Abril em Paredes de Coura
Há dias falei de Foz Côa, ontem de Óbidos e hoje falo de Paredes de Coura. Dizem as estatísticas que este blogue tem leitores em todo o País (e até fora dele) e, como tal, é bom publicitar o que se passa fora dos grandes centros. Ora, a autarquia de Paredes de Coura vai celebrar Abril em grande com um concerto amanhã, dia 22, às 21h30, que terá António Zambujo como estrela no Centro Cultural. Mas, apesar de adorar o António e até escrever letras para ele, o que quero mesmo é publicitar nesse mesmo dia, pelas 16h00, uma sessão organizada pelo Centro Mário Cláudio que tem tudo para ser interessante, emotiva e informativa. Integrada no Ciclo «A Guerra em África» (Mário Cláudio esteve na Guiné e já contou a sua experiência em Astronomia), e a par de uma exposição sobre a guerra colonial, na mesa vão estar presentes para falar do que foi este período negro da história portuguesa (e todos com conhecimento de causa) os escritores Lídia Jorge, Manuel Alegre, João de Melo, Carlos Vale Ferraz e o próprio Mário Cláudio. A conversa será moderada por José Alberto Pinheiro. Assim, se estiverdes por esse norte-norte, lá mesmo em cima, ainda podereis escutar Samuel Úria no dia 24 de Abril em Paredes de Coura e fechar a festa em beleza.
"Este período negro da história portuguesa" ... contesto!
ResponderEliminarFoi apenas mais um período negro. Faço notar.
Há que perceber que é assim a história dos países, com épocas melhores e piores.
Por acaso existe algum país sem períodos negros? Onde seja tudo azul-celeste?
Não podemos reduzir a história aos nossos tempos. Para os jovens de hoje, aquele é um período tão negro quanto foram as invasões francesas, a guerra civil que se lhes seguiu, etc. Isto para nem ir lá atrás aos Filipes e por aí fora, até às invasões bárbaras.
Hoje a guerra colonial, já é uma memória, que marcou ainda a minha geração, no entanto não é O período negro da nossa história! É apenas mais um.
Acabei de ler uma notícia que diz que um ex-governante já não vai ser julgado por determinado crime... ora o momento que vivemos é e vai ser igualmente um período negro na nossa história, contemporânea. Que será um dia recordado como tal, e, vão haver outros, enquanto houver país pelo menos. Enquanto houver memórias e história, porque se calhar quando for tudo apenas inteligência artificial e os seres humanos meras máquinas, desaparecem os períodos negros e passa tudo a período côr-de-rosa ou arco-íris.
Saudações cá da Cidade Morena.
O "plantel" é de arromba - e incluo António Zambujo, um dos poucos que me leva ao coliseu.
ResponderEliminarMas, ele que me desculpe, a conversa entre os escritores é igualmente apelativa. Só que o norte-norte para quem é do sul fica longe-longe.
Eu trabalhar em uma cafetaria aqui em Paredes de Coura, perto da igreja, onde ter muitas flores bonitas e ter vista para o rio. Hoje eu encontrar uma poema muito bonita em cima de uma mesa. Ela estar debaixo de copo com resto de vodka e pires com resto de pastel de nata.
ResponderEliminarEu nao saber quem escrever a poema, mas eu gostar muito. E entao, encontrar a poema debaixo do copo ser como um presente. E encontrar escrituras neste blog com falar de Paredes de Coura, parecer que a poema estar espera por mim, para que eu possa ler e partilhar com outras aqui. Ser uma sensacao muito especial.
Esta poema trazer muita emocao para mim. Eu pensar que todas as pessoas no mundo precisar de paz e uniao. Ser muito triste ver as guerras acontecer e as pessoas sofrer.
Eu achar as referencias a Milhazes, Rogeiro e Lula ser muito interessantes, mas eu não entender muito bem. Será que elas ter alguma ligacao com as guerras ou com a paz? Talvez eu precisar de aprender mais sobre a historia de Portugal e do Brasil para entender melhor. Mas o que eu entender da poema e que a paz ser muito importante e que todos devem trabalhar juntos para chegar la e isso concordar.
Na folha de papel onde estar escrito a poema, ter escrito que ela ser:
"letra para o Zambujo cantar. Titulo "Paz sem Guerra" ser muita basica, ou remeter muita para Lev Nikolaevitch Tolstoi?”
Eu nao saber, mas eu gostar do titulo, porque ele ser muito claro e direto.
Esta poema ser tão bonito que eu nao poder resistir em partilhar com outras. Aqui ele estar:
"Eu vivi a guerra, meu irmão
E vi o que ela faz
O sangue que se derrama, sem perdão
A terra que se desfaz
Não posso cantar, ai de mim
A canção da guerra
Que só espalha a miséria, ai de nós
E faz o mundo chorar
Eu senti a dor, oh sim
O medo e a solidão
A morte à minha volta, sem fim
Sem paz nem solução
(Refrão)
Mas eu hei de cantar, meu irmão
A canção da paz, sim
Que espalha a luz e a união
E faz o mundo feliz, enfim
Quando leio o jornal, irmão
Outra guerra a rebentar
Sinto um nó na garganta, então
Por quem a vai enfrentar
E eu pergunto aos especialistas
Que nos falam na televisão
Se eles sabem o que se passa
Ou se só querem confusão
José Milhazes, Nuno Rogeiro
Vocês têm a palavra primeiro
Digam-me o que é que se faz
Quando o mundo não está em paz
E o Lula, que grande diplomata
Finge que não vê quem mata
Ou será que já se vendeu
Ao que Putin lhe prometeu
Refrão:
Mas eu hei de cantar, meu irmão
A canção da paz, sim
Que espalha a luz e a união
E faz o mundo feliz, enfim
Não posso calar
A voz da consciência
Que me exige resistência
E não me deixa vacilar
Canto a paz, meu irmão
E a esperança eu vou buscar
Com a força da nossa união
E a vontade de a acalentar
Refrão:
Mas eu hei de cantar, meu irmão
A canção da paz, sim
Que espalha a luz e a união
E faz o mundo feliz, enfim"
Permita-me, com a devida vénia, discordar respeitosamente da opinião por si expressa, a qual, creio, peca por uma abordagem algo redutora e descurada dos aspectos mais profundos e complexos da nossa História. Com efeito, a Guerra Colonial, à qual a nossa anfitriã alude como "este período negro da história portuguesa", merece, a meu ver, ser ponderada com um olhar mais criterioso e uma análise mais aprofundada.
ResponderEliminarÉ inegável que a História de Portugal, tal como a de outros países, é marcada por momentos de luz e de sombra, e que, em diversos períodos, se pode assinalar episódios de maior ou menor agrura. No entanto, não nos podemos esquecer de que a Guerra Colonial, como conflito armado que envolveu a nossa nação, trouxe consigo um lastro de sofrimento e de perdas irreparáveis para inúmeras famílias portuguesas e para os povos das então colónias portuguesas. A Guerra Colonial foi, por assim dizer, o derradeiro estertor de um império em agonia e um prenúncio do processo de descolonização que se lhe seguiu.
Concordo que não podemos reduzir a História aos nossos tempos e que cada geração terá os seus períodos negros, como você mencionou. No entanto, é essencial ponderar os eventos no contexto do seu tempo e reconhecer que, embora outros momentos obscuros tenham marcado a nossa história, a Guerra Colonial merece ser destacada como um período particularmente negro, não só pelas inúmeras vidas ceifadas e pelo sofrimento que causou, mas também pelo atraso que provocou no desenvolvimento de Portugal e das nações que dela emergiram.
O momento atual, meu caro, é de facto um período em que a nossa nação enfrenta desafios de monta, e é natural que, enquanto houver país, haja memória, História, e altos e baixos. Entretanto, é crucial não menosprezar a importância e o impacto de eventos do passado de maior envergadura, como a Guerra Colonial, que ainda hoje reverberam no presente e moldam o futuro da nossa nação e de muitas outras.
Termino, assim, reiterando a minha respeitosa discordância quanto à posição por si defendida e salientando a importância de uma abordagem criteriosa e aprofundada da nossa História, para que possamos compreender, aprender e evitar que erros maiores do passado sejam cometidos no presente ou no futuro. Chamar os bois pelos nomes é um primeiro passo para não esquecer e ter um debate construtivo acerca das lições que tais eventos mais trágicos nos legaram.
(P.S. Outro aspecto a considerar é o equívoco de misturar a nossa juvenilidade cor-de-rosa, vivida em âmbito individual, com uma fase de generalizada bonança e felicidade, isto é, atenuar os capítulos sombrios da História com base nas lembranças pessoais dos nossos tempos mais resplandecentes.)
Curiosa, esta partilha. Faz pensar se o autor não será alguém do meio literário, a julgar pela sua presença no local nas vésperas do evento. Obrigado
ResponderEliminarDiscordar é sempre útil e saudável, quando feito com elevação.
ResponderEliminarComo é o caso.
No entanto, continuaremos em desacordo e ambos na sua, como se costuma dizer-
Faço apenas um reparo a um argumento seu que me parece de todo errado:
"mas também pelo atraso que provocou no desenvolvimento de Portugal e das nações que dela emergiram".
Pelo contrário, como é que a Guerra Colonial pode ter provocado algum atraso no nosso país, quando se desenvolveu tanta indústria e produção para o esforço de guerra, que o país com o PIB mais baixo da Europa de então, manteve por mais de uma década em 3 frentes a milhares de Km, no que os poderosos e desenvolvidos EUA e França falharam na Indochina e no N de África? Está enganado nessa análise... desenvolveu-se em Portugal Metropolitano muita coisa, desde a indústria naval e militar, às conservas, moagens, etc.
Nas nações que emergiram da Guerra Colonial, não foi esta que as atrasou, isso lhe garanto eu que sei e vivi na primeira pessoa. Pelo contrário, Guiné, Angola e Moçambique estavam muito mais desenvolvidas do que depois da independência, e a Guerra Colonial as desenvolveu pela quantidade de portugueses que para elas foram, onde se criaram e deixaram indústrias, pescas, agricultura, estructuras como estradas, portos e caminhos de ferro, hospitais, escolas... o que sucedeu depois da independência, foram guerras intestinas pelo poder, que tornaram estes países num Narco Estado, outro destruído por uma guerra civil muito mais violenta do que a Colonial, e outro um antro de corrupção e jogadas políticas que redundaram na actual situação que se vive no Norte do país.
Não poderia estar mais errado, meu caro José Silva.
Enfim, esta a minha opinião, pois vivi ou assisti eu mesmo uma boa parte destas situações.
O que me leva a ter a opinião que tenho: a Guerra Colinal foi sem dúvida uma página negra da nossa história, mas apenas mais uma das muitas que compõem o livro da História de Portugal. Imagino que, pelo que me apercebo, tenha uma visão político-partidária da questão, eu não!
Um abraço, saudações cá da Cidade Morena de Benguela, onde vivo e me encontro.
Uma achega... já que este é um espaço de livros e de leituras, não podemos ignorar aquilo que de muito bom se tem escrito sobre o tema da Guerra Colonial!
ResponderEliminarDesde logo "Os últimos guerreiros do Império" de Rui Rodrigues.
"Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
"Contra-Insurreição em África. O modo português de fazer a guerra, 1961-1974" de James P. Can.
Valem a pena ler, entre outros, a quem se interesse pelo tema.
Agradeço o seu retorno e a cortesia no debate, elemento-chave para um diálogo enriquecedor.
ResponderEliminarContudo, gostaria de esclarecer que, ao mencionar o impacto negativo da Guerra Colonial, referia-me tanto a questões económicas, como a questões sociais e políticas. O seu impacto global foi claramente prejudicial. A guerra foi um sorvedouro de dinheiro e ceifou vidas inutilmente.
Portugal ficou isolado internacionalmente o que dificultou e atrasou, ainda mais, a sua inserção num mundo em rápida transformação.
Relativamente às nações colonizadas, reconheço que a presença portuguesa contribuiu para o desenvolvimento de infra-estruturas e a criação de emprego em certas áreas. Mas esse “progresso” foi feito à custa de exploração e desigualdade económica, desrespeito pelos direitos humanos, imposição de valores, divisão e conflitos.
O período pós-independência foi marcado por conflitos civis, instabilidade política e outras adversidades, exacerbadas, em parte, pelas tensões acumuladas, pelo coarctar de experiência política e administrativa das populações das colónias, e pela ausência de um processo de descolonização mais ordenado e negociado. A persistência do colonialismo e o prolongar da guerra foram determinantes para que o processo de descolonização fosse atabalhoado e as independências caóticas.
Pode crer que sei bem que raramente se pode encarar a História a preto e branco. Mas a estatística macabra da morte de colonizados, colonizadores, guerrilheiros e militares, implica que se considere a Guerra Colonial um período tenebroso da História de Portugal.
Também sei que a nossa experiência pessoal se sobrepõe muitas vezes a uma leitura desapaixonada da História e que, mesmo nos contextos mais inverosímeis, a vida continua e é muito mais matizada do que a súmula apresentada nos livros de História.
Embora eu apreciasse imensamente a continuação deste diálogo e o aprofundamento da discussão, coíbo-me de os prosseguir em espaço alheio, no blog da nossa estimada anfitriã Maria do Rosário Pereira.
Agradeço, no entanto, as suas sugestões de leitura e a partilha da sua experiência pessoal. A diversidade de perspectivas - além do mais, informadas e com lisura, como a sua - e o conhecimento directo e indirecto de testemunhos e acontecimentos enriquecem, sem dúvida, a nossa compreensão acerca da complexidade da Guerra Colonial e dos seus desdobramentos.
Obrigado.