Torga e Camões
Já lá vão trinta anos que o Prémio Camões – o mais importante galardão para a literatura de língua portuguesa – foi, pela primeira vez, atribuído. A quem? A Miguel Torga que, ao que li, disse ao recebê-lo: «Queria ser no mundo, como em letra redonda o declarei, um homem, um artista e um revolucionário.» Não poderia, pois, o Espaço Miguel Torga (complexo cultural belíssimo nascido do risco harmonioso de Eduardo Souto Moura, em São Martinho da Anta, terra onde podemos ver ainda a casa do escritor) deixar de comemorar o acontecimento; e é já hoje à noite que passa o espectáculo Palavras Talhadas em Rocha (lembrem-se de que o nome verdadeiro do escritor era Adolfo Coelho Rocha), composto por leituras de poesia, contos e passagens dos diários deste autor feitas pelo jornalista cultural João Morales, acompanhado pelo violino de Maria do Mar e pelo clarinete de Juan Cato Calvi. A entrada é livre. Uma bela maneira de recordar o grande escritor que, durante muitíssimos anos, foi o candidato português ao Nobel da Literatura.
Um dos meus escritores preferidos de sempre: foi amor à primeira leitura.
ResponderEliminarUma vez fui a São Leonardo da Galafura, para contemplar o Douro que ele tanto amava e ler o poema que lá está gravado na rocha.
Pensava que ia estar a sós com Torga, mas enganei-me. Depois de uma subida íngreme, deparei-me com uma enorme chinfrineira e centenas de olhos curiosos - mas o que é que esta está aqui a fazer sózinha?
Lá se foi o meu momento de solidão, em comunhão com o rio e o poeta...
E ainda tive que comer uns bolinhos de bacalhau (bem deliciosos, por sinal).
Gente boa, a do Norte.
⚘
Maria
Miguel Torga, é, para mim leitor, um dos nomes maiores da literatura portuguesa, que considero um dos escritores contemporâneos que melhor entendeu e exprimiu a alma portuguesa e em particular a do Portugal Rural.
ResponderEliminarPor essa razão, me parece que deveria ter sido digno do Nobel.
Não vou entrar em discussões se outros o mereciam igualmente, mais ou menos, porque esses não são argumentos. O que sinto é que ele foi injustiçado, talvez pela pequenez do nosso país e pela época em que isso deveria ter acontecido.
Mas, em compensação fica-nos a sua Obra e a sua Alma. Isso ninguém consegue premiar como não no-lo consegue tirar.
Já muitas vezes disse que conheço e conheci pessoas que com ele privaram, em particular caçadores. Cacei e caço num dos sítios de eleição dele, o Torrão: Monte da Vinha, Carrascais, Vale da Ursa, Monte Branco da Loira… no mesmo grupo de amigos da casa Gil, que se mantém vão para 4 gerações de caçadores.
Vislumbro muitas vezes o seu fantasma, por entre sobreiros e azinheiras, dobrando cabeços ou assomando a encostas… não sei explicar, mas sinto-o mesmo, quase o oiço romper as estevas ou esmagar os torrões ali ao meu lado, e escuto-lhe os tiros fantasmas que ficaram ecoando por ali para a eternidade, com a sua paixão e o mesmo espírito.
Não resisto a contar aqui uma história vernácula que me foi por sua vez contada pelo velho Fonseca, que conheci bem e era ao tempo do nosso Escritor, caçador profissional e grande companheiro daquele, também um valente mariola como eram estes castiços personagens de que ele tanto gostava!
Uma vez alinharam para uma caçada ali na herdade do Vale da Ursa, com vários caçadores que não eram do grupo habitual e vindos de fora, presumivelmente de Lisboa.
O Fonseca, novo e seguro nas pernas como no seu mister, conhecedor profundo das voltas das perdizes, fazia a "ponta", sendo que o nosso Escritor, também conhecedor da matéria, fazia a "contra ponta", aliás como combinado entre eles, cúmplices na caçaria e na velhacaria!
O Fonseca lá foi conduzindo as coisas de forma a envolver um valente bando de perdizes que eles bem conheciam e sabiam das manhas, e a dirigir ambos, linha e vermelhudas, para um cabeço ainda hoje muito querençoso e celebrado pelas mesmas razões - o Cabeço da Cilha, nome milenar de uma antiga estrutura defensiva contra os ursos, não esquecer que se estava no Vale da Ursa.
O Fonseca, velhacamente, havia soprado ao companheiro: "Ó Dr. ponha-se a pau que hoje vamos "foder" aquelas perdizes à conta destes gajos de Lisboa!".
Levaram a linha a subir a encosta, fazendo o serviço todo, suando a canseira de envolver o outeiro, levando adiante de si o bando das perdizes, que se foram colocar na dobra prontas para o vôo salvador, como de costume. Só que dessa vez, usando a linha como batedores, os dois cúmplices rodearam a elevação por baixo e adiantando-se deram uma famosa "bicada" , ou seja, foram colocar-se de modo a ficar na fuga das perdizes saltadas adiante da linha, que os sobrevoariam… fazendo eles o gosto ao dedo e pregando um bigode aos "sacanas de Lisboa", como me contava com a boca aberta em riso desdentado e dando palmadas de entusiasmo no braço de um cadeirão, o velho Fonseca!
Outra nota, mais poética ouvi-a também a um velho caçador transmontano, tio de um bom amigo e companheiro meu:
Caçando lá pelo seu planalto e depois de um apurado trabalho de ambos e dos respectivos cães, a ferrarem as perdizes onde lhes seria favorável, por sinal numa grandiosa encosta de vista e largueza sublime, eis que estas rompem diante do Escritor, que ficou tolhido, de arma em baixo a vê-las ir.
Ao olhar de censura do companheiro, respondeu humilde: "Perdoa! Estava-se-me aqui a desenhar um poema!"
Eterno Miguel Torga!
Saudações com alma cá da Cidade Morena.
Escrevi Cilha mas devia ter escrito Silha … fica a correcção, espero que atempada!
Eliminaro que eu gostei do "estava-se-me aqui a desenhar um poema".
EliminarMas que programa tão interessante. Escapou-me algo, pois só neste momento tive conhecimento dele e, assim, com pena o perco.
ResponderEliminarE Torga é tão absolutamente bom... Lembro-me de começar a lê-lo e apaziguar-me com a língua portuguesa. Maravilhoso...
ResponderEliminarTão bom ler este comentário.
Eliminar⚘
Maria
Boa tarde,
ResponderEliminarPerdoe-se-me a publicidade...
Mas, como acho Miguel Torga "o maior Escritor Português do meu tempo", deixo aqui algumas ligações para Livros (iBooks) meus GRATUITOS, com fotos minhas e pequenos filmes meus, e com transcrições dos seus 16 DIÁRIOS.
Podem ser lidos/vistos em iPad, iPhone ou Mac, por quem for possuidor de um Apple ID (GRÁTIS).
Espaço Miguel Torga: https://itunes.apple.com/pt/book/espa%C3%A7o-miguel-torga/id1424289855?mt=11l
Poesias DIÁRIO I (há mais 15): https://itunes.apple.com/pt/book/poesias-di%C3%A1rio-i/id833731671?mt=11
Lugares do DIÁRIO I (há mais 15): https://itunes.apple.com/pt/book/miguel-torga-lugares-do-di%C3%A1rio-i/id879509547?mt=11
NATAL. POEMAS DE MIGUEL TORGA: https://itunes.apple.com/pt/book/natal-poemas-de-miguel-torga/id1435113949?mt=11
José Augusto Macedo do Couto
Porto
Obrigado pela sua partilha.
EliminarEm nome de Torga se perdoa a eventual publicidade.
Já conhecia, mas pela parte que me toca fez bem em aparecer.
Um Extraordinário abraço "Torguiano" cá da Cidade Morena.
PS - Não estou a comparar, mas à semelhança de Torga, para mim o benguelense Pepetela também incarna a alma das gentes de Angola. Podia muito bem ser candidato a um Nobel… penso eu.
Obrigado.
EliminarAgradeço e retribuo o Extraordinário abraço "Torguiano" desde esta Invicta Cidade do Porto.
Prêmio se lhe fez diferença, Miguel Torga o nome à distância e lastro. A estima e seus feitos entre: causa e causo. Se de um lado a pena o acolheu, de outro o cartucho lhe afirmou. A literatura de berço, ergue-se por entre diferentes paisagens a seara; passagem de catiços, solaios, lusitanos, portuguesas e mouros.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
EliminarPerdoem-me apenas esta singela correcção: o verdadeiro nome de Miguel Torga era Adolfo Correia da Rocha e não Adolfo Coelho da Rocha. Se bem que no poema "Ficha" o autor responda ainda por outro nome:
ResponderEliminarPoeta, sim, poeta...
É o meu nome.
Um nome de baptismo
Sem padrinhos...
O nome do meu próprio nascimento
O nome que ouvi sempre nos caminhos
Por onde me levava o sofrimento
Poeta, sem mais nada.
Sem nenhum apelido.
Um nome temerário,
Que enfrenta, solitário,
A solidão.
Uma estranha mistura
De praga e de gemido à mesma altura.
O eco de uma surda vibração.
Poeta, como santo ou assassino, ou rei.
Condição,
Profissão,
Identidade,
Numa palavra só, velha e sagrada,
Pela mão do destino, sem piedade,
Na minha própria carne tatuada.
Sem dúvida um dos maiores cultores da língua portuguesa ao lado de Aquilino, Camilo e Eça. Bichos, Contos da Montanha e Novos Contos da mesma, Poemas Ibéricos, sem falar no Diário. Acabei de ler a sua Fotobiografia da autoria da filha Clara Rocha, para melhor conhecer a obra e o homem.
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