O desaparecimento da memória editorial

Quando comecei na edição, as editoras (falo de empresas, não de pessoas) tinham quase todas uma identidade perfeitamente definida. Se pensarmos numa chancela como a & etc. ou a Assírio e Alvim, na Ática, nas Publicações Dom Quixote, na Quetzal desses anos noventa, encontraremos evidentemente projectos muito diferentes, mas com uma unidade interna pautada por escolhas de autores, linhas gráficas próprias (oh, como tinha bom gosto o Rogério Petinga e como eram adoráveis os livrinhos pretos com folhas azul-claras da Estampa), filosofias de publicação claras, modus operandi de conquistar o público realmente típicos. Se até determinada altura foi possível contar a história de uma editora enquanto projecto intelectual, a verdade é que (cá como em todo o mundo), quando a indústria tomou conta do ramo livreiro, os arquivos foram todos para o lixo (o espaço custa dinheiro), os catálogos mudaram de mãos porque muitos dos donos das editoras vendidas preferiram sair e, frequentemente, não ficou ninguém também entre os membros do pessoal mais velho para contar como se conseguiu publicar pela primeira vez o autor x ou y, como era um autor consagrado em início de carreira, que loucuras se cometiam por vezes encomendando capas a pintores ou pondo anúncios de página inteira em semanários... Um artigo muito interessante, ainda que escrito em castelhano, fala do fim desta memória editorial e pode ser lido no link abaixo. Borges dizia que a memória era muito frágil. E tinha razão.


La fuga de la memoria editorial | Letras Libres


 

Comentários

  1. ...irritam-me algumas palavras, mais concretamente, expressões, porque abarcam uma infinitude minimizando sentimentos imensamente concretos... e sabemos como "alguns" sentimentos nos dão vida (ou se misturam, dançam com ela).
    Bem, andam à solta levianamente essas palavras, contornam repetidamente as rotundas dos meus ouvidos... mas sou honesto, da minha bocacoração saem também por vezes como de um frasquinho conta-gotas cuja essência resume afinal o muito que constitui um concentrado. Contradigo-me? Talvez. Acho que desejava essa palavra apenas para mim e para os meus sentimentos demasiado importantes... como quando digo Amo-te sem dizer um "amo-te" como quem pede uma bica. E este blá blá blá para chamar só para mim, e dar a importância ímpar à MINHA soletraçãosentimento de S A U D A D E(s)... desse tempo, dessa gente em gavetas abertas a que chamamos editoras. Quanto ao Sr. Rogério... uma inspiração. Tão bom, o texto de hoje... saudade...

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  2. Perene, ao que parece, só o que for digitalizado.

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    1. António Luiz Pacheco29 de junho de 2021 às 08:27

      Duvido muito! O papel ou a pedra duram mais... é que o digitalizado, alteram, modernizam ou como queiram chamar-lhe lá os sistemas e deixam de poder ser lidos!
      Tenho muita coisa em disquete que não é lida nos modernos sistemas, os CD idem e agora são os cartões e mais não sei o quê!
      Nada como o papel! Lê-se sempre!!!!!!

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  3. Um tema interessante e complexo que despoleta uma série de perguntas ao pensamento: até que ponto a memória editorial será património cultural comum ou acervo privado ? deverá o Estado promover políticas legislativas protectoras ou esse eventual intervencionismo público atentaria contra o domínio privado de livre disposição dos bens incluindo "deitá-los" ao lixo ? ou será que as editoras, como veículo cultural literário, poderão adquir de per si um estatuto quase público ( ou extra privado ) ?
    Bom motivo para reflectir. Obrigada pelo post.

    AM

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  4. "Quando a indústria tomou conta do ramo livreiro", escreve Maria do Rosário. Acudiu-me logo à memória uma frase de Joseph Conrad num dos seus romances há mais de um século que dizia mais ou menos isto: quando um interesse material se instala na cabeça de uma pessoa ela deixa de existir, passa a veículo desse interesse. Se hoje fosse "dia de excerto" teria que ser rigoroso e ir pesquisar.

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  5. A memória é apenas um lugar de esquecimento.

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    1. Esqueci-me de assinar o comentário
      João Raposo

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    2. António Luiz Pacheco29 de junho de 2021 às 08:29

      Uma imagem bonita... mas inverdadeira!
      A memória é exactamente o não-esquecimento, é o que perdura!
      Que a queiram apagar, modificar, obliterar, etc. é uma coisa, agora esquecê-la, só para quem seja desmemoriado!

      Abraço!

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    3. Sim, a memória é o que perdura, mas não corresponde necessariamente ao que aconteceu. Com ou sem consciência, construímos um lugar para habitar, transformando dores e sombras em algo suportável. Por isso, de alguma forma, a memória é também esquecimento.

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    4. António Luiz Pacheco29 de junho de 2021 às 14:43

      Não confunda memória modificada (mentira, ficção) com esquecimento!
      Do que fala não é esquecimento e nem memória, é memória reconstruída!
      Enfim, penso eu...
      Já que estamos num blog de leituras, lembro o livro do José Eduardo Águalusa, "O vendedor de passados".
      Abraço.

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  6. Há tantas questões para colocar... Mesmo que algumas fiquem ao lado.

    A memória é quase sempre um obstáculo para quem só olha para o amanhã, para o que ainda não existe...

    Às vezes penso que caminhamos para o vazio, com toda esta velocidade com que nos obrigam a "correr", não há ontem, hoje nem amanhã.

    Mas é um negócio cada vez mais estranho. Não percebo, por exemplo, porque se continuam a editar tantos livros, cuja maioria não se irá vender. Qual é interesse disso para o "negócio"? (não estou a falar das editoras que editam livros pré-pagos pelos autores...).

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    1. António Luiz Pacheco29 de junho de 2021 às 08:31

      Compreendo... porém, devemos viver o presente, que é o que se segue a ontem e será seguido pelo amanhã! Prefiro pensar deste modo, olhando para onde tenho os pés, sabendo de onde venho e para onde vou.
      Abraço!

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    2. Mas nós fomos "formatados" assim, António, não conseguimos pensar no amanhã sem olhar, nem que seja de soslaio, para trás...

      Os nossos filhos são diferentes, mesmo que nem sempre o consigamos ver.

      Nós gostamos (muito) de ter memória. :)

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    3. António Luiz Pacheco29 de junho de 2021 às 14:45

      É verdade... de certo modo uma pessoa mede-se pelas suas memórias!
      Creio que é um facto, porém elas não devem impedir de ver o presente... pois só assim se perspectiva o futuro!
      Enfim, grandes frases, lapidares... eheheh!
      Abraço!

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