Censura
Os grandes problemas da Humanidade não andam, infelizmente, nas bocas do mundo. A fome, por exemplo, desapareceu dos discursos políticos: cá (onde há um quinto de pessoas no limiar da pobreza) e em toda a parte, porque mesmo as grandes potências preferem não falar disso a confessar que pouco fazem para minorar, por exemplo, a morte infantil por falta de alimento em países com grandes secas ou guerras infindáveis, sobretudo em África. Os assuntos preferidos são agora as ditas questões fracturantes, que não só ocupam tudo e todos (redes sociais incluídas), mas entram em excessos que roçam o ridículo. Num artigo recentemente publicado pelo Observador, ficámos a saber que as obras do genial Roald Dahl (sim, o de Charlie e a Fábrica de Chocolate), autor que deve ter feito milhões de leitores em todo o mundo, vão ser «censuradas»: desaparecerão os «gordos» e os «feios», por exemplo, para não ofender as criancinhas, e a editora Puffin contratou leitores para anotar tudo o que não seja linguagem inclusiva e reescrever os livros adaptando-os aos tempos actuais. Santo Deus, já estou a ver a professora que puxa as orelhas riscada das histórias e, assim, ser o senhor Dahl privado da graça que lhe achávamos quando víamos na nossa cabeça as orelhas tocarem o tecto. Além de que me parece realmente um abuso mexer na obra de alguém que está morto e não se pode defender. O que vale é que ainda há quem faça humor com estas atitudes, como poderão ver abaixo...
Em tempo: Já tinha o post programado quando leio que, devido a forte pressão internacional, a Puffin vai adiar estas medidas. Veremos se a pressão em sentido contrário não vai de novo mudar tudo...

A actual e tão insensata quanto isensível onda de censurar aquilo que ofende as minorias, vai pagar-se caro lá mais à frente. É o que nos diz a história, pois quando existe um desequilíbrio, para ser reposto o equilíbrio, dá-se um desequilíbrio de força igual ou maior em sentido contrário.
ResponderEliminarLembro-me assim de repentemente do "é proibido proibir", que chegou até hoje nesta estúpida obsessão de eliminar não os verdeiros males que nos apoquentam - guerra, fome, doença, opressão - mas estes malezinhos picuinhas e ridículos que mais do que fracturantes, são sim, desviantes!
Agora vamos obliterar junto das crianças os conceitos de feiúra ou de obesidade? Com que fim? Porque alguma gorda ou um feio leram o livro e se sentiram ofendidos? Olhem, têm bom remédio: façam dieta, vão ao ginásio e ao salão de beleza!
Realmente o disparate anda à solta, e, se agora os cruzados do pensamento único se dedicam a censurar livros, vai ser bonito!
Saudações sem sensura cá da Cidade Morena.
Sr. censurador:
ResponderEliminarVimos, por este meio, solicitar a V.Exa. que não seja expurgada a liberdade de expressão no que tange às palavras gordo e feio de obras literárias e artísticas cujo direito autoral está legalmente consagrado. E , ainda que as respectivas criações tenham caído na tentação do domínio público, por certo primarão pela integridade da sua essência de nado vivo.
Assina : alguém reclamante do direito à gordura e à fealdade
A Puffin não «vai adiar estas medidas». Vai sim manter a edição dos livros nos seus textos originais ao mesmo tempo que introduz as versões a(du)lteradas:
ResponderEliminarhttps://www.dailywire.com/news/publisher-walks-back-woke-rewrites-of-roald-dahls-classic-stories-will-release-original-text-as-well
Porém, Roald Dahl não é o único autor a estar na «mira» dos novos censores (esquerdistas) do «politicamente correcto». Ian Fleming é outro, e de momento não parece que a integridade da sua obra esteja protegida:
https://www.thegatewaypundit.com/2023/02/1950s-james-bond-books-being-rewritten-to-remove-racially-insensitive-words/
Talvez se possa argumentar que procedimentos deste tipo acontecem também em Portugal, embora num contexto diferente. Sophia de Mello Breyner Andresen era uma veemente opositora do «acordo pornortográfico», e, no entanto, os seus livros infanto-juvenis foram «acordizados» pela Porto Editora, como aqui se lembra:
https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/sophia-a-menina-do-mar-e-as-partidas-220093
Também penso que isso seja um absurdo. Que deixassem o texto original e criassem um encarte, algumas páginas de reflexão para as crianças sobre a época em que a obra foi escrita, sobre as mudanças que vemos atualmente no mundo. Seria até uma boa reflexão históricoa ou sociológica.
ResponderEliminarO problema é o liberalismo e a extrema esquerda que tomou tudo de assalto!
ResponderEliminarAHAHAHAH!
ResponderEliminarLance a petição... eu subscrevo!
Afinal também tenho us quilos a mais, e, se não sou feio sou um bocado parvo, no dizer da minha mulher, o que também é meu direito!!!!
Ó Sev. "tudo", não, mas infelizmente tomaram a cultura, sim, arvorando-se em donos do que é correcto e bom.
ResponderEliminarComo se andar tapado de tatuagens, perfurado, andrajoso e hirsuto fosse algo de muito elegante e de bom-gosto!
Abraço!
Será que o Sancho Pança vai passar a ser nomeado como Sancho Abdómen????
ResponderEliminarNos tempos que correm, e infelizmente, essa possibilidade (assim como outras) já não parece tão absurda.
ResponderEliminarVivemos num tempo de pós-verdade, que não é de agora. Já Orwell o disse em "1984", ao apresentar um país onde existia o "ministério da verdade", cuja função era alterar continuamente os escritos antigos para estarem sempre de acordo com a verdade oficial. Afinal, ninguém o leu e as tentativas de pós-verdade continuam.
ResponderEliminarAlém das já indicadas, temos as de género. Por causa de uma ínfima minoria de pessoas que "não se sentem bem no seu corpo", acabe-se com o masculino e o feminino: "todes es palavres têm que estar ne génere neutre"! Ainda não começaram a reescrever toda a "literature"?!...
Não costumo comentar decisões editoriais, mas neste caso abri uma exceção.
ResponderEliminarOs livros de Roald Dahl foram "reescritos" para remover linguagem considerada ofensiva. De acordo com a Puffin Books e a família de Roald Dahl, os leitores "sensíveis" fizeram grandes mudanças para garantir que os livros sejam menos ofensivos para alguns leitores.
Entendo perfeitamente que todos queremos garantir que grandes obras de literatura infantil não promovam preconceitos ou estereótipos, mas quando se toma a liberdade de reescrever clássicos como este, não há limite para o que se pode fazer... Primeiro, uma ou duas palavras são alteradas, depois frases inteiras e ideias, ameaçando a integridade do trabalho original.
A literatura quase sempre é ofensiva para alguém (com base na religião, sexo, idade, condição socioeconómica, etc.); não editar obras de literatura permite-nos discutir as questões que os livros colocam, em vez de tentar varrê-las para debaixo do tapete como se nunca tivessem existido.
Ajudamos melhor os nossos filhos ao expô-los a toda a gama de comportamentos humanos; a literatura pode ser uma ferramenta tão poderosa para refletir, desafiar e debater normas e valores!
Estou convencida de que um prefácio com fundo histórico e cultural seria melhor. Pais e professores poderiam ler e comentar o livro com leitores mais jovens. E espero sinceramente que essa tendência páre. Se não, quais autores que se seguirão: Shakespeare, Dickens, Mark Twain, Lewis Carroll?