Uma coisa e outra coisa
Hão-de lembrar-se ou ter ouvido contar que, no dia em foram entregues os prémios César do cinema, quando foi anunciado o prémio de melhor realizador para Roman Polanski, houve um sururu na sala, que muitas mulheres abandonaram a vocieferar (especialmente uma que foi presumivelmente vítima dos seus abusos), e um sururu ainda maior cá fora, uma manifestação contra o cineasta com cartazes em que estava escrita a palavra «violador». Bem, costuma dizer-se que, até se ser sentenciado, se é inocente, mas, além disso, não se pode confundir o homem com o artista, embora haja muita gente que não perceba isto, não queira perceber, ou simplesmente não consiga separar as águas. Uma coisa do mesmo tipo está agora a suceder a Woody Allen, cuja autobiografia, depois de ter sido comprada por uma editora francesa, foi afinal abandonada sob pena de o pessoal feminino da editora se demitir em massa. Oh, céus! Não só o senhor Allen foi ilibado das acusações, como o pessoal dessa editora não deve ser assim tão imprescindível, se não consegue perceber a diferença entre autor e pessoa. Estamos, infelizmente, no mundo que censura a obra por não gostar do homem e isso é que é um escândalo.
Concordo!
ResponderEliminarDe acordo!!
EliminarDirei mesmo mais: completamente de acordo!
EliminarEsclareço que concordo consigo. Não estão a separar as coisas e estão a decidir por todos. A impor a sua vontade, o que não é nada democrático e acaba por ser, a um nível diferente, tão errado quanto as situações de que acusam os visados.
ResponderEliminarGosto do Polanski tem filmes inolvidáveis (Repulsa, Tess, O Baile dos Vampiros,etc), ainda agora Dreyfus foi visto por milhões em França. Do Allen gosto menos , mas Annie Hall para mim é o melhor, depois repetiu-se e faz sempre o mesmo filme, é pana.
ResponderEliminarDesculpem as teclas mas quis dizer, é pena.
EliminarVeja os filmes "A Rosa Púrpura do Cairo", "Zelig", "Uma Outra Mulher", "Intimidade", "Match Point", "O sonho de Cassandra", "Um homem irracional", "Balas sobre a Broadway" e "Através da noite", todos eles realizados depois de "Annie Hall". Vai ver que o Woody Allen não fez sempre o filme.
EliminarVi esses todos, mas nenhum supera o Annie Hall.
EliminarNão faz qualquer sentido, parece que está tudo maluco
ResponderEliminarPara mim o Woody Allen será sempre um dos melhores realizadores de cinema, embora também goste de alguns filmes do Polanski.
É se isto é o Woman Power é mesmo uma tristeza.
Maria
Eu, sou sincera, acho racional que se separe as águas, mas emocionalmente não sei como tal é possível.
ResponderEliminarQuem é que era capaz de aplaudir e elogiar uma qualquer criação artística de um Hitler?
Claro que tinha de falar do Hitler, válido para qualquer outro ditador que se preze. É nos extremos que conseguimos consolidar princípios e explicar muito das nossas acções.
Isabel
Faltou dizer: e uma violação é um extremo.
EliminarIsabel
Concordo consigo, Isabel. Vejo a racionalidade da coisa, mas prémios e condecorações fazem de uma pessoa um ícone, adorada e idolatrada por muitos, e fica difícil aguentar essa situação em casos que sabemos que se trata de pessoas de carácter duvidoso, ou mesmo de criminosos. Mesmo dando valor à sua obra, fica difícil.
Eliminar(isto, independentemente dos dois casos mencionados, sobre os quais não tenho conhecimentos suficientes para ajuizar)
Minha Cara Isabel: se um criminoso produzir uma obra de arte, aprecio-a como tal, e não como tendo sido feita por ele… é este exactamente o extremo de que fala, através do que consolidamos princípios (que hoje são muito elásticos e pouco definidos…) e explicamos as nossas acções, ou seja, para mim uma obra de arte é uma obra de arte. Apenas! E este um princípio como outro qualquer.
Eliminar-E enquanto andaram a mostrar-se na passadeira vermelha, e aos seus vestidos, dos melhores e mais caros costureiros?
Eliminar-E enquanto andaram a papar grandes jantaradas em grandes e nos melhores e mais caros restaurantes?
E enquanto andaram a dormir em grandes e nos mais luxuosos e caros hóteis?
Então nessas alturas não se queixaram do assédio sexual? Ó meus caros amigos mas andamos cá a dormir ou a fazer de conta...
O caso paradigmático da actriz Joan Crawford que ia para os castings vestida apenas com o seu casaco de peles, sem mais nada por baixo e assim conseguiu os papéis!?
EliminarIsto é muito bipolar, por um lado a admiração incondicional pelo trabalho, por outro, o lado emocional se acreditarmos nos actos de que são acusados. Não é fácil dissociarmos os dois lados, a pessoa é a mesma. Se acreditasse na culpabilidade de Allen, não sei se veria os seus filmes da mesma maneira.
ResponderEliminarbom dia
ResponderEliminarsem querer dar início a discussão, sinto necessidade de partilhar a minha perspectiva: nada está separado, tudo é o nada que é tudo. é como um violador ser perdoado porque é um bom samaritano nas horas vagas. o bem não apaga o mal e parece que só as vítimas o sabem.
Bonito pensamento… que todos devemos aplicar a nós mesmos, a menos que sejamos santos e impolutos… não é o meu caso, ignoro se será o seu.
EliminarA Inquisição está de volta e agora é exercida por minorias organizadas. Triste.
ResponderEliminarÀ Justiça o que é da Justiça, à Arte o que é da Arte. E nós, amantes de Literatura, a pensarmos que este debate já estava ultrapassado desde há mais de meio século quando se discutiu o clássico romance "Viagem ao Fim da Noite" escrito pelo repugnante anti-semita Céline.
Aplaudo!
EliminarÉ verdade o que diz, sofreu por isso, andou fugido, mas o romance não deixa de ser um dos mais importantes do séc. XX. Já li duas vezes e hei-de ler mais vezes, em vez dessa porcaria que enxameia as livrarias.
EliminarDe facto é "um pouco" difícil separamos a obra do homem. Sobretudo quando falamos de um pedófilo. A interpretação de uma obra tem muito (quase tudo) de emocional, daí que o separar das águas seja quase impossível. Hitler foi um pintor fracassado, mas sabe-se que as suas obras (muitas delas vendidas) até eram bastante boas. Porque nunca se recuperaram essas obras e não se fez uma exposição? Caía o Carmo e a Trindade. Separar o homem do artista? Luís Pacheco foi genial, mas era pedófilo. Andou muito por minha casa e eu, mesmo sem perceber porquê, nunca gostei dele. Mais tarde li-lhe umas crónicas e não consegui achar piada, lá está, não separava o homem do artista, impossível. Allens, Freemans, Weinsteins, Spaceys e tantos outros, podem ser fantásticos no que fazem, mas merecem ver as suas carreiras destruídas quando devidamente julgados e condenados por actos tão hediondos quanto a pedofilia. O Allen ainda não passou por isso,
ResponderEliminarmas nestas coisas, de facto o "não há fumo sem fogo" verifica-se quase sempre.
O meu comentário surgiu como "anónimo", não sei porquê. Claudia Ramos
EliminarDe facto os cruzados da pseudomoral e dos bons costumes, andam activos… muito activos, no seu afã de destruir o que seja belo ou arte, para elevar as aberrações que pretendem impor. Que se destruam pessoas e carreiras… isso em nada conta - desde que seja com os outros, porque se nos cai em cima, aqui d'el-rei, injustiça!
ResponderEliminarÉ peditório para o qual não dou… hoje as muitas minorias conseguira formar uma maioria, a maioria das minorias!
Saudações minoritárias cá da Cidade Morena!
Pois concordo em absoluto embora, em certos casos, não podemos deixar de ser influenciados pelo carácter do artista.
ResponderEliminarSabe o que acontece quando você separa “o artista” da “pessoa”?
ResponderEliminarVocê dá dinheiro, influencia, voz, espaço e poder pra homens que violentam mulheres e comunica pro mundo que o sofrimento de uma mulher não importa.
Abusadores, estupradores e assediadores não deviam ser premiados.
Discordo! Quando você separa o artista da pessoa, apenas apoia a obra, não a pessoa!
EliminarNão está a premiar o carácter e sim o génio, a arte! E é bom lembrar que há tanto homens quanto mulheres que são abusadores e isso tudo que descreve!
Há uma ténue fronteira entre o/a artista e a marginalidade, muitos artistas vivem num limbo entre elas e as convenções, por isso são artistas, e a genialidade anda de mãos dadas com as perturbações , como é bem sabido e de sempre… em tempos eram mesmo presos e queimados, executados. É isso que pretende que se recupere? Que se executem os tais abusadore/as? Ou é preferível condená-los ao ostracismo, à exclusão, à morte em vida?
Quando se defende tanto a reinserção e a recuperação na prisão… mas quem por lá passe nunca mais paga a sua dívida à sociedade, é isso?
E depois, vejamos, os/as abusado/as (como bem diz o Severino) não fazem parte dessa fauna e desse meio, onde vivem à conta e por conta? Numa forma de "vida fácil", que tem obviamente os seus riscos… aqui deixo obviamente as crianças de fora, e, por muito que vá chocar aquilo que vou dizer, mas é fruto da minha observação, nos países tropicais, uma menina de 12-13 anos não tem nada a ver com aquilo que é o nosso estereotipo europeu, nem em vivência nem em malícia e oportunismo, nem sequer fisicamente!
Esta é uma verdade que a Carolina certamente sabe, pois creio que é brasileira… e sabe bem do que falo. Note que não defendo e muito menos pratico, mas posso-lhe contar como o Engº Heuler e o "Macarrão" tinham na aldeia vizinha, cada um uma garota "catorzinha" comprada á família com a intervenção do soba, por 250 dólares.
É a triste realidade de quem precisa e não tem outro caminho ou mesmo escolhe o caminho da "vida fácil" que não o será tanto… há tantos e tão Extraordinários livros sobre o tema, desde logo desse imenso ser humano Jorge Amado.
Eu sou apenas o que sou, uma traça dos livros, que não acusa nem julga, e felizmente vivo fora desses meios "artísticos", que nem frequento nem me atraem, ao contrário da luz deste espaço literário.
Saudações cá do Paralelo 12
Para mim sua colocação é completamente equivocada. Ao ponto que um homem não consegue a visão do que é para uma mulher que teve sua vida destruída ver o seu algoz sendo premiado e condecorado. Separar “o artista” da “pessoa” e premiar essa pessoa por qualquer um dos seus feitos é um escárnio para suas vítimas. Isso é bem um reflexo de como as coisas são postas em nossa sociedade. Ao que parece o sofrimento de uma vítima não tem qualquer valor se o agressor é um homem, pouco importa se for um artista ou não. Te digo, há muitos monstros entre os "artistas". Não importa se matou, se estuprou, se assediou ou cometeu qualquer crime, sendo um artista de qualquer obra que seja, está perdoado e pode ser reconhecido e premiado? Desculpe, não faz sentido. Premiar homens que violentam mulheres apenas confirma que o sofrimento de uma mulher não importa.
EliminarVolto a dizer, abusadores, estupradores e assediadores não deviam ser premiados.
Diz bem: "para mim sua colocação é completamente equivocada". Tal como para mim, a sua é igualmente equivocada… são opiniões, válidas porque sustentadas.
EliminarO seu ponto de vista é obviamente feminista, foca-se e fecha-se nisso, razão pela qual não posso concordar, como se só fosse crime o homem abusar, e não a mulher.
O/a artista não é premiado/a nem perdoado/a, repito, pelo seu carácter ou comportamento e sim pela obra. Pelo que diz, condene então à fogueira os/as artistas que tenham esses comportamentos, e olhe que devem ser quase todos/as!
Há monstros entre os artistas… ou estes têm mais visibilidade? Não há monstros em todos os patamares da sociedade? Mesmo entre as pessoas comuns?
Não vale a pena ser extremista, vive-se apenas no ódio e na frustração!
Não deixarei de apreciar os filmes de W. H. ou R. P. pelo que eles façam na sua vida privada, isso é uma certeza. Aplaudir o carácter ou as taras, não sou obrigado a isso.
O seu ponto de vista é obviamente machista e você foca nisso. Ora, tente se colocar nos sapatos de outra pessoa e observar de lá outro ponto de vista. Falta-te empatia com a vítima e sobra-te empatia com os que chamei de monstros. Reflita.
EliminarQue disparate! Perdoe a franqueza.
EliminarSe o meu ponto de vista é machista… fica mal! Mas o seu sendo feminista… fica bem, logo estou errado porque sou homem, essa é forte!
Onde é que me vê a ter empatia com monstros? Porque aprecio as fotos da Leni Riefenstahl, isso faz de mim nazi?
Põe reparo no tamanho do pano que vc está a passar ;)
EliminarMas quem é que falou em executar ou condenar à fogueira os monstros de que aqui se fala?
EliminarEstá-se só a discutir que não deve nem pode ser assim tão fácil, como a autora do blog e vários comentadores aqui fazem parecer, separar o artista da pessoa, porque um não vive sem o outro!
"Harvey Weinstein CBE is an American former film producer and a convicted sex offender."
Lê-se na biografia deste senhor da Wikipedia, mas vamos supor que esta seria uma possível intro para muitos artistas criminosos. Vamos interpretar o 'convicted sex offender' como um mero defeito e simplesmente passar à frente, continuando a elogiá-lo pelo seu primeiro título, a aplaudir, a dar-lhe dinheiro?
Parece-me que ao fazer-se isto está-se a sobrepor a arte ao respeito pelas vítimas, e, por muito que eu aprecie arte, há um limite para a sua apreciação que é imposto pelo carácter do autor. É como em tudo na vida - e nas coisas mais objectivas, que nos afectam directamente! -, por que não o haveria de ser na arte?
Isabel
Creio que não soube ler, e, menos interpretar o que aqui se disse, minha cara, eu inclusive.
EliminarEste blog é de leitura, presume-se… claro que a interpretação é com cada um, mas nem sempre é a correcta, como parece não ser, se olharmos à coincidência das opiniões pró-arte (e não pró dinheiro, nem carácter, etc.) que revelam o entendimento literário e nem por isso filosófico do assunto.
A metafísica é interessante e importante, mas não é o tema.
Cumprimentos cá da Cidade Morena.
PS - Não é Pedro Sande é Post Scriptum, não vá ser mal-interpretado…
EliminarNão se queimam no sentido do termo, mas fazem-no no sentido social do termo…
Também, se não separarmos o artista da pessoa, quase não teremos arte digna desse nome, pois a quantidade de Grandes e Geniais Artistas com taras e defeitos de carácter, é tão grande, que os manicómios seriam museus, geniais… seria bom pensarem nisso as indignadas feministas. Aliás não foi no Brazil que duas mulheres que viviam juntas, lésbicas, e feministas, torturaram, cortaram o pénis e mataram um garoto filho de uma delas, por ser homem? E nem tinham a justificação de serem artistas… é que monstros existem em todos os estratos , como referi mas parece não ter sido entendido.
A humanitas acima de tudo, no Homem paradoxal. Qualquer obra bela (e como eu gosto de muito dos quadros de homens como Salvador Dali, alguém abjecto do ponto de vista pessoal) diminui à vista da maldade ou mau carácter do seu autor. Poderá algum dia a bondade na relação entre os Homens, a ética, a justiça, a probidade, não serem elementos a ter em conta na própria obra de arte? É, de facto, difícil separar o Homem da sua obra.
ResponderEliminarmuitos
EliminarDe acordo!
EliminarIsabel
Parece não haver outro remédio senão separar, de outro modo teriamos de deitar ao lixo Heidegger, Sartre, Céline,... ( a lista seria longa).
ResponderEliminarOlha quem fala... quando não gosta de um autor, nem que a obra valesse ouro...
ResponderEliminarHitler não foi um bom pintor. Nem sequer um razoável pintor. Ele achava-se maravilhoso, como sabemos. Aliás, os alemães parodiavam o seu ego fazendo um trocadilho com a palavra pintor que em alemão tem duas designações diferentes conforme se é artista 'Maler' e o vulgar pintor de paredes ' Streicher'. Escusado será dizer que era conhecido por der Streicher😆
ResponderEliminarEna, pá! Hoje a sala encheu e parece um salão de baile: homens a um lado, mulheres ao outro. Paradoxalmente, não dançam!
ResponderEliminarLi tudo o que está aí para ler e acho que o sexo está a influenciar a apreciação da arte, a desculpá-la ou a increpá-la através dos seus intervenientes. Quanto a mim, que nunca apreciei extremismos, quedo-me pelo meio, mas não deixo de ler obras cujos autores não têm a folha limpa. Se assim fizesse, já não tinha livros na estante e quando passasse por uma livraria benzia-me com a mão canhota.
Quanto aos inúmeros "monstros" apontados, julgo no meu modesto parecer que há casos e casos, pois uma violação não é igual para quem se põe a jeito para ela e quem não a quer. A não ser que seja menor, claro, que aí há muita gravidade. A mulher, como se costuma dizer, é por vezes como o espelho: para se sujar, basta o bafo. As ditas senhoras que foram manchadas pelos "artistas", foram com eles para o leito debaixo de armas ou fizeram-no apenas por saber que debaixo dos lençóis é que estavam as prebendas? Sem isto esclarecido, quero dizer, relativamente ao texto sobre a ameaça da claque feminina da editora se demitir em massa, que eu, no lugar do empresário, ficava a abrir-lhes a porta para elas irem arejar. E ainda fazia vénia.
Se calhar, correndo o risco de que me chamem machista, haverá no #me too quem se queira aproveitar do recheio das compensações e a estas, só a estas, eu já alinhei no meu próprio movimento, o #me never.
Só mesmo uma pessoa que subiu à custa de homens com poder pode dizer uma coisa destas. Está tudo dito. Vá lá escrever sobre caixões para os seus amigos.
ResponderEliminar