Excerto da Quinzena

Aconteceu muitas vezes a pintura vir solicitar a minha escrita. Se numa tarde longínqua de 1965 eu não tivesse entrado no Prado e não tivesse ficado cativo perante Las Meninas de Velázquez, incapaz de abandonar a sala até ao fecho do museu, nunca teria escrito O Jogo do Reverso. A mesma coisa vale para a forte sensação que experimentei em criança diante dos frescos do convento de S. Marcos em Florença, revisitados frequentemente em adulto, e que um belo dia regressou com prepotência, desembocando nas páginas de Os Voláteis de Fra Angelico. Mas também algumas páginas de Tristano Morre não existiriam sem O Cão Sepultado na Areia, de Goya. Da imagem para a voz o caminho pode ser breve, se os sentidos responderem. A retina comunica com o tímpano e «fala» ao ouvido de quem olha; e, para quem escreve, a palavra escrita é sonora: ouve‑a primeiro na cabeça. Vista, ouvido, voz, palavra. Mas neste percurso o fluxo não é em sentido único, a corrente é alternada, volta a partir de onde chegou, regressa ao ponto de partida. E a palavra, ao regressar, traz consigo outras imagens que antes não existiam: inventou‑as ela. Assim acontece em muitos destes contos. Se a imagem veio desencadear a escrita, a escrita por sua vez conduziu essa imagem para outro lugar, para aquele algures hipotético que o pintor não pintou. A estória desencadeada pelo visível agarrou o «Aquilo‑que‑se‑vê» para vaguear à sua vontade no território que o artista nos omitiu, o que teria podido pintar ou fotografar mas que suprimiu. «A alma imagina aquilo que não vê», diz Leopardi. O território da escrita é a imaginação que vai além da imagem; é a estória das figuras mas também o seu reverso e a sua multiplicação, a narração do desconhecido que as envolve.


Antonio Tabucchi, Estórias com Figuras, Nota do Autor

Comentários

  1. A mim aconteceu-me uma coisa semelhante, mas não tenho veia de escritor; aqui há quase 40 anos numa visita a Roma e à Igreja de S. Luís dos Franceses, quando me deparo, na Capela Contarelli, com os quadros de Caravaggio fiquei absolutamente siderado e apanhado por aqueles três quadros: O Chamamento de São Mateus, Mateus e o Anjo e o Martírio de São Mateus; nunca tinha visto nada igual. a partir daí aquele pintor do barroco passou a ser até hoje o meu favorito e tenho imensa literatura sobre o mesmo, incluindo As Obras Completas de Sebastian Schutze da Taschen e Caravaggio par le Détail, de Stefano Zuffi.

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  2. Proponho-lhe então que leia o romance ADORAÇÃO, de Cristina Drios! Não perca, é sobre os anos em que o pintor esteve foragido na Sicília aguardando indulto papal.

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  3. Esse e um grande romance de Cristina Drios!Leia tambem "Os olhos de Tiresias".

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  4. António Luiz Pacheco8 de julho de 2022 às 04:02

    Não sou capaz de citar um caso especial, pois são tantos e em tantos lugares os quadros que me tocaram fundo!
    Se sou amante da leitura e da escrita, sou-o igualmente da pintura, que com a música compõem uma tríade indissociável. Se eu fosse rico, teria certamente uma colecção de pintura, até porque conheço pessoalmente alguns pintores de cuja obra gosto.
    Aprecio sobretudo aguarelas e os naturalistas são os meus preferidos!
    Há pintores portugueses muito bons e pouco conhecidos, ou divulgados.
    Aqui em Benguela há um grupo de jovens que pintam muito bem, autodidatas note-se. Já tenho comprado alguns quadros, até para oferecer.

    Saudações coloridas, cá da Cidade Morena

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  5. Muito obrigado pela dica mas já li, não deixei escapar esse. bem como Caravaggio de Christopher Peachment e A Cor do Sol - Os Mistérios de Caravaggio de Andrea Camilleri.

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  6. [Os orientais] teem um sorriso cruel que cai de repente numa tristeza da qual parece não poderem emergir.
    Marguerite Duras - Emily L., tradução José Carlos González

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  7. Cláudia da Silva Tomazi8 de julho de 2022 às 08:42

    A pergunta que me faço, e isto é que verdadeiramente mais me interessa, é a atenção obsessiva prestada pelos analistas de texto a tão escorregadia entidade, propiciadora, sem dúvida, essa atenção de suculentas e gratificantes especulações teóricas, não estará contribuindo para a redução do Autor e do seu pensamento a um papel de perigosa secundarização na compreensão complexa da obra.

    João Marques Lopes, Saramago Biografia

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