Excerto da Quinzena

[…]  a ocasião parecia assemelhar‑se ao «dar uma vista de olhos» que antecede um leilão muito publicitado e que entusiasma ou refreia, consoante os casos, o sonho de aquisição. O sonho de aquisição em Weatherend era mais do que improvável e, atendendo a isso, John Marcher deu por si tão desconcertado pela presença dos que sabiam demasiado como pela dos que não sabiam absolutamente nada. A sensação de peso que lhe causava toda a poesia e a história que impregnavam aqueles salões levaram‑no a afastar‑se para poder senti‑las de forma adequada, embora este impulso não se assemelhasse em nada à sofreguidão de alguns dos seus companheiros, que mais pareciam cães a farejar um aparador. Isto levou‑o rapidamente numa direção que não poderia, de forma alguma, ter previsto. Em resumo, levou‑o, no decurso daquela tarde de outubro, ao encontro de May Bartram, cujo rosto, uma evocação que não era ainda uma memória, uma vez que tinham ficado muito longe um do outro na enorme mesa do almoço, começara por perturbá‑lo vagamente de uma forma bastante agradável. Atingia‑o como se fosse a continuação de algo de que perdera o início. Ele conhecia aquele rosto, e acolhia‑o por enquanto com prazer, como se fosse a continuação de qualquer coisa, mas não sabia o que ele continuava, o que se tornava tão mais interessante ou divertido quanto pressentia igualmente – e sem qualquer sinal da parte dela – que a jovem não perdera o fio dessa meada. Não o perdera, porém não lho entregaria, percebeu, sem que ele avançasse primeiro a mão para o agarrar; e percebeu várias outras coisas, coisas bastante estranhas à luz do facto de que, quando o acaso os levou, no meio daquele grupo, a encontrarem‑se cara a cara, ele se debatia ainda com a ideia de que qualquer contacto anterior entre ambos não teria tido importância de maior. […]


Henry James, A Fera na Selva, trad. Ana Maria Pereirinha, Publicações Dom Quixote


 

Comentários

  1. Artigo 69.º
    Infância
    1. As crianças têm direito à proteção da sociedade e do Estado, com vista ao seu desenvolvimento integral, especialmente contra todas as formas de abandono, de discriminação e de opressão e contra o exercício abusivo da autoridade na família e nas demais instituições.
    2. O Estado assegura especial proteção às crianças órfãs, abandonadas ou por qualquer forma privadas de um ambiente familiar normal.
    3. É proibido, nos termos da lei, o trabalho de menores em idade escolar.

    Constituição da República Portuguesa (parlamento.pt)

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  2. Do nosso Extraordinário José Cipriano Catarino, trago aqui um excerto do que ando a ler "Gilvaz, o homem das cicatrizes".

    Ainda longe de Galegos já cheirava a papeis queimados e molhados pela chuva da noite. A povoação estava deserta, as gentes refugiadas em casa, ou a dormir, cansadas dos desacatos da véspera, ou receosas de represálias das autoridades. Em frente à recebedoria vandalizada, porta arrebentada, janelas quebradas, estavam os resquícios de enorme fogueira apagada pela chuva da noite, de onde o vento arrancava restos carbonizados de escrituras, certidões, registos de nascimento e de óbito e espalhava-os pelas ruas, colava-os às casas, às cancelas dos quintais, às árvores.
    — Andou por aqui o diabo à solta, comentou João Pereira, que, por mais que prometesse o contrário, seguia o jornalista como se fosse a sua sombra. Perdida a mulher em favor do missionário, era a Adolfo que se colava carente, sempre com objecções, recalcitrante, medroso. Um empecilho, pensava e dizia-lho Adolfo, embora a companhia lhe soubesse bem — mas negava-o.
    — Não foi o diabo, tornou Adolfo, mas a mão de Deus, na pessoa do missionário e das seguidoras. Da sua mulher...
    O jornaleiro escandaliza-se com a blasfémia. Tanta destruição, tanta malvadez, só podia ser obra do maligno. Como fariam no futuro prova em tribunal as gentes pobres de que eram suas as courelas, as casas, sem registo que as defendesse de usurpação por parte dos ricos, que sempre podem arrolar quantas testemunhas quiserem, comprar juízes, para se apropriarem do que até então fora alheio? E os que viveram e morreram, sem papéis a atestar que entraram e saíram deste mundo, era como se nunca tivessem existido. E os descendentes, como se legitimariam por herdeiros se precisassem de o fazer em demanda no tribunal?
    — Ah, Sr. Dr., nem sabem o mal que fizeram!
    Cala-se o jornalista, que há muito desistiu de catequizar o jornaleiro, apegado à propriedade como fruto à árvore apesar da insignificância do que tem de seu. Cala-se, mas não lhe desagrada o sucedido, primeiro são notícias quentes — ainda fumegantes — para o seu jornal, depois porque é assim que se construirá o mundo novo: sobre os resquícios ardidos do velho, a começar pelas provas da posse da propriedade.
    — Onde será o próximo motim?, pergunta, sem esperar resposta. Não na Póvoa, que está lá a tropa. Voltemos à albergaria e à tarde vou a Fonte Arcada para entrevistar a Maria Angelina, dita da Fonte.

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  3. Para suportar o tédio da existência, temos todos de viver pequenas loucuras.
    Marcel Proust - acabado de ler à entrada de uma loja de vinhos e petiscos em Évora

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  4. Para supoortar o tédio da existéncia, temos todos de viver pequenas loucuras.
    Marcel Proust - acabado de ler à entrada de uma loja de vinhos e petiscos em Évora

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  5. Um poema de Jorge de Sena:

    Súplica Final, in Poesia III (Peregrinato ad loca infecta - 1969), Obras de Jorge de Sena, Edições 70, Lisboa, 1989, pp.49-50

    Senhor: não peço mais que silêncio,
    o silêncio das noites de planície como enevoadas águas,
    o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as pedras
    se afiam na friagem que é azul-celeste,
    o silêncio do sol encarquilhando as folhas,
    e o vento na areia depois de ter passado,
    o silêncio das ondas ao longe espumejando tranquilas,
    o silêncio das mãos e o dos olhos,
    e o das aves negras que pairam nas alturas
    de um céu silencioso e límpido. Não peço
    mais que silêncio. O silêncio das ideias que deslizam
    no tecto escorregadio da memória silente.
    E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros
    a preto e branco imagens desejadas
    que não pensei que desejava e esqueço
    ao querer lembrá-las. E o silêncio
    dos sexos que se possuem sem uma palavra.
    E o do amor também, tão silencioso esse,
    que não sei quem amo.

    Não peço mais. Afasta
    de mim o estrondo: não o das cidades,
    ou dos homens, das águas, do que estala
    na memória ou penumbra das salas desertas.
    Afasta de mim o estrondo com que a vida
    se acabará contigo, num rasgar de súbito
    em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo
    em que não ouvirei mais nada. O estrondo
    em que não mexerei um dedo. O estrondo
    em que serei desfeito. O estrondo
    em que de olhos abertos
    alguém mos abrirá.

    Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo,
    o silêncio dos astros, o silêncio das coisas
    que outros homens fizeram, e o das coisas
    que eu próprio fiz. E o teu silêncio
    de senhor que foi. Não peço mais.
    Não é nada o que peço. Dá-me
    o silêncio. Dá-me o que não fui:
    silêncio (porque calei tanto):
    o que não sou (pois que calo tanto):
    o que hei-de ser (já que falar não adianta):
    silêncio.
    Senhor: não peço mais.

    Assis, 23/6/1961

    Manuel Dias da Silva

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