Excerto da Quinzena

Depois de todas as calamidades e ruindades que sobre mim se abateram, confesso que não estava à espera de um milagre desta natureza, nem acreditava na bondade do mundo, capaz de inverter a malfadada andança dos alcatruzes da minha desdita.


Mas quem haveria de me dizer, Vossa Senhoria, que todos estes prodígios tombariam sobre mim em terra tão distante das minhas origens e tudo por causa de um irmão que eu desconhecia existir, muito versado nas artes mecânicas e liberais de Caco, provando assim ser assaz verdadeiro aquele anexim que meu pai cochichava ao borralho, mais atestado do que um odre a seguir às vindimas, mirando minha mãe de esguelha, de que não há cão sem pulgas, nem linhagem sem ladrão ou puta.


Nascem uns com a cara virada para as boas estrelas, os bons fados, mas outros germinam com as nalgas espetadas para as más estrelas e os maus fados. Que potestade será essa que, nos acasos dos nossos dias, maliciosamente se esconde e assim manipula os astros do nosso fadário? Que deidade, ao longo do nosso transcurso, decide quais os Bojadores ou os Adamastores a dobrar?


Com estas e outras cogitações em mente, atravessei o Guadalquivir pela Puente de las Barcas em direcção ao bairro a que dão o nome de Triana, na outra margem do rio, e daí para o casinhoto de meu irmão, em San Juan de Alfarache, a fim de inaugurar um novo tempo, livre de tristezas, durezas e asperezas, que de abronhos já estava farto, sempre a viver, nos avessos da fortuna, o desconcerto do mundo.


 


Paulo Moreiras, A Vida Airada de Dom Perdigote (no prelo)

Comentários

  1. Já me estou aqui a salivar todo... quero mesmo muito ler mais esta maravilha do Paulo Moreiras!

    Bom fim-de-semana,
    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  2. Bom dia, Extraordin@rios Leitores:
    "Ela voltou a gorgolejar e a cabeça tombou para trás, repousando nas costas da poltrona. Agnes engasgou-se e ele viu como o vomito borbulhava nos dentes e nos lábios pintados. Shuggie ficou ali a ouvir a respiração pesada, densa e entupida. As sobrancelhas de Agnes franziram-se ligeiramente, como se acabasse de ouvir notícias que lhe eram desagradáveis. Depois o corpo estremeceu, não violentamente como se ela estivesse no banco traseiro de um táxi e avançassem novamente pela Pit Road cheia de buracos. Na altura, o filho quase fez alguma coisa, quase usou os dedos para a ajudar, mas a respiração dela assobiou, lentamente; desvanecia, como se estivesse a caminhar para longe dela. A cara de Agnes mudou, a preocupação desapareceu, e por fim parecia em paz, levada docemente, submersa na bebida.
    Era demasiado tarde para fazer o que fosse.
    Ainda assim ele abanou-a, mas Agnes não acordou. Voltou a abaná-la, e depois chorou sobre o corpo da mãe durante muito tempo, muito depois de Agnes ter parado de respirar. Sem efeito.
    Era demasiado tarde.
    Shuggie arranjou-lhe o cabelo o melhor que podia. Tentou esconder a brancura despudorada das raízes, arranjar-lhe o cabelo como ela mais gostava. Desembrulhou a dentadura e colocou-a gentilmente na boca da mãe. Então, com o papel higiénico, limpou-lhe o vómito do queixo e passou-lhe batom na boca, com cuidado para que ficasse dentro do contorno dos lábios. Recuou e secou os olhos. Parecia que estava apenas a dormir. Depois, dobrou-se e beijou a mãe uma última vez.
    "Shuggie Bain" de Douglas Stuart

    Livro maravilhoso, este que acabei de ler "às tantas da madrugada". Um pouco antes do "cantar do passarinho". E que belo é! Relata toda a miséria humana, nas suas mais variadas vertentes. Existente num Reino que se diz Unido. No final do século XX. Mas, e agora? No mesmo país que se diz ser de "Primeiríssimo Mundo". Numa atitude com laivos de arrogância, que se postula "estar bem é sozinho. Achando não precisar de mais ninguém.
    Utiliza-se neste livro uma linguagem crua, muitas vezes algo "desconcertante". Mas aqui também se fala de amor, de beleza e de dedicação extrema. Deste mesmo Shuggie que é criança e depois adolescente, mas que é também um Príncipe em delicadeza e em humanidade. Se me permitem, é leitura que muito aconselho... Para quem como eu ainda não havia tido oportunidade de a ler.
    Excelentes Leituras.
    Celeste Silveira

    ResponderEliminar
  3. Como não queria voltar para casa antes de ter passado uma hora, bebeu uma cerveja e meteu pelo caminho mais longo pelas ruas traseiras de Tarbalasi: gostava de fazer parte destas ruas onde miúdos praguejavam uns com os outros a jogar futebol, mães estavam sentadas em frente a pequenas casas de três andares com grandes tabuleiros no colo a escolher arroz e toda a gente conhecia toda a gente.
    Mevlut regateou o preço das melancias com um homem que estava sentado à sombra de uma tendinha feita com um pano preto num espaço aberto vazio, dando piparotes com os dedos numa série de melancias a tentar ver se eram vermelhas por dentro. Havia uma formiga a passear numa melancia.
    Orhan Pamuk - Uma Estranheza em Mim
    trad António Sousa Ribeiro

    ResponderEliminar
  4. Na nossa democracia, a participação parece ser impelida pelos mindos de gratificação instantânea de Twitter, Snapchat, Facebook e o ciclo de vinte e quatro horas de notícias. Estamos a utilizar a tecnologia moderna para regressarmos aos tipos primitivos de relações humanas. Os meios de comunicação social sabem o que vende o conflito e a divisão. Além disso, é fácil e rápido. Com demasiada frequência , a ira funciona melhor do que as respostas; o despeito melhor do que a razão; e emoção vale mais do que o que é evidente. Um comentário breve, hipócrita, independentemente da sua falsidade, é visto como a pura da verdade, enquanto uma resposta ponderada e bem elaborada í vista como conversa fiada e falsa. Lembra-me a velha piada política: “Porque é que há gente de quem não gostas de imediato?” “Faz popar muito tempo.”
    Que aconteceu às notícias factuais e equilibradas? Até já é difícil apresentar uma definição, uma vez que a fronteira entre factos e ficção, entre verdade e mentiras, se torna mais esbatida a cada dia que passa.
    Não podemos sobreviver sem uma imprensa livre, empenhada em preservar essa fronteira ténue e suficientemente segura para seguir os factos até onde a conduzirem. Mas o ambiente actual submete a graves pressões os nossos jornalistas, pelo menos aqueles que cobrem a política, para que façam precisamente o inverso – exerçam o seu próprio poder e, nas palavras de um célebre colunista, “anormalizem” todos os políticos, incluindo os honestos e capazes, amiúde em virtude de questões relativamente insignificantes.

    O Presidente desapareceu, Bill Clinton e James Patterson, Tradução de Artur Lopes Cardoso, 1ª Edição, Porto Editora, 2018, pp. 58-59

    Manuel Dias da Silva

    ResponderEliminar
  5. Que excerto delicioso! Agora há que ter paciência e aguardar até dia 14!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório