A Raposa

Uma das coisas melhores da leitura é que frequentemente há livros e autores que nos levam a outros livros e outros autores. Há pouco tempo, fiquei muito seduzida pelas citações e referências que Julian Barnes fazia do escritor francês Jules Renard (1864-1910). Lembro-me de ter aqui falado dele e de algum dos Extraordinários me recomendar O Pendura. Pois é desse livro que falo hoje, já quase a acabá-lo, pois é uma maravilha de verrina e maldade elegante, além de ter das mais belas metáforas que li na vida. Em Portugal, que me lembre, não temos grandes cultores deste género na literatura, às vezes o Eça, mas de uma forma que dá logo vontade de rir (e aqui pode atar-se um nó no estômago, mas logo vem o sorriso para perdoar o pecado). O enredo pode resumir-se à história de um homem que escolhe um casal para nele «parasitar» (na verdade, este «pendura» é também um «crava» ou um «penetra»), e esse casal, crendo-o um grande poeta e bem relacionado com a intelectualidade, dá almoço, jantar, guarida, mimo e muito mais ao oportunista que usa e abusa do que lhe é oferecido e, mesmo assim, continua ferido pelo tédio. Como se conta no prefácio, o livro que o escritor Jean d'Ormesson levaria para uma ilha deserta seria o Diário de Jules Renard, por lhe dar a garantia de nunca se aborrecer. Tenho de ler. «Renard» quer dizer «raposa» em francês e é masculino. Jules é uma fantástica raposa.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco23 de julho de 2020 às 02:11

    Conheço bem a obra de Jules Renard, de quem por qualquer razão, meu avô gostava e tinha alguns livros ... como já aqui referi e até destaquei "Histoires naturelles", que me marcou ainda na infância, até antes de ler "Bichos" do nosso incontornável Torga.
    Tenho na versão original que li , "L'Écornifleur" , este "O pendura".

    J. Renard é um observador mordaz, mas antecipando-me ao nosso Extraordinário Severino, creio que Gervásio Lobato é da sua linha, e, o seu eterno "Lisboa em camisa" é um clássico, pois que os tipos (hoje diz-se cromos) nele descritos pouco variam em relação à actualidade, e na política então... e já os "socialites" da época possuíam os mesmos tiques e convencimentos.
    Diria ainda que Mário Zambujal ou Dinis Machado, penso que podem entrar nesta comparação? Quem conhece que diga de sua justiça.
    Talvez Renard seja mais elaborado, sofisiticado, não sei e nem sou competente para o comparar, sou apenas uma traça dos livros e não um crítico ou literato, porém fazem-me lembrar uns dos outros.

    Ficam as referências para que em tempo de pré-férias, os Extraordinários que os não conheçam, procurem além do "Lisboa em camisa" com reedição recente, a "Crónica dos bons malandros" ou a série dos "Contos do gin tónico".
    Também aconselho, como leitura leve e sobretudo humorada, na nossa língua, da autoria do luso-angolano Pepetela (celebrado autor!) os dois livros: "Jaime Bunda e a morte do americano" e "Jaime Bunda investiga", que são hilariantes e constituem um fabuloso retrato da sociedade angolana do tempo de "dos Santos" (e ainda...).

    Sem me querer exceder nas competências, acho até que nós portugueses temos uma boa veia para a escrita de "escárnio e mal-dizer", a sátira e o cómico. Há muitos autores de textos televisivos ou revista, que escreveriam bons romances no género, aliás caso do Mário Zambujal.

    A propósito ainda do tal "Pendura", quem se lembra, daquela peça teatral com o incontornável José Viana, "Sua Excelência o Pendura"? Foi na época um sucesso estrondoso.

    Saudações humoradas, cá da Cidade Morena, onde rir é corrente, fácil e constante.



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    1. Ó Caríssimo e extraordinário Paxeco efectivamente "Lisboa em Camisa" foi dos livros mais hilariantes que li e não esqueci, e foi há tantos anos... (era eu um menino que requisitava livros nas carrinhas da Câmara Municipal de Lisboa e que, a determinados dias, estacionavam em certos lugares de Lisboa e emprestavam livros a quinze dias; o bibliotecário emprestava-me sempre livros mesmo com morada diferente do local de escionamento)

      Outro livro que também me pôs a rir sózinho em pleno electrico em Lisboa foi "O chapéu de três bicos" do Calderon de la Barca, um livro que adorei.

      Outro livro, também muito engraçado e que, na altura, também me agradou imenso, dado que parti para a sua leitura sem grandes expectativas, foi "A Rua do gato que pesca" creio que da Yolanda Föles, da antiga colecção de bolso da Europa-América (tal como "O chapéu de três bicos").

      Jules Renard ficou-me no "caderninho" para futuras leituras quando, aqui há tempos, o referiste aqui no Horas Extraordinárias.

      E, deste modo, depois das considerações tecidas hoje pela nossa estimada MRP foram reforçadas as minhas expectativas relativamente a futuras leituras do Jules Renard.

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  2. Os benefícios que tenho colhido neste blogue não teem conta. Agora são estas duas obras de Jules Renard, provavelmente boas leituras de férias. Nunca ouvira falar de Renard até ao dia em que a nossa anfitriã e um Extraordinário aqui o mencionaram há tempos. Obrigado.

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  3. António Luiz Pacheco23 de julho de 2020 às 05:55

    Bom na sequência da conversa iniciada aqui pelo nosso Extraordinário Severino, então vou revelar que, os livros mais hilariantes que me recordo ter lido são:

    - Tom Sharpe, práticamente todos, mas destaco "O triunfo do bastardo".
    Um conselho, não leiam em público, para não passarem vergonha, pois vão rir a sério!

    - A série de livros do italiano Giovanni Guareschi - D. Camilo, que deu depois origem aos filmes com o carismático Fernandel, que compõe muitíssimo bem aquele padre de aldeia!
    De uma forma cómica, irónica mas muitíssimo bem composta, Guareschi dá-nos uma imagem muito interessante e sobretudo no aspecto humano, da política, da sociedade e das convulsões na Itália do pós-guerra, através das diatribes entre o truculento e caceteiro pároco de uma aldeia da região do Pó, e o proletário administrador, ex-guerrilheiro da mesma aldeia. Pelo meio uma série de personagens igualmente rocambolescos por entre cenas de uma humanidade profunda, onde o bom coração impera sempre, pois´são os bons sentimentos quem mais une os homens. No fundo o que ele retrata é a velha itália rural, onde se opõem a direita católica e os comunistas, tentando afinal traçar o caminho e modernizar-se. Porém, curiosamente, consegue casá-los na perfeição, sem juízos de valor, nem caracterizar maldosamente nenhuma das forças... sobressai sempre o lado humano. Uma obra notável, só por isto!
    Penso eu, traça livreira!

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    1. Andava eu no ciclo preparatório (eram dois anos a segur ter concluído os quatro anos da escola primária) e lembro-me perfeitamente de ter lido alguns livros da série D. Camilo do italiano Giovanni Guareschi, e li-a-os com muito gosto e prazer, divertiam-me, embora obviamente a minha capacidade de análise da obra do autor não tivesse a que naturalmente poderei ter hoje.

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