Bienal de São Paulo
Uma coisa é ouvir falar, outra é ver. Embora já tenha visitado muitos Brasis, não ia a São Paulo desde 1976. Era então uma adolescente em visita a amigos, e a passagem foi curta, a caminho de Santos. Agora, tão-pouco tive tempo para calcorrear a cidade, porque ia em trabalho, e do Museu da Língua Portuguesa (que era mesmo o que queria ter visto) conheci apenas o director, que moderou a mesa da poesia, em que participei com Eucanãa Ferraz. Uma pena. O recinto onde se passava a Bienal e todas as actividades relacionadas com Portugal era longe do hotel e tínhamos de aproveitar os transfers de cá para lá a horas certas, pois não era boa ideia apanhar táxi ou tentar transporte alternativo, à conta dos perigos que isso representa. No meio das filas de trânsito infindáveis, às vezes em avenidas com seis faixas, há homens e mulheres vendendo de tudo - e, se forem atropelados por uma dessas loucas motos que andam a altas velocidades, provavelmente ficarão ali muito tempo a sangrar e alguns morrerão. Há também tendas em todos os jardins e ruas, onde vivem os que não têm casa, e são milhões; as diferenças entre classes são bem mais acentuadas do que eram em 1976, apesar de já então serem muito marcadas. Mas, apesar de um clima de permanente insegurança, apesar de andarmos sempre agarrados à carteira e ao telemóvel, de tremermos de medo quando o motorista de táxi, para fugir a um acidente e nos deixar a horas no aeroporto, passa por zonas onde sabemos que, num semáforo, é bem provável que alguém quebre o vidro para levar o que puder (e nos matar, se for preciso), a verdade é que a Bienal de São Paulo estava cheia de jovens a comprarem livros, o que é um sinal positivo que não vemos em Portugal. Não sei que livros seriam, é certo, mas a Secretaria da Educação deu-lhes dinheiro para isso e até pode ser que alguns tenham acertado em alguma coisa que contribua para a sua formação. Enfim, foi bom lá ir, foi muito duro ver a violência e a pobreza em directo, mas estou de volta ao quinto país mais seguro do mundo, onde não é preciso respirar fundo quando se chega, incólume, ao outro lado da rua, mas estamos velhos e os nossos jovens nãoo gostam lá muito de livros.
Bom dia com alegria
ResponderEliminar"mas estamos velhos e os nossos jovens nao gostam lá muito de livros"
Trabalhemos então para uma imensa minoria...
Boas leituras
cp
Excelente texto, que me transmitiu com clareza por um lado o estado catastrófico dessa cidade imensa, por outro lado a esperança de que a juventude possa alterar o futuro!
ResponderEliminarHá 13 anos que não vou a São Paulo e pela sua crónica depreendo que as coisa pioraram muito, pois nesse ano ainda me passeei sozinha pelas ruas junto da Sé e do mercado, sem ter sentido qualquer ameaça...
Triste, a evolução do mundo no que toca à pobreza e à violência!
Obrigada
Bela crónica nos trouxe, sim senhora!
ResponderEliminarCuriosa a observação que faz sobre os jovens... interessante terem-lhes dado o dinheiro para comprar livros, coisa que em Portugal jamais aconteceria, bem sabemos e infelizmente, pois a cultura não é valorizada e menos promovida. Enfim, compete a nós mesmos tratar dela, já que nunca teremos governo que a apoie.
Ainda bem que regressou, continuemos então neste espaço Extraordinário a falar daquilo de que gostamos, dos livros e das leituras!
Vi a sua foto junto ao cartaz do Itamar.
Saudações cá da Cidade Morena.
Bom dia. Estou feliz pela participação literária e vitrine portuguesa na Bienal de São Paulo a honra o presidente Marcelo leitor Magister e principalmente em visita e trabalho a Editora e escritora Maria do Rosário Pedreira. Com relação a "pressão" na estadia claramente pela aproximação e transitar nas ruas da capital paulista é uma assustadora e delicada aventura; tudo em Sampa é superlativo, principalmente o "risco" para estrangeiros.
ResponderEliminarBem, sei e compartilho vossa aflição. Por minha vez, conheço São Paulo desde criança e dos treze aos vinte, mensalmente no ramo de confecção em viagens de bate-volta para o comércio por exemplo na 25 de Março. E, sendo a "meca" dos negócios no Brasil, São Paulo compensa. Há etapas que se contradizem porque a cada amanhecer está (mesma) cidade renova-ser embala sua hospitalidade, seu magnetismo.
Quer vela, quer vento, qualquer casca de noz no mar tem seus desafios. Em São Paulo a força finenceira ou número populacional traduzem o agito a efervescência, nem tão distante enquanto pauco histórico fazem diferença no impacto social e cultura brasileira. Aquecer a fragilidade das pessoas é grau importante tanto quanto reactivo. Aqueduto, o paulistano pulveriza grande parte da literatura brasileira. Por isso, lhe graça a literatura formal e educacional onde as regras por alcançar a torrente se lhe exige acertada resposta. Obviamente e acredito que é de todo o interesse à formação, sociabilização, o argumento. Contudo o nosso baiano o escritor Itamar com o livro Torto Arado, redireciona este sentido prático a palavra, ler; com sensibilidade e humanismo se lhe tornou a força de nossas letras. Razão simples o ser Arte, tão próxima e necessária nestes dias de medo. Parabéns à todos os profissionais envolvidos na Bienal ♡
Estava esperançoso quanto á reação à literatura portuguesa no Brasil e com muita expetativa sobre o impacto da sua poesia (creio que também fazia parte do programa). Confesso que fiquei embatucado, não esperava uma coisa assim. Deduzo das palavras de Cláudia que, apesar de tudo isso, a atmosfera frenética da Finança é suficiente para atrair milhões de pessoas. E agora percebo a felicidade que muitos brasileiros dizem viver em Portugal em virtude do seu ambiente de segurança.
ResponderEliminarSeguros - muitos, leitores - poucos, não se pode ter tudo.
pauto *
ResponderEliminarSei lá, se falhei não mencionar a poesia que me é maravilhosa. Seria ótimo concordamos.Mas, neste caso eu vos devo agradecer questionar-me ou, vos me agradecer a tentativa de imparcialidade. As vezes, corremos o risco de confundir-nos com aquela horrorosa expressão "lambe botas". Em que ponto se chega, quando portugueses fazem este modelo de medo. Ora, cada vez mais falta humilde às pessoas em reconhecerem a genialidade dos outros(as). Abraço
ResponderEliminarÉ verdade, os jovens não lêem ou lêem pouco ou nada; por mim falo, os meus filhos não lêem; acho que as novas tecnologias mataram a leitura nas camadas mais jovens; é vê-los agarrados aos computadores, telemóveis, etc. todos os dias, Pelas respostas dos ignorantes no concurso Joker ninguém sabe quem foi Camilo, Eça, Torga ou Aquilino! Uma tristeza!
ResponderEliminarO booktube, o instagram e o TikTok estão cheios de jovens portugueses a comprar livros.
ResponderEliminarDe regresso. Ainda bem. Fazia-nos falta.
ResponderEliminarAo lê-la, fez-me recordar a minha experiência em Bogotá, há cerca de vinte anos atrás. A rua estava cheia do que eles chamam os “descartáveis”, pessoas tornadas sombras, pretos de sujidade na pele e nas roupas, que deslizavam pelas ruas a recolher o lixo do qual viviam. Eram descartáveis porque quando morriam, ninguém dava por ela, não faziam falta a ninguém, eram sombras. Este era um lado da Colômbia. Havia muitos outros, mas havia os livros também. E os cinemas. A cultura borbulhava e os jovens estavam metidos nela até ao pescoço. Tantos, tantos livros a serem vendidos no meio da rua. E a mercadoria era tão preciosa que se arriscava o pelo a vender cópias. Culpada me confesso, de ter comprado muitas dessas cópias que me piscaram o olho na rua. E já então, notei tanta diferença na juventude. E ainda não tínhamos chegado à dormência a que chegámos agora. Pergunto-me o que é preciso para acordarmos.
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