As cidades e os livros

Quem gosta de livros e de ler (bibliófilos e leitores, duas espécies que têm cada vez menos adeptos, segundo os números de vendas de livros em todo o mundo) gosta também seguramente de visitar cidades onde haja bons alfarrabistas, bonitas livrarias e bibliotecas de sonho, e de espiolhar todos os cantinhos destes lugares sem se preocupar com as horas e as dores nas cruzes. Mas também pode preferir escolher como destino cidades onde se passa a acção de alguns dos seus romances preferidos, como, por exemplo, a Sampertersburgo das obras-primas de Dostoievski, a Oxford de Todas as Almas de Javier Marías, a Barcelona de A Sombra do Vento, a Tenerife da escpadinha de Terapia, de David Lodge, ou a Nápoles da tetralogia de Elena Ferrante. E, claro, pode ainda optar por cidades onde viveram os seus autores favoritos e vasculhar os sítios onde estes escreveram as suas obras mais emblemáticas: entrar nas suas casas ou gabinetes, ver como eram as suas secretárias e cadeiras, as suas máquinas de escrever ou, tratando-se de alguém mais antigo, as suas pranchas de escrita, os seus tinteiros, penas e mata-borrões. E até ir ao lugar onde estão enterrados, uma coisa algo mórbida que eu, por exemplo, já fiz com William Butler Yeats em Sligo, na Irlanda, e Joseph Brodsky no cemitério de San Michele, numa ilha de Veneza. Cada amante da leitura terá uma cidade que quer ir visitar por causa de um livro que leu ou do seu autor, mesmo que frequentemente, lá chegando, se desiluda com a cidade real.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco30 de abril de 2019 às 01:40

    É verdade!
    Mas, direi mesmo mais: - Tendo em atenção a imensa diversidade de obras que se passam por toda a parte e os fãs das mesmas, assim como os locais onde nasceram os autores dilectos, não me parece que haja lugar no Mundo ou mesmo no espaço, que deixe de despertar a atenção dos referidos leitores-turistas!

    Só para citar um exemplo, existe aqui em Benguela o notável e conhecido local geográfico, a Sul da cidade e depois da aprazível praia da Baía do Santo António, a Ponta do Sombreiro, curiosa formação que parece um chapéu de Sol. É título de um belíssimo livro do grande escritor benguelense, Pepetela - "A Sul, o Sombreiro".
    Recomendo a leitura, já agora…

    Creio que há mesmo um interessante nicho na indústria do turismo, dedicado a esse tema!
    E nem de propósito, é anunciado pela TAP uma promoção de preços especiais para visitar os lugares onde decorreram as filmagens da série "A guerra dos tronos".
    O que comprova o que nos diz e um verdadeiro diletante não deixará de fazer.

    Quanto a visitar livrarias nas cidades ou localidades onde vou, isso é garantidamente algo que sempre faço.

    Saudações diletantes cá da Cidade Morena a Norte do Sombreiro!

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  2. Livrarias e outras que tais, são sempre visitadas onde quer que eu vá. Vivi ao pé da casa de Cervantes, onde tentaram manter o ambiente original , e onde puseram uma estátua do escritor sentado à secretária. Quem gosta de livros, sabe apreciar estes sítios.

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  3. Bom dia com sol e alegria

    Livrarias e bibliotecas visito sempre. Cemitérios não, visto ir lá passar uma eternidade, tenho tempo.

    De resto, preferencialmente, faço turismo fora das cidades, esses locais distópicos. Prefiro o contacto com a natureza em zonas com baixa densidade populacional.

    Faz-me sentir menos um bicho de aviário.

    Boas leituras e bom feriado
    cp

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    1. António Luiz Pacheco30 de abril de 2019 às 02:38

      Ahahah! Bem achada essa do "bicho de aviário" .
      Abraço aí para o galinheiro… eheheh!

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  4. Pois é, quem gosta de livros, até é capaz de ir a ruas, cafés, e outros lugares especiais, retratados nas suas páginas...

    Por outro lado, tenho algum receio que a transformação das livrarias e bibliotecas em "museus" não acabe por não oferecer qualquer benefício à leitura, por aparentemente serem "lugares mortos"...

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    1. A mim parece-me que cada vez menos as livrarias e bibliotecas se assemelham a mausoléus... Talvez por força do consumismo instalado na sociedade e da presença constante de estímulos sem os quais as pessoas se sentem, aí sim, bichos de aviário, parece-me que as bibliotecas e livrarias se vão tornando espaços mais "apelativos", ou "atractivos" (a meu ver, na maioria dos casos apenas mais ruidosos). O lado positivo disto é que de facto há muitas actividades lúdicas/culturais (serviço educativo, exposições e artes performativas, por exemplo) a serem desenvolvidas em lugares que eram até há pouco tempo exclusivos dos livros e dos leitores e que, pela sua aura elitista, acabavam por inibir muita gente de se apaixonar pela leitura.

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    2. Percebi o ponto de vista da Patrícia.

      Embora a venda de livros em grandes superfícies os transforme em meros objectos de consumismo, pode acabar com a tal inibição (que existe especialmente em meios pequenos, onde existem "elites fechadas"...) de quem não cresceu rodeada de livros, mas consegue olhá-los como objectos especiais...

      Mas eu falei de outra coisa, oposta, a transformação de algumas livrarias e bibliotecas em "museus" (por falta de compradores e leitores...), onde os livros são mais para olhar que para comprar.

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  5. Portel, de Cerromaior.

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  6. Modelo único da Buggati 11 milhões de €uros-Ronaldo possível comprador. E ponho-me a pensar a pensar a pensar..... Ronaldo (ou qualquer outro, da quase totalidade, dos futebolistas) alguma vez terão lido um livro na sua vida? E serão felizes?
    Hoje não comento apenas reflito.



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    1. Na época passada, um jogador do Sporting foi fotografado a ler o "Ensaio sobre a cegueira" antes do início de um jogo.
      https://sol.sapo.pt/artigo/572360/jogador-do-sporting-apanhado-a-ler-saramago-no-banco

      E há um antigo jogador argentino, Jorge Valdano, que escreve muito bem e tem vários livros publicados.

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    2. Claro que não se poderá generalizar, haverá certamente alguns que lêem (daí eu ter escrito a quase totalidade).
      Por exemplo, já vi o Capitão de equipa do Rio Ave (Tarantini) com um livro debaixo do braço (pareceu-me O CemitérIo de Praga do H. Eco.)

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    3. Sim, o Tarantini é mais um exemplo de um futebolista interessado em literatura. E penso até que chegou a publicar um livro.

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    4. Há pouco esqueci-me de assinar.

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  7. Há que evoluir e, isso poder-se-ia firmar; ora a integridade, ora a lisura. Questões estas, de compor o elemento a percepção. Gentes que sobem ou descem ruas, e prestam-se no vai e vem de afazeres, e neste (laborioso) sentido prático os surgem às conversas. Certamente a memória por diariamente se lhe serem honestos e vingar a cumplicidade as páginas de outrora, desde os primeiros acordes; este saber lhes fora grato. O mundo se lhe povoa em palavras e gestos de escritas e nem tanto para água ou vinho, entretanto: simbólicas. Conhecemos nos reconhecendo os traços! Algo mais gentil, aqui, lá ou acolá o suporte a higiene mental em humanizadas cidades ou tuteladas culturalmente de assistência polida (também) se lhes expressam, para além o praticarem leituras os são livros.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  8. Quando vivi em Paris visitei o Père Lachaise quatro vezes, duas em solitário e duas em visitas guiadas. Na imensidade de escritores que lá repousam destaco apenas Óscar Wilde, Marcel Proust, Honoré de Balzac, três monstros sagrados que não estão propriamente esquecidos.Tenho uma fascinação por cemitérios que não se explica. Em Montparnasse estão Sartre e a Bouvoir. Nos Batignolles André Breton.Em Montmartre os irmãos Goncourt, Sthendal, Émile Zola.

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  9. E o maior deles todos - VICTOR HUGO- no Panteão.
    Não me lembro se, no Panteão, mais alguns escritores lhe farão companhia?

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  10. Adoro casas de escritores, cidades de escritores, espaços de escritores. Casas do Eça em Bristol ou na Quinta de Tormes, do Hemingway em Key West, do Twain e da Harriet Beecher-Stowe em Hartford, do Kazuo Dan em Santa Cruz... Adoro, mesmo quando não são exactamente o que esperávamos, o que, afinal, não interessa nada.

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  11. A propósito de Sampetersburgo, alguém me pode esclarecer?
    Fundada pelo czar Pedro, o Grande, a cidade ficou a chamar-se Petrogrado, Petersburgo nas línguas ocidentais. De onde lhe veio o Sam?

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    1. Li isto agorinha num site:
      Quando o czar Pedro, o Grande, decidiu construir de raiz uma cidade na costa do Báltico num território pouco antes conquistado aos Suecos, deu-lhe o nome do seu santo, ou seja, chamou-lhe Cidade de S. Pedro. Não foi por modéstia nem por respeito pela cultura do povo vencido que lhe deu um nome germânico. Escolheu simplesmente a língua dos Países Baixos, de que gostava.
      Pode ser que seja por isto.

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  12. Pois eu espero que possamos ser leitores sem esses tiques. Não me lembro de ter escolhido um destino por vias de um escritor. Mas também, isso sim. Que é como quem diz, se esteja na terra de algum, cidade, vila, lugarejo, visito-o nem que seja no cemitério. E não julgo tétrico, é o lugar onde estão os restos. Mas prefiro ver-lhes as casas e sobretudo ler as obras em meu descanso e longe de lugares que os inspiraram.
    No entanto, visitei Florbela Espanca que espreita os crentes das missas dominicais na entrada do cemitério em Vila Viçosa e que é adjunto à igreja paroquial. Pode ser mania minha, mas pareceu-me grata pela atenção.

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  13. E Sintra aqui tão perto.
    ( também tem cemitério ), acho eu;)

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    1. Pelo menos (Sintra) tem uma casa-museu Ferreira de Castro que gostei de visitar.

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    2. ....e Sintra tem também, em plena Serra e a seu pedido, o túmulo de Ferreira de Castro. Ver site do Museu ( bem organizado) ou site da Câmara Municipal.

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  14. Obrigado Maria do Rosário pela sua informação.
    Melo não é um grande destino de viagem, é apenas uma aldeia nas faldas da Serra da Estrela, mas é um exemplo de dedicação à memória de um escritor, no caso Vergílio Ferreira. Jaz no cemitério sob uma uma placa de granito onde o único elemento de identificação é a assinatura do escritor. Várias peças espalhadas pela aldeia - casa onde viveu, casa onde passou férias, escola, muro de propriedade que saltava para mais rapidamente subir à serra, cemitério, fachada de igreja descrita num livro, ruínas de um palácio - estão assinaladas para fruição do visitante, por vezes com pequenas transcrições da obra que se lhes refere. O largo principal, vasto terreiro dominado pela casa de um familiar onde passou férias, está preenchido por placas inseridas no chão com os títulos e datas de publicação de todas as suas obras. Melo, uma aldeia dedicada a Vergílio Ferreira.

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  15. Por momentos pensei que algum dos extraordinários ia referir o incêndio da casa onde nasceu Almeida Garrett, no Porto. É uma perda para a cultura, se bem que a casa já se encontrasse devoluta!
    Eu gosto de visitar esses espaços onde viveram ou passaram escritores e também as campas onde se encontram sepultados. Não acho tétrico, é uma curiosidade e, até, uma homenagem como outra qualquer.
    Bibliotecas, adoro. Livrarias e alfarrabistas idem, mas alfarrabistas onde moro só há um.

    Cândida

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  16. José Gonçalves Calixto
    Boa noite. Amei tanta gente a falar de livros nos outros países.
    Mas, Maria do Rosário Pedreira.
    Não vi ninguém dizer que em Portugal os chamados grandes procuram destruir as pequenas Livrarias e os Alfarrabistas.
    Nem dizer que os livros estão caros em Portugal, pois para alimentar os monopolista que pedem descontos fabulosos, a ficha de produção é sempre bem salgada.
    Nem dizer que a produção da chamada ficção é demasiada em deprimento de outras obras que nos fazem falta.
    Nem dizer que os leitores desceram em média 23 a 27%, no espaço de um ano.
    Nem que um pequeno Editor não tem direito a entrar nas grandes cadeias Livreiras.
    Nem que os custos com os grandes monopólios chegam a atingir 70% (claro, descontos fabulosos , mais as despesas todas inerentes as entregas, devoluções e tempos perdidos com outros factores).
    Enfim uma parafernália de outras situações que poderia continuar a descrever.
    Tudo isto contribui para o esmagamentos dos pequenos livreiros e dos pequenos Editores.
    Já faltou mais para conseguirem enterra-los a todos, transformando Lisboa e o meu pais num deserto Literário.
    Claro que para o nicho dos nossos intelectuais existem imensos festivais com livros e sonantes prémios materiais.
    Não falo de cor, nem me escondo atrás do 'anónimo'.
    Trabalho no ramo há mais de 55 anos, por isso não me escondo atrás de nada.
    Estou aqui trabalhando com pequenos Editores que lutam diariamente pela sobrevivência.
    Não me sinto infeliz, mas sim um pouco enjoado e enojado com a conversa de alguns intelectuais e jornalistas, sobre a crise Livreira.
    Cumprimentos e haja bom senso nas palavras.
    José Calixto

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