Esposas, Servas, Comandantes e Olhos
Ao contrário da maioria dos portugueses (ou da maioria das pessoas em geral, sei lá), tenho uma grande dificuldade em fidelizar-me a séries de TV e fujo das que têm várias temporadas. Nunca vi um episódio da Guerra dos Tronos, devo ter visto um de House of Cards e Casa de Papel, três ou quatro de Segurança Nacional e, se bem que lembro, só vi de fio a pavio Twin Peaks, Sete Palmos de Terra e Downtown Abbey, mas isso foi tudo há séculos. Ouvi falar até à exaustão de História de Uma Serva (que também não vi, embora algumas fotografias divulgadas na Internet e nos jornais fossem esteticamente atraentes), mas resolvi comprar o romance de Margaret Atwood com o mesmo título para perceber melhor do que se trata. Sim, é um distopia a levar a conta sobre, como escrevem na capa, «um futuro assustadoramente possível» em que o fanatismo religioso bane o amor e o sexo se destina à procriação, e as Servas engravidam e dão à luz para as Esposas dos Comandantes, não podendo ter uma vida familiar própria. Uma delas, Defred (este Defred significa que é a Serva «de Fred», ou seja, pertença dele), não consegue porém esquecer o seu passado com Luke, o homem que amou e de quem teve uma filha, que nem sequer sabe se continua viva. A disciplina é rígida, há Olhos em todo o lado (e ainda Guardiães) e até as memórias são proibidas; mas há sempre pequenas rebeliões nas sociedades assim fechadas, mesmo que por vezes elas levem ao enforcamento público ou ao desterro nas Colónias, onde o trabalho é pior do que a morte... Enfim, não é bem o meu tipo de livro, confesso, embora a senhora Atwood tenha bastante imaginação e elegância a narrar; mas, se querem aterrar-se com esta possibilidade de os mais radicais religiosos tomarem conta das coisas (como de resto já está a acontecer no Brasil), leiam-no, antes ou depois de verem a série. Ou de não verem.
Parece quase uma versão feminina do "1984", com os dois pés e as duas mãos no século XXI...
ResponderEliminarTambém vejo cada vez menos séries (e filmes, repetem, repetem, quase sempre os mesmos...).
A televisão precisa de se reinventar, desde a ficção até à informação, passando pelo entretenimento.
Este romance é uma obra-prima, in my humble opinion!
ResponderEliminarComprei-o mas ainda não o li.
EliminarGostei muito do Assassino Cego. :)
Também não vi a série, mas tenho pena.
🌻
Maria (outra)
Não vi a série!
EliminarO livro é muito bom. Vale mesmo a pena.
Esqueci-me de assinar: Maria
EliminarÉ estranha tanta maldade da parte de quem se diz religioso: impedir a afectividade dos outros (único factor que, realmente, confere significância à vida), manieta-los reprodutiva e sexualmente, impedir-lhes a assunção da verdadeira identidade (como aconteceu, durante tantos anos, com os homossexuais). É caso para dizer que o Papa devia ter conhecimento e ler o livro. Por norma, há sempre objectivos escusos por detrás de tanta malevolencia: de corrupção, de ganância, de perversão.
ResponderEliminarAinda bem que no mundo global estas dystopias se vão tornando cada vez mais improváveis.
Beijinhos animados e felizes aqui da anglofonia. Espero que a partir de Outubro ou Novembro já não seja possível ignorarem-nos.
Sandra Neves.
O futuro que nos espera?!...
ResponderEliminarSó Deus sabe...
Bom fim de semana
Abraço
Netos de um deus menor? Quantos Deuses existem que mandam bem mais que os nacionais!
EliminarBom fim de semana.
Sandra Neves
Melhor do que a Maria do Rosário se calhar só mesmo eu que não me lembro de ter visto uma série que seja, nem Twin Peaks, nem Sopranos... (e parece-me que perdi alguma coisa). Outras prioridades ou falta de disponibilidade, não sei dizer.
ResponderEliminarEu também não tinha tempo para as séries mas, com o teletrabalho, passei a ter mais tempo....
EliminarSou fã. Do(s) livro(s) e da série. Mas também de «Sete palmos de terra», a minha série preferida de sempre.
ResponderEliminarAss: Rita, aka Vespinha
EliminarTenho de ver essa!
EliminarAgora estou a ver "Killing Eve". As duas atrizes principais são um espetáculo!
Onde está o nosso Extraordinário de Benguela??!!
ResponderEliminarDesapareceu com um torcicolo. Olhou demasiado para cima.
EliminarA minha distopia literária favorita ilustrando que o sexo masculino é a desgraça deste mundo (violência! sede de poder! prepotência!) é o romance de Doris Lessing "A Fenda". Está lá demonstrado à saciedade que o mundo seria um paraíso se só existissem mulheres. Uma história de antes dos tempos, simbólica, bela e infelizmente realista... transmitida com uma invejável qualidade de linguagem. Nós homens, deixados à vontade, somos "monstros" tal como somos descritos neste livro desta grande romancista.
ResponderEliminar"O mundo seria um paraíso se só existissem mulheres", só num aspecto que me escuso aqui de indicar. Quanto à monstruosidade, está democraticamente distribuida pelos dois sexos, nem seria necessário lembrar Lady Macbeth ou a Cruela dos 101 Dálmatas.
EliminarSe só existissem mulheres??!! Vê-se bem que não conhece a minha "sogra"!!
EliminarHá um ditado, alentejano segundo consta, que diz assim:
Eliminar- As mulheres, se na fosse a falta que fazem, na faziam falta nenhuma!
Sejamos justos: episódios de brutal violência fazem parte da história de todos os povos e não estão "democraticamente distribuída pelos dois sexos". Em alguns casos as mulheres poderão ser instigadoras de violência, como em Macbeth, mas raramente são as mulheres as executantes de violência. As Medeias são exceções na história da humanidade. No romance da Doris Lessing o mundo só é harmonioso enquanto existem só mulheres, daí a minha frase em referência ao livro: "o mundo seria um paraíso se só existissem mulheres". Não sou feminista mas desde sempre, e já sou velho, percebi que as mulheres são mais ponderadas e benignas do que os homens. Tenho pena de só ter tido filhos homens: a minha velhice seria melhor se tivesse tido uma filha. (mas tenho três netas, haja esperança)
EliminarÉ isso: estamos condenados a viver juntos, mesmo sendo homens e mulheres tão diferentes e por vezes tão opostos no sentir.
Eliminar«No romance da Doris Lessing o mundo só é harmonioso enquanto existem só mulheres, daí a minha frase em referência ao livro: "o mundo seria um paraíso se só existissem mulheres"».
EliminarPara desmentir essa tese, não é preciso nenhum romance distópico. Basta ler o bem-humorado e brilhante "Assembleia de mulheres" da Natália Nunes. Qualquer pessoa que tenha trabalhado num sítio em que só existam mulheres (e as mulheres que nesse sítio trabalhassem seriam as primeiras a admiti-lo) sabe bem que essa suposta harmonia de um mundo só de mulheres seria falsa.
A escritora Margaret Atwood é muito conceituada.
ResponderEliminarEstá inclinação às séries se lhe faz tendência o tal "Turismo literário" . Por exemplo há leitor-explorador e se lhe refugia com receitas imediatas em ação do choque, sob alívio com ansiedade.
Talvez, seja ou esteja distante: entendimento a percepção feminina a leitura com relação há comportamento.
Cláudia da Silva Tomazi
Rápida observação: Os fanáticos religiosos não sei se estão a tomar conta do Brasil, porém nos países ditos islamizados já tomaram e reinam com mão de ferro! Coisa que a nossa livre e laica sociedade europeia, alegremente ignora ou finge que não sabe... o que oiço contar é que eles estão a tomar conta não do Brasil, mas de países como a França, Inglaterra, Alemanha, Suécia... e preocupa-me bem mais a mim!!!!
ResponderEliminarPor cá, temos os fanáticos dos animais, que não andam muito longe desse fanatismo e imposições.
Saudações I , cá de um país onde a IURD foi banida e proibida, assim como o Islão.
Adoro quando fala assim. O verdadeiro Pacheco.
Eliminartodos os fanatismos são perigosos: repudio as sociedades clericais islâmicas, xenófobas e desumanas, como também repudio o retrocesso civilizacional, protagonizado por actores medíocres, como trump e bolsonaro.
ResponderEliminarMinha Linda, veja os Sopranos e o The wire duas verdadeiras obras primas. Jinhos
ResponderEliminarO mal que me aponquentou foi uma dor ciática! Embora o torcicolo aqui seja de temer, tantos os motivos (justamente femininos... eheheh!) para se virar a cabeça , andando aí pelas ruas!
ResponderEliminarEntretanto andei a protagonizar uma outra novela, chamada "Administração Municipal" ... sem fim à vista, cada episódio é uma surpresa e termina sempre com o fatal "que mais irá ser pedido!".
Na verdade não vejo nem novelas nem séries! Ou quase... porque não consigo ter a disciplina de, àquela hora ou dia, ou o que calhe, estar a postos para assistir, e, falta-me paciência para as seguir, por muito boas que sejam. E sei que as há muitíssimo boas!
Por acaso vi (e gostei muitíssimo) "A Guerra dos Tronos". O final foi foleiro, em minha opinião e fechou com chave de lata de sardinhas uma série magnífica! Ignoro se foi baseada em livro, mas se foi, o fim foi indigno do resto!
Que me lembre, assisti em tempos a "Os Soprano", aliás até comprei o CD com a banda sonora que é belíssima. Era uma série de grande qualidade, gostei muito! Acho que não vi na totalidade e falhei o fim, por exemplo. Mas gostava, era excelente e muitíssimo bem representada, com um naipe de actores muito bons!
Vi depois outra, do género e também muitíssimo boa, com excelente representação e rigor: -"The Board Walk empire" , mas apenas pontualmente, não a consegui seguir, perdi vários espisódios e não assisti ao final, foi pena...
Creio que muitas destas séries, hoje muito na moda, beneficiam da facilidade de havendo aquele sistema de gravações nos canais TV, podermos vê-las quando quisermos. Modalidade que aqui não existe e creio ser recente, mas permitiu-me por exemplo, ver "A Guerra dos Tronos", em Portugal. Depois a última série, já consegui seguir aqui.
Estava a esquecer-me de outra boa série, que foi "Os Pilares da Terra", até porque chateando-me, optei por comprar os livros, e pronto, fiquei a ganhar!
Estas séries, serão baseadas em obras escritas? Pergunto... ou pelo contrário, depois da série é publicado o livro? Por exemplo, do filme do Tarantino (sou ultrafã!) "Sacanas sem lei", saiu um livro, em género guião... mas falando francamente, não gostei lá muito.
Lembro-me de, quando rapaz, ter visto Guerra e Paz em série de episódios - quem se lembra? Por acaso na época foi muito boa! Claro que assisti à incontornável "Gabriela", mas acho que foi a única telenovela que vi, pelo menos com regularidade, se bem que me lembre de gostar de ver aquela com o prefeito Odorico Paraguaçu, por causa dos cromos fabulosos e do discurso do personagem principal!
No entanto não sou consumidor do género, nem me parece que venha a ser, pela minha indisciplina, como referi.
Porém ressalvo que "A Guerra dos Tronos" foi de facto surpreendente pela qualidade. Pena o final...
Parece-me que de facto, em termos literários, há séries mesmo muito boas, e pelo que percebi, muitos dos Extraordinários comungam desta opinião!
Lembro a propósito, quando andava no liceu, tive uma amiga que se achava muito-muito-muito, e até era... em alguns pormenores, eheheh, mas também era do género:
Telenovela? Não vejo, é alienante!
Música? Não oiço, é alienante...
Cinema? Não vou, é alienante!
O que é que estás a ler? Ah... não, é alienante!
Acabei por me chatear com ela a propósito de um qualquer comentário do género que a impedia de fazer qualquer coisa com a malta, disse-lhe que a alienada era ela e que a sua alienação era ser obcecada com o receio de ficar alienada. Foi demais... zangou-se a sério comigo! Depois mudou-se para um grupo de seguidores do guru Marhaji (ou como se escreve...), como "recebeu a palavra", achou que nada lhe acontecia e estampou-se de moto! Ficou bastante maltratada. Do grupo dela, uma outra amiga do liceu, irmã de um conhecido, foi morta num festival na ilha de Man.
Realmente, quem precisa de novelas?
Saudações novelescas e rocambolescas cá da Cidade Morena!
Oh Pacheco: você é mesmo uma personagem de mistério! Ainda não percebi se é homem ou mulher (ontem descaiu-se e falou no feminino) e, portanto, se é um Pacheco Municipal ou uma Pacheca científica. Whatever: bom fim de semana. E gosto muito de festivais, sim senhor. Ou senhora...
EliminarSandra Neves.
Rosário: séries só vejo mesmo o Poirot. Sou fã da personagem de Agatha Christie, não me importava de ter sido eu a concebe-lo e adoro as suas aventuras em comboios pelo oriente onde alguém acaba sempre por morrer. Por norma esfaqueado.
ResponderEliminarSandra Neves.
A propósito da "possibilidade de os mais radicais religiosos tomarem conta das coisas (como de resto já está a acontecer no Brasil)", também se podem encontrar idênticos alertas no cinema: "Divino Amor", de Gabriel Mascaro (https://www.imdb.com/title/tt8311958/?ref_=nv_sr_srsg_1), é uma instrutiva (e recreativa) distopia irónica que encena um futuro próximo no Brasil (e oferece ainda uma glosa curiosa - e mais consistente - de caminhos já traçados por, entre outros, Jean-Luc Godard).
ResponderEliminarE a literatura anglo-saxónica continua a produzir 'replicações' do legado de Margaret Atwood: por exemplo, "Vox", de Christina Dalcher (que, porém, cedo se revela mais interessada no ritmo do thriller), ou o recente "Blue Ticket", de Sophie Macikntosh (uma distopia pesadamente feminista).
Paulo Lopes
Mas esqueci-me da mais interessante - finlandesa: Johanna Sinisalo, com "The Core of the Sun" (na tradução inglesa).
EliminarPaulo Lopes