Trabalho de campo
Em 2021, se não estou em erro, uma das chancelas da LeYa publicou um romance intitulado Casa do Prazer (no original, La Maison), da escritora francesa Emma Becker (o segundo nome, disse-o ela própria, é uma adaptação do apelido da avó alemã). O livro com o qual Emma se apresentou ao mundo, Mr. It, contava a relação de uma estudante com um homem mais velho e casado, e a autora confessou que se baseara na sua própria experiência. Neste momento, que estreia em Portugal um filme baseado em A Casa do Prazer, a escritora contou aos media que faz sempre trabalho de campo e que, tratando-se de uma história passada num bordel sobre as mulheres que lá trabalham, foi ao longo de dois anos prostituta num estabelecimento em Berlim para saber como era a vida das prostitutas e poder escrever o livro com conhecimento de causa. Interpelada por um jornalista, que lhe perguntou se não teria sido também pelo dinheiro, respondeu que não, embora outras estudantes universitárias trabalhem em casas de alterne para terem uma vida mais desafogada. Presumo então que é mesmo aquela coisa do «lugar da fala». Queres escrever sobre prostitutas?, pois então prostitui-te... Espero que esta senhora não se lembre de escrever sobre automutilação, anorexia ou mesmo um asilos de loucos, porque, se é para partir sempre das próprias experiências, ainda se pode tramar.
Bom, Mr. It parece-me que seja um romance adequado ao momento e a acontecimentos que andam para aí nos media, como se tornou moda aliás. Pode vir a ser um sucesso de vendas, apadrinhado aí pelas denunciantes de serviço que tendo subido na horizontal hoje são cruzadas pela causa que lhes serviu na devida altura.
ResponderEliminarVou fazer uma pergunta: Não existe em português uma palavra apropriada para "maison - casa do prazer" e até específica? "Lupanar", se bem me recordo.
Lá estou outra vez a levantar dúvidas sobre o trabalho dos tradutores!
Por exemplo anda para aí um filme do meu amado Tarantino, "The Hateful Eight ", traduzido por "Os Oito Odiados". Digam-me lá se não seria melhor "Os odiosos oito"? É que odioso e odiado são coisas diferentes e hateful é odioso, é o estado de ser odiado.
Podem dizer que estou a ser preciosista, e estou! Na minha profissão e actividades, a tradução precisa e correcta é imperiosa, no sentido de transmitir com exactidão o parecer.
Por exemplo: os brasileiros traduzem por "gradeamento" a operação de mobilização de solo em que se usa uma grade ou charrua de discos!
Imaginem que aconselho que se faça o gradeamento de um terreno para uma determinada cultura. O que fariam os Extraordinários que me leiam? Iam chamar um pedreiro mais um serralheiro e erigiam um gradeamento á volta do terreno! Percebem?
Acontece que o termo correcto é "gradagem", ou na gíria "passar à grade".
Ainda há dias me aborreci com um vendedor que desconhecendo o termo português "descarolador" (de maçarocas de milho) se afadigava a vender-me uma "máquina desfareladora", quando isso é uma "tarara", e, não tem nada a ver!
Não terei razão quanto á precisão e cuidado em traduzir?
Pode induzir-se em erro como se pode aviltar, truncar, aquilo que é o original.
Posso dar erros a escrever, assumo e antes que venha aí alguém apontar-mo como se isso desvirtuasse aquilo que digo, porém tento fazer uso correcto e alargado da nossa língua que é rica e deve ser bem usada pelos tradutores. Sob pena de se ficar "lost in translation", literalmente!
A autora parece ser dada a polémica, e se calhar ainda bem, digo eu. O livro também serve para isso, para causar polémica ou chamar a atenção para determinadas situações. Muitos autores usaram prostitutas/prostituição de modo Extraordinário nas suas obras, assim de repente lembro-me do Extraordinário Jorge Amado, ou Steinbeck, que trataram com humanidade e romantismo, sério e humano, o tema, dando-nos até personagens que são eternas e se tornaram ícones.
Pela minha parte tudo bem, até entendo e gosto de saber que se escreve sobre a experiência própria, com conhecimento de causa, que humaniza e dá credibilidade à obra, enfim, dentro de certos parâmetros do razoável.
A este respeito, pedindo desculpa por fazer algo que a Nossa Extraordinária Anfitriã não gosta e do que tento não abusar, porém parece-me apropriado, portanto vou citar-me:
" Disse que sou homem das letras. Ora, há quem escreva sobre aquilo que nunca viu ou viveu, depois imagina, ficciona se quiserem, mas no fundo mente. Já eu considero-me um pintor da palavra a embelezar o quadro que nem preciso inventar, só reproduzo, com umas pinceladas. Isso fez de mim escritor de viagens, ... " (Não tem Domingo na Equimina)
Creio que se adequa e até constitui tema para uma sempre agradável conversa, pois este blog anda algo desanimado... o que se passa?
Saudações animadas e animosas, cá da Cidade Morena.
Se todas as mulheres que já escreveram sobre prostituição, tivessem de se prostituir...
ResponderEliminarMuito mal andaria o Mundo (ainda pior do que anda...).
Até porque esta experiência não tem o mesmo significado para cada uma das pessoas que se prostitui.
E na volta até pode ser um "golpe publicitário" da autora (hoje para se venderem livros têm de se recorrer a muito mais meios)...
Sugestões Emma Beckerianas para livros de sucesso:
ResponderEliminar"O Segredo dos Cactos Sussurrantes": O autor passa um ano nu num deserto, tentando desvendar a misteriosa linguagem dos cactos. A história revela as descobertas surpreendentes e os desafios enfrentados na busca pela comunicação com essas plantas espinhosas, principalmente quando o vento não sopra de feição.
"Dançando com as Estrelas – Odisseia Cósmica": Neste livro, o autor passa um ano a coreografar e executar danças, com base nos movimentos das estrelas no céu nocturno, no topo de vulcões activos, em plataformas de gelo instável e durante tornados no Mississípi. A história descreve os desafios e descobertas feitas durante essa jornada celestial e é elucidativo sobre as várias próteses ortopédicas de última geração.
"O Culto do Abacaxi": O escritor funda uma seita religiosa baseada no culto ao abacaxi, atraindo seguidores devotos e explorando os limites da fé e da devoção. A narrativa esmiúça os sistemas de crenças e o poder da persuasão, levando a uma reflexão sobre a natureza humana e a busca por sentidos que dêem sumo à vida.
"O Diário de um Semáforo Ambulante": O autor veste-se de semáforo e passa um ano a regular o tráfego nas ruas das cidades mais caóticas do mundo. A história documenta as suas experiências e as reacções das pessoas, provocando reflexões sobre a ordem, o caos e a nossa relação com as regras sociais e os diferentes tipos de atendimento em urgências hospitalares.
"O Grande Roubo das Cuecas Desaparecidas": Decidido a desvendar o mistério das cuecas desaparecidas, o escritor infiltra-se no submundo dos ladrões de cuecas no Japão e documenta as suas descobertas. A narrativa demonstra a obsessão por mistérios triviais e faz-nos questionar sobre o que realmente importa nas nossas vidas e sobre a impermanência das coisas.
"1001 Dias Atrás do Reposteiro": O escritor propõe-se a passar 1001 dias consecutivos à janela com velhinhas e velhinhos em diferentes vivendas do Alentejo, explorando a dinâmica social dos espaços confinados e o que as pessoas revelam sobre si mesmas quando vêem sem serem vistas. O livro é um solilóquio sobre a necessidade de espaço pessoal e a curiosidade sobre a vida alheia, um verdadeiro hino à coscuvilhice.
"A Vida Secreta dos Pernilongos": O autor passa um Verão inteiro num pântano infestado de pernilongos, sem usar repelente ou protecção, para entender a vida desses insectos e o seu papel no ecossistema. O livro é uma reflexão sobre a persistência e a resiliência em face da adversidade e é um testemunho vívido sobre a febre do Nilo Ocidental e a encefalite de Saint Louis.
"Um Ano de Aventuras nas Retretes da CP": [ilegível]
“Atirei-me de um Avião sem Pára-Quedas”:…
Olhe... aí tem! Acaba de fazer uma lista de temas para uma série de romances satíricos, humorísticos á boa maneira de Tom Sharpe, por exemplo.
ResponderEliminarDo que é que está à espera?
Tenho sido muitas vezes acusado de preciosista, e, tal como o meu amigo Paxeco, sou!
ResponderEliminarObviamente que, por isso, tenho pago a factura, nomeadamente por aqueles que "é meia bola e força"/"quem vier atrás que feche a porta", são precisos é resultados...não sei se me fiz entender...
É que nos pormenores está a diferença.
Mas esta da prostituta parece-me exagero - Marlon Brando (o melhor actor da história do cinema) dizia que difícil não é fazer o papel de coxo ou marreco mas sim o de uma pessoa normal!
Isso! 😂🤣
ResponderEliminarJá vi que não sou só eu a “enervar-me” com as traduções!
ResponderEliminarUm destes dias, comprei uma tradução de Stefan Zweig e estou a pensar seriamente em apresentar uma reclamação à Porto Editora; creio que há que exigir um mínimo de qualidade e, apesar de no caso concreto me parecer ostensiva a falta dela, pedi o aval da minha perplexidade a um tradutor literário, rigoroso e com muitos anos de experiência, e a opinião coincidiu.
E é verdade que enquanto lia aquelas frases, que mais parecem charadas, pensei nas traduções técnicas mais “melindrosas”, que o são todas, é certo, mas pensei sobretudo na área médica, farmacêutica e de engenharia!