminarOs bons livros, são aqueles de que gostamos!
ResponderEliminarDigo eu, traça dos livros, mui pragmática e lapalissianamente.
Porque gostamos deles? Bom isso fica para conversarmos um dia, com tempo e pano para mangas, quem sabe se com um copo e mais alguma coisa que o enxugue...
Um grande abraço cá da Cidade Morena, e, uma Páscoa Extraordinária para todos!
Acho que estão os dois certos. :)
ResponderEliminarVou ver se o encontro e gosto.
ResponderEliminarBoa Páscoa, Rosário.
Ao deparar-me com a menção de "The Turn of the Screw", fui acometido por uma lembrança de outra obra que, à primeira vista, estaria tão longe de entrelaçar-se com as narrativas do ilustre James. Um canto de engenhos e invenções, onde a volúpia do parafuso se enrosca com eloquência e erudição em cada parágrafo. Em contraposição à intrincada teia psicológica de James, estoutra obra revela como a mecânica das singelas roscas permeia o nosso devir e quotidiano.
ResponderEliminarAcaba por existir uma inusitada relação entre "The Turn of the Screw", do notável Henry James, e "One Good Turn: A Natural History of the Screwdriver and the Screw", da pena do exímio Witold Rybczynski. Em Rybczynski, somos arrebatados pelos requintes mecânicos dos parafusos, cuja evolução tem sido intrínseca à própria história da humanidade. A eloquência e erudição do autor imobilizam-nos ante a maravilha que é a mecânica destas ferramentas.
Já em Henry James, deparamo-nos com um enredo de tensões e horrores psicológicos, onde o título alude a uma intrincada manipulação de emoções e percepções. A metáfora do parafuso, neste caso, serve como símbolo da tensão e suspense crescentes, enroscando-se no subconsciente do leitor, enquanto este se aprofunda nas sinistras reviravoltas da história.
Ambas as obras, à sua maneira, demonstram o poder do parafuso como símbolo das forças que movem a humanidade, seja através de sinistras tramas psicológicas, seja pela evolução de invenções que moldam o nosso mundo. A principal diferença talvez resida em que, enquanto Rybczynski, munido de uma chave de fendas de alta tecnologia, aperta os parafusos com precisão, James dá-lhes voltas e mais voltas, com a sua literária chave americano-inglesa, até estes estarem quase em ponto de ruptura.
Que espectáculo delicioso é a leitura que nos permite encontrar semelhanças em obras tão díspares e nos faz sorrir ao imaginar um hábil ferreiro, com uma chave C.P.Snowniana, a enroscar um parafuso cerebrino que unisse a ficção de James à análise tecnocientífica de Rybczynski…
Este anónimo veio animar este blog!Tem andado um bocado chocho…
ResponderEliminar