Férias grandes

Agora, que vêm aí, para a maioria das pessoas, as desejadas férias (infelizmente, já não as grandes, que duravam quase quatro meses e davam para tudo, até para desejar o regresso às aulas), já estou a planear as minhas leituras. Não me lembro, porém, de os professores me mandarem ler livros ou fazer trabalhos nas férias quando era pequena, porque, na verdade, férias tinham de ser um tempo para brincar e descansar, mesmo que para algumas crianças ler fosse também uma brincadeira muito apreciada. Recordo-me de alguns livros que li nas férias em miúda (oh, como chorei com O Meu Pé de Laranja Lima, lido em Agosto em São Pedro do Estoril aos nove ou dez anos); mas, para dizer a verdade, além da praia de manhã e de irmos para o pinhal à tarde, onde as mães conversavam ou faziam crochet sentadas em cadeiras de lona e nós jogávamos às escondidas e apanhávamos amoras das silvas, do que gostava mesmo era de andar de bicicleta, de pescar rãs num pântano perto de casa, de explorar uns baldios, de dar saltos das pranchas na piscina, enfim, de actividades ao ar livre que implicavam não parar quieta. Por isso, achei muita graça um dia destes a alguém que partilhou, contente, os trabalhos que a professora do filho mandou para férias. Partilho-os convosco. Podem ser um bocado melosos, não digo que não. Mesmo assim, abençoada professora.


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Comentários

  1. E depois havia as férias daqueles que não conheciam o mar, nem sonhavam o que seria uma piscina (uma piscina? o que é isso) e que nas férias da escola iam trabalhar para compôr o ordenado do pai e, claro, aqui pode dizer -se, não tinham tempo para ler (nem os livros da carrinha da Gulbenkian).
    As férias destas crianças nunca as vi retratadas na escrita (que é comum ler em várias publicações nesta altura do ano) da tal gente que rumava a banhos e levava a criada para tratar dos meninos (a criada era da idade deles) que assim lhe davam tempo para ler, para nadar, para rir etc etc...gente que nesta altura do Verão recorda essas férias da infância.

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  2. António Luiz Pacheco19 de julho de 2022 às 04:20

    Julgo que não seja já muito comum uma professora ter esta lembrança e propôr aos alunos tal programa, ainda que meloso porém oportuno e de louvar.

    Na primária não me recordo, mas no liceu levava uma pequena lista de livros que deveria ler, para as disciplinas de português, francês e inglês. No início do ano teria de fazer resumos e havia trabalhos, chamadas ou pontos sobre eles. Pelo menos no liceu onde andei, era prática comum. Por vezes o livro em si, era substituído pela "Selecta Literária", que aliás sempre achei muitíssimo útil pois descobri através delas muitos autores e obras que depois tinha a curiosidade de ir ler.
    A leitura fazia parte das minhas férias infantis e juvenis, nem era preciso obrigar pois era como se aproveitavam as horas de calor. Sim naquele tempo já fazia calor, não havia era ondas de calor, havia o Verão e no Verão faz calor, como se sabia, sem ser preciso a Protecção Civil e ministros dizerem isso às pessoas, nem como se defenderem...
    Grande companhia e prazer de férias era ler o dia todo se me apetecesse, devorando o livro que me empolgasse, de manhã cedo e pela tardinha ia aos pássaros, depois podia ler até me fartar! Felizmente havia lá em casa muito por onde escolher, de todo o tipo.
    Depois de entrar nos júniores, a coisa fiou mais fino, pois fiel ao princípio de que quem manda tem de saber fazer, o meu pai punha-me a trabalhar no campo ao lado do pessoal. Sei bem o que é carregar um carro de fardos de palha ou caixas de fruta debaixo do Sol!
    O cansaço ao final do dia, era compensado com um banho no tanque da rega, enquanto o pessoal ia para casa tratar da sua horta e dos animais, que eu não tinha de ir "caldeirar" para a ceia. Depois ainda se lia ao serão, eventualmente com o rádio ligado n'"O que quer ouvirr" (programa do saudoso Matos Maia). Mas a alvorada era cedo na mesma.
    Os meus colegas e amigos, do liceu de Oeiras iam de férias com os pais, para as praias, os vizinhos das outras quintas e nós, nem por isso. A minha irmã mais velha ficava-se pelos bilros e pela prancheta do desenho, pintava as letras no muro da quinta, ajudava a caiar, nas compotas, as penduras e as conservas.
    Juntávamo-nos os vizinhos nessas tardes depois de acabar a labuta, para o banho nos tanques, ouvir discos e até namoriscar.
    Eram outros tempos, parece que noutro planeta, ou algo já vago como uma espécie de filme que tenha visto há muitos anos.
    No entanto, de tudo, sempre sobressaíram os livros. Mais do que memórias ou saudades ficaram os livros, que ainda lá estão, arrumados nas suas estantes, aumentados com os novos colegas que fui comprando ao longo dos anos.

    Saudações nostálgicas cá da Cidade Morena.

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  3. Cláudia da Silva Tomazi19 de julho de 2022 às 06:00

    Bom dia. As minhas férias sempre foram iluminadas. Meu rabugento pai vivia declarando-me, prometendo-me quando chegasse o meio do ano "as férias" viajaríamos. Ele queria me levar para conhecer ou seja, apresentaria-me no internato em Rio Negrinho.Todo ano a mesma ladainha; queriam me internar nas freiras; nem as surras resolviam meu insuportável costume. Segundo ele ficar em "leque e bandorra" nas árvores, pescar ou montar as corridas de cavalo o desespero de minha mãe. Oh coitada, queria me ver brincando com bonecas. Sei lá, bem melhor um laboratório. O tempo passava a língua graçava e a promessa de papai esmorecia, ora. Nas férias trancava-me lera tudo pela frente e ninguém me arrancara os livros.

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  4. Entre tarefas que me atribuiam nos trabalhos agrícolas lembro-me de ter devorado três livros num verão, de que nunca mais me esqueci: Uma Família Inglesa, A Morgadinha dos Canaviais, Eusébio Macário/A Corja. Boas lembranças, não só dos livros como dos locais onde os li.

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  5. Há sempre tempo para ler, mesmo quando se trabalha. Se essas outras férias de que fala não são referidas na escrita, é porque quem as viveu não as partilha por escrito. Isso obriga todas as outras pessoas a se coibirem de falar das suas férias de infância?
    Há de facto vidas mais fáceis do que outras, férias mais ociosas do que outras, pessoas com mais dinheiro do que outras, mas também há pessoas com mais ambição, com mais capacidade, e com mais curiosidade do que outras. Como tudo na vida. Quem tem boas memórias de infância, gosta de as lembrar e partilhar. E há muita gente que gosta de as ler. E isso é uma coisa boa. Triste é pensar-se que quem teve mais e/ou melhor, deve ficar calado para não ofender quem teve menos e/ou pior. E que o critério para apurar uns e outros, seja apenas o dinheiro (que nem sempre é de berço, note-se). A inveja (sobretudo da felicidade alheia) é dos piores defeitos do mundo, e a difamação ressentida (ia dizer castração) contra os mais felizes, ou os mais criativos, ou simplesmente os mais realizados, se tiverem o azar de serem "grandes aproveitadores", apenas a ponta do iceberg deste país eternamente atrasado e que, assim, dificilmente se desenvolverá no bom sentido.
    Filipa

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  6. António Luiz Pacheco19 de julho de 2022 às 07:59

    Ó Cláudia, explica lá o significado da expressão paterna de ficar em "leque e bandorra" nas árvores.
    Nunca tal tinha ouvido!!!!

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  7. Cláudia da Silva Tomazi19 de julho de 2022 às 08:18

    Ah, quebrava os galhos e construía cabana.

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  8. António Luiz Pacheco19 de julho de 2022 às 09:05

    Ahahahah!

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  9. Cláudia da Silva Tomazi19 de julho de 2022 às 09:42

    Certamente meu pai rereferia-se a ociosidade do tempo com "leque e bandorra". Aliás, o correto é "bandarra" e apesar de seguir aprontando muitas brincadeiras nem pensava em corrigir meu pai. Até hoje, entrado na idade quando me chama de estremecer o chão (porque não mudou o tom) vou às pressas atendê-lo.

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  10. Cláudia da Silva Tomazi19 de julho de 2022 às 10:01

    É para se ter lhe orgulho, esperança e principalmente honra, em compor o salário de pai e mãe, avó ou avô. Não é motivo de vergonha ou revolta. Há algo mais digno para um filho ou filha em ajudar os pais?! A minha mãe foi paupérrima e tinha mais onze irmãos, e o meu pai na década de setenta construiu uma casa para minha avó. Se não fosse a generosidade de meu pai com meus avós, descendentes germânicos e com a filharada não teriam casa própria, principalmente pela discriminação do pós-guerra no Brasil.

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