Excerto da Quinzena

«Diz ela que o mundo nem sempre foi assim. Noutros tempos, a avó corria à beira do rio com um pau de vime na mão a espantar os espíritos dos mortos e batia nas pedras e na água como se sacudisse os males da Terra. Tecia nos lábios uma ladainha, uma canção que se misturava na corrente e na espuma dos rápidos.


Diz ela que o mundo era diferente: as árvores frutavam-se de forma espontânea, como se tivessem vida própria, e ninguém as regava e podava. Os muros enchiam-se de musgos, campainhas e pipilros, brotavam cogumelos de todas as espécies em todos os cantos e era possível ler nas rugas e nas entranhas dos troncos o destino dos viventes.


Cada um sabia quem eram os outros e cada qual conhecia todos e mais do que a eles, os pais e avós, às vezes os bisas e tudo assim, mesmo na linha colateral, ou seja, primos e tios e por diante. Ainda és prima do Caneco diziam-lhe; e era, numa distância que se perdera em várias gerações de nascimentos e mortes sucessivas, mas ao vê-la passar sentiam essa ternura que habitava algures num canto da sua genealogia.»


António Tavares, O Coro dos Defuntos

Comentários

  1. Cláudia da Silva Tomazi22 de julho de 2022 às 03:39

    Germinal

    "Em contínua comunicação com o mundo de espectros dos deuses, nós mesmos quase nos convertendo em espectros. Jaz em todos nós algo horroroso, pesado, que carrega nosso espírito e o atrai aos lugares misteriosos de sacrifício.
    A tradição de servidão incrusta-se em nosso sangue como um veneno oculto, nutre-se constantemente de nossa força vital e nos faz o mundo como numa caótica embriaguez de ópio. Ibsen reconheceu o ponto frágil de nosso intelecto quando pôs na bôca da senhora Alvig estas palagras: "Não nos rodeia somente o que herdamos do pai e da mãe. Também todos os conceitos velhos e mortos imagináveis e todos os tipos de crenças mortas e assim sucessivamente. Não vivem em nós, mas apesar de tudo estão em nosso sangue e não podemos ficar livres. Se tomo um jornal na mão e leio, passa-me algo assim como se visse espectros. Deve ser tão numerosos, creio eu, como areia do mar. E, além disso, todos somos tão míseros morcegos, uns como os outros!..."

    Rodolfo Rocker

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  2. Ó Cláudia, quando titulas GERMINAL, tem alguma coisa a ver com o Emile ZOLA?

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  3. Cláudia da Silva Tomazi22 de julho de 2022 às 04:36

    Interessante associação, o título do romance de Zola. Não creio tratar-se deste "GERMINAL". Rudolf é alemão, embora crítico literário este excerto tirado de outro livro.

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  4. António Luiz Pacheco22 de julho de 2022 às 04:55

    SE bem entendi, germinal neste caso, aliás como no referido romance de Zola, é mesmo no sentido de germinar, portanto de começo.
    Retive esta frase que me impressionou e faz sentido:
    - "Jaz em todos nós algo horroroso, pesado, que carrega nosso espírito e o atrai aos lugares misteriosos de sacrifício".

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  5. O fracasso da poesia em nos proporcionar aquilo que ofereceu a tantas gerações de antepassados. A poesia não nos está a prestar os seus serviços com a generosidade com que a eles os serviu. A grande forma de expressão, que tanta energia e tanto génio canalizou, parece ter-se estreitado ou desviado.
    [...] para a nossa geração e para a geração seguinte, o grito lírico de êxtase ou de desespero, tão intenso, pessoal e limitado, não é suficiente. O espírito está repleto de emoções monstruosas, híbridas, incontroláveis. [...] a capacidade do espírito humano é ilimitada; a vida é infinitamente bela mas repulsiva; o nosso próximo é um ser adorável mas repugnante; a ciência e a religião entre si destruiram a fé; todos os laços de união parecem quebrados e, contudo, alguma lei deve existir - é nesta atmosfera de dúvida e de conflito que os escritores têm agora de criar, e a fina textura de um poema lírico não se encontra mais apta a encerrar um tal ponto de vista do que uma folha de roseira a envolver a rugosa imensidão de uma rocha.
    Virginia Woolf - A Estreita Ponte da Arte, 14 AGO 1927, in O Momento Total, recolha de ensaios com organização de Luísa Rodrigues Flora

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  6. A princípio, pois, contou ele, não entendeu o que aquilo era, o que é compreensível (quantas vezes acabamos nós por concluir que os fantasmas que pensávamos existirem na natureza se encontram afinal dentro de nós!). À medida que a estrada os aproximava, percebeu que o que à distância parecera um corpo só, era afinal uma palhota comum, modesta, com paredes de barro e cobertura de capim, tendo atrás de si uma grande máquina agrícola, uma velha debulhadora auto-combinada dos tempos do socialismo. Era a junção dos dois - palhota e máquina - numa mesma silhueta recortada contra o céu, na planície, que, conferia ao conjunto a forma um pouco grotesca, em todo o caso extraordinária. Ocorreu-lhe que quem construíra a palhota procurara a protecção conferida pela máquina.
    "Protecção em relação aos ventos ou em relação aos espíritos?", perguntei.

    museu da revolução - João Paulo Borges Coelho

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