Ilustres desconhecidos
Quando um actor vai na rua, tem dificuldade em caminhar incógnito; mas um escritor pode andar por todo o lado à vontade, que praticamente ninguém o reconhece. Paul Auster disse-me uma vez que circulava pelas ruas de Brooklyn, o seu bairro, sem nunca o abordarem, embora na Europa já muitos leitores o conhecessem. Um dia, em Serralves, uma rapariga parou-me diante de uma pintura para me dizer que um livro meu a tinha ajudado a superar a morte do companheiro, e eu fiquei tão parva que nem queria acreditar. Mas recentemente aconteceu-me uma coisa ainda mais engraçada: parei num semáforo no caminho para a LeYa e fiquei ao lado de um automóvel conduzido por uma mulher que tinha um ar mesmo desempoeirado. Ela fez sinal de que queria dizer-me qualquer coisa, e eu pensei que precisasse de alguma informação sobre a direcção a tomar. Mas não: disse-me que não nos conhecíamos, mas que gostava muito do que eu escrevia e que, na véspera, tinha pensado muito em mim por causa da «tristeza passada a ferro». O sinal ficou verde e só tive tempo de agradecer. A «tristeza passada a ferro» é um verso do meu livro mais recente, de um poema que fala de uma menina a quem fizeram mal. Caramba, nunca me tinha acontecido alguém citar um verso meu no meio do trânsito... Pensei que, como Auster em Brooklyn, aqui eu era uma ilustre desconhecida.
Bom dia! Que coincidência, ontem à noite estive a reler o seu último livro de poesia, de uma ponta à outra. Também gosto muito, e a "tristeza passada a ferro" também me marcou especialmente, entre outros. Como o da mãe que já não a vê, que podia ser a minha mãe. Só não sei se teria coragem de a interpelar num semáforo.
ResponderEliminarFilipa
Ou como as estradas da vida têm caminhos cognoscíveis ...
ResponderEliminarUltimamente e com o advento das redes sociais e respectivas fotografias, muitas pessoas me reconhecem e vêm ao meu encontro, vêm falar comigo tipo « a senhora não me conhece, mas eu conheço-a muito bem, sou fulano ou fulana tal e tal...» Esta situação acontece-me montes de vezes na rua, no centro comercial, no supermercado, em qualquer sítio público. E depois, dirigindo-se ao Zé « Ah, é o Zé não é? » ahahahah !
ResponderEliminarBom, mas isto só se deve, creio eu, às redes sociais tipo Instagram, Facebook.
Tem graça, é uma atitude simpática e não magoa ninguém, pelo contrário.
Cristina Carvalho :) :)
Bom, imagine se levasse consigo o já igualmente famoso "Manuel das Almôndegas", ou mesmo o Antonino Pio ou o LUCA, isso então é que não passava desapercebida de maneira nenhuma!
ResponderEliminarAhahahah!
Vergílio Ferreira disse um dia que durante anos de escritor ninguém o reconheceu na rua, no restaurante, etc. mas logo que desempenhou um papel no filme Manhã Submersa, extraído do livro de sua própria autoria, várias pessoas reconheceram-no e vieram falar-lhe.
ResponderEliminarCreio que, e não devo estar muito enganado mas há aqui muita gente do Mundo da Edição que me poderá desmentir ou corroborar, a maioria dos escritores é pouco social no sentido de gostar de protagonismo, de ser famoso e reconhecido na rua. São normalmente ensimesmados e pouco comunicativos, tenho também a impressão de que gostam pouco de falar (escrevem!) e não se interessam muito por conversar no sentido de debater, justificar, contra-argumentar... gostam menos de ser abordados, incomodados pelo público e procuram mesmo o anonimato. Porém gostam de ouvir, por razões óbvias pois será ouvindo
ResponderEliminarque reúnem matéria para idealizar.
Haverá excepções, há escritores que são comunicativos e sociais, mas parece-me que não é a tónica, também sei de alguns assim.
Peço desculpa se estou enganado ou alguém se sente ofendido, o que não é o meu objectivo, apenas uma constatação, e, não ser comunicativo nem procurar a notoriedade, não são defeitos!
Saudações comunicadas, cá da Cidade Morena em luto pesado!
Isso só quer dizer que as pessoas não liam o escritor mas viam o filme onde ele aparecia, já o filósofo americano de ascendência espanhola dizia:" O facto de ter nascido é, para o homem, um mau augúrio quanto à imortalidade".
ResponderEliminarEsqueci-me de pôr o nome: George Santayana
ResponderEliminarPosso relatar, já levei (susto) com leitores. Houve um senhor e me pôs à pensar seriamente. Este leitor e sua esposa fizeram uma peregrinação em torno da ilha, a capital do estado catarinense, tema do meu livro "Ilha da Magia". O casal fez a volta na ilha caminhando a intenção (o insite) vislumbrarem o tesouro. Inclusive mais leitores assimilaram a possibilidade desta faceta descrita no resgate histórico ficcional do século XVI. Por minha vez, mantenho-me resevada à respeito da experiência de leitura de cada indivíduo e os lembro ser um livro com personagens inventados. Sim, houve proposta e eu não quis que virasse um filme, talvez por questões desta natureza.
ResponderEliminarEu própria a abordei há uns anos, em Castelo Branco, num encontro de escritores, em que estiveram a Rosa Montero e o José Eduardo Agualusa. Contrariando a minha timidez, aproximei-me de si e perguntei-lhe se podia dar-lhe dois beijinhos. Assim, recebi dois beijinhos e umas palavras simpáticas de uma das "minhas" poetisas!
ResponderEliminarLuísa