Bom regresso

Aviso já que ainda estou a meio gás, pois assim que voltei à terra havia tanta coisa à minha espera que ontem tive de almoçar sentada à secretária... E, como sei que não vou conseguir dar conta do recado deste blogue até ao final da semana porque apareceram umas tarefas inesperadas, deixo-vos hoje um post meio apressado, mas pelo menos são boas notícias. Eu, aliás, já me andava a perguntar que seria feito de tão querido e grande escritor e porque decidira ele castigar-nos tanto tempo com a sua ausência... Com os meus botões, cheguei até a pensar que resolvera voltar à Holanda (perdão, aos Países Baixos) e, descontente com o Portugal de hoje, não tencionasse sequer regressar (e, em certa medida, eu percebê-lo-ia). Mais eis que recebo uma bela newsletter da sua editora dizendo que, aos 91 anos, o nosso amado Rentes de Carvalho vai mais uma vez surpreender-nos e desta vez com O País do Solidó, um livro entre o conto e a crónica que terá, de certeza, a sagacidade, a coragem e o humor com que nos habituou sempre que fala de Portugal. Citando o editor: «São histórias reais de gente inventada e histórias inventadas de gente real, mulheres destemidas e homens combativos – mas também capazes de momentos desprezíveis e de atitudes medrosas. Crónicas de um país habitado por um estranho povo: os portugueses.» Sai hoje. Já têm leitura para o fim-de-semana. Que mais querem?

Comentários

  1. Depois de oito dias de estaleiro e um par de semanas de recobro pela frente, eis que dou por uma boa notícia: o regresso de Rentes de Carvalho “às obras”, um dos melhores escritores portugueses da actualidade em minha opinião.
    Como observador atento da sociedade portuguesa e de todas as maldades e bondades que em si encontro, não podia estar mais de acordo com Rentes, relativamente às suas «histórias reais de gente inventada e histórias inventadas de gente real, mulheres destemidas e homens combativos — mas também capazes de momentos desprezíveis e de atitudes medrosas (e, acrescentaria, merdos..) Crónicas de um país habitado por um estranho povo: os portugueses.»
    Um estranho povo, de facto, capaz em simultâneo do melhor e do pior.
    No sossego do “estaleiro público” que habitei nas duas últimas semanas, com os olhos postos nas sondas e a alma voltada a Deus, pude comprovar, entre “ais e uis” envergonhados, essa abertura à simplicidade e autenticidade muito própria de quem sofre e essas qualidades-defeitos do «nosso povo». Um povo tão capaz da nobreza dos cuidadores como da ingratidão e mesquinhez de muito dos seus apoderados; e que uma certa elite nacional desconhece totalmente, no âmago da sua experiente sabedoria tradicional, mesmo se descalçada de uma complexidade estudada. Tudo isto, mesmo se nesse quarto de quatro companheiros de infortúnio, era o único que se comprazia na leitura de um grosso volume da “E-primatur”, o primeiro volume do teatro de Bernardo Santareno, bem como o tantas vezes lido e relido De Profundis, Valsa Lenta”, do Cardoso Pires. Desta experiência de oito dias, sete noites, e enquanto os meus companheiros de infortúnio suportavam o sono abalado e inconstante dos fragilizados, ia debitando na palma do meu telemóvel, durante essas horas noctívagas, o que me sustenta diariamente - e cada vez mais - ao cordão da Vida. Dessas horas “profundas”, de uma dança a solo, sairá uma outra dança lenta das letras, de que vos deixo (aos que amam a escrita) uma passagem em bruto:

    «A condição agora diferente, a pega quase circense onde os corpos se agarram e equilibram, os tripés de onde descaem sacos e sacos de líquidos brancos cerosos, tão idênticos aos fácies brancos e pálidos que escondem ou sublinham a vida. Os comprimidos infinitos, que se depositam nas mãos abertas, como hóstias da vida, numa comunhão inabalável da reconstrução de uma nova química, de um Homem novo, mais forte, mais capaz de todos os sentidos, neste caminhar inefável para um outro patamar, que os mais crentes acreditam da Vida para além da existente e palpável. Fora do quarto, nos corredores de transição, a presteza quase “formicídea” de auxiliares e enfermeiras encartadas, afadigando-se na sua condição de prestadoras e cuidadoras… sim! são estes, os grandes e verdadeiros heróis do momento e de todos os tempos, com muitas “estórias” e ressurreições por contar.»

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco17 de junho de 2021 às 10:33

      Abraço Pedro! Está de torna-viagem!

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    2. António Luiz Pacheco17 de junho de 2021 às 10:39

      Está de torna-viagem... um abraço Pedro!

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  2. António Luiz Pacheco17 de junho de 2021 às 10:40

    https://www.dn.pt/politica/portugal-e-um-pais-inviavel-que-sempre-se-viabilizou-13821321.html

    Nem de propósito... leiam esta entrevista, esclarecida e esclarecedora a quem sabe do que fala e sabe o que diz, de forma isenta.

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  3. António Luiz Pacheco17 de junho de 2021 às 10:43

    Boa notícia, valeu a pena vir aqui dá-la!
    Saúdo o regresso de Rentes de Carvalho de cuja escrita muito gosto, além dos temas e da forma como os aborda e descreve, romanceia ou expõe.
    Melhor notícia, só mesmo se fosse, Rentes de Carvalho e Paulo Moreiras publicam novos romances: "O país do Solidó" , e... "A demanda dos corcundas"?

    Eheheh!
    Saudações cá da Cidade Morena em plena epidemia de malária, tifo e dengue!

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  4. Serão as crónicas do "Correio da Manhã" reunidas ?

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  5. pg. 38- "....Você escreve cartas? É postais? E a uma adolescente ouvi eu que perguntava à mãe: "O que é um postal?"

    Estou precisamente a ler este belíssimo livro. Deliciosa a escrita deste grande escritor português, deste autor vivo e activo que, como diz João Pereira Coutinho na contracapa, é um dos melhores prosadores da língua lusa.

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