Viva a poesia!

Hoje é Dia Mundial da Poesia! E aconselho os Extraordinários, mesmo os mais renitentes, a começarem o dia com um belo poema, pois garanto-vos que faz bem à alma (e melhor aos ouvidos que certas musicatas). Lisboa e o resto do País estão hoje cheios de actividades em torno da poesia, e a Casa Fernando Pessoa organiza, como noutros anos, uma Feira do Livro da Poesia em Campo d’Ourique, no Jardim da Parada, onde, além da venda de livros, haverá concertos e leituras de poemas, algumas das quais feitas por alunos da Universidade Sénior do bairro. Na casa do poeta maior, à Rua Coelho da Rocha, inaugurar-se-á também uma exposição sobre o poeta Camilo Pessanha (leiam este autor!), com curadoria de Pedro Barreiros e a grande Maria do Céu Guerra a ler poemas. No mesmo local, às 21h00, num espectáculo que dá pelo nome de Tabacaria, António Fonseca e seus convidados farão leituras encenadas em português e em crioulo de Cabo Verde do poema do mestre (julgo eu pelo título da sessão). E nos dias que se seguem haverá muito mais. Eu, também por causa da poesia que fiz para uma música de Bruno Fonseca para o CD Moça Morena, do projecto Rio-Lisboa, vou estar neste dia no B.Leleza a ouvir cantar poemas com misto de fado e bossa nova por muitas e belas vozes lusófonas! Leiam poesia. Ou ouçam-na.

Comentários

  1. Vou ler as Musas Cegas V do Herberto Helder que me acompanham sempre. Por outro lado, estamos a dar na universidade sénior que frequento Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).Em anos anteriores já demos a Natália e o Cesário Verde.Agora estou a ler RINGUE da Matilde Campilho.

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  2. «É nas linhas das mãos que os deuses escrevem/
    os mais belos romances. Nas nossas, porém, somente/
    elaboraram um divertimento, um esboço, um rascunho,/
    nem sequer literatura.»

    Esta é a parte final de um poema, de uma Senhora que muito admiro.
    Vem na página 63 de um dos meus livros de cabeceira.
    E Viva a Poesia!

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  3. Amo poesia ♡



    Cláudia da Silva Tomazi

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  4. Bom dia. De facto este é mais um dia que deveria ser celebrado todos os dias. E de alguma forma é, ainda que não seja objecto de propaganda. Pois o que mais nos habita, senão a poesia? Tudo é poesia e, ainda que se viva apressadamente, ninguém consegue ficar imune aos pequenos e quase imperceptíveis poemas que a Vida nos escreve a todos os instantes. Um gesto delicado, um olhar carinhoso, uma flor, uma ave, uma nuvem em forma de qualquer coisa que nos desperta os sentidos... Tudo, tudo é poesia. Por isso, porque não ler o dia, em vez de lermos a poesia?
    Obrigado.
    Um bom dia de Poesia.

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    1. Existe um lugar na cidade que Marco Polo não descreveu a Kublai Kan.
      Chega-se lá pelo barulho dos pássaros, é aliás o único mapa que se consulta de olhos fechados.
      Sobe toda uma colina, alinha com o Atlântico, de certo ângulo e com uma certa luz pode ver-se à esquerda uma cidade de nácar e opalas.
      Nesse lugar todos os dias são dias de poetas.
      Pela sombra das acácias estendem-se no chão pétalas de poemas buriladas pelas mãos dos mais finos artífices.
      E abrem-se folhas com esculturas, estranhas rosas dos ventos, estátuas de mármores palpitantes como se tivessem veias e vida.
      Lá se encontram os poetas antigos e novos e os murmúrios dos seus poemas a confundirem-se com o vento.
      Em dias generosos o céu e as casas vermelhas parecem oferecidos por Van Gogh, e o fundo marinho torna-nos cúmplices de toda uma gesta.
      Em dias de névoa, o cabo longínquo torna-se fantasma de si próprio e as nuvens criaturas de Fragonard, esses são os meus preferidos.
      Encho a alma, todos os bolsos da dita, de poemas, frases e palavras numa apropriação consentida.

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    2. Ninguém sabe melhor que tu, sábio Kublai, que nunca se deve confundir a cidade com o discurso que a descreve.

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  5. Por a poesia estar acima de todas as coisas visíveis e invisíveis, de todas as maldades e delírios, "colo" aqui a minha homenagem à poesia - que é ela tanto beleza como expressão de liberdade

    apelo à mátria

    Não passa um momento em que a mãe terra, essa mátria que nos deu à luz, não ruja um rugido altivo de leoa, soando neste tempo de trevas a arrependido e dorido. Não passa um momento em que o campo mais verde se arrepie e se descolore, tornando-se árido e desprovido de cor. Não tarda um momento em que as flores, de que te quero dar um ramo, se tornem murchas. Mãe! Que pátria é esta que te arrebanha os filhos? que campo é este que não nos sacia a fome? que costa é esta que não nos alimenta? que espaço aéreo é este, que nos levanta voo para outros lugares que não têm o nosso coração? que orvalho é este que tomou conta dos nossos seres? que enganos são estes, vagas esperanças, de que nos davam, uma e outra vez, como se de pepitas de ouro se tratasse, até se tornarem tantas que não as consegues contar? que alma é esta de que nos diziam não ser pequena? que bruma é esta pior do que a de alcácer, que acabou com o nosso encoberto colocando-nos a descoberto de todos os perigos e sevícias? que cobardia é esta que tomou os campos do nosso quintal? que sandice é esta que nos entontece o peito? que desfortuna é esta que impuseram às nossas cabeças? que correntes são estas que nos agrilhoam ao lugar de escravos? Mãe! eu não nasci para viver num tal lugar! Mãe! retorna-me prestes à terra para eu poder uma vez mais nascer e dizer com a força do primeiro grito, «eu quero um lugar mais alegre e viçoso para criar, e onde viver para morrer com fulgor e ganas!»

    Filho! ouve a poesia do silêncio, que pode ser em qualquer lugar!

    (© Viagem A Dali; 12/2017; Pedro A. Sande; pgs. 214-215)

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    1. António Luiz Pacheco21 de março de 2018 às 10:23

      Não sou grande leitor de poesia, mas aprecio aquela que entendo e me diz algo!
      É o caso, aplaudo Pedro!

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  6. Não sou grande leitor de poesia. Invejo o prazer estético daqueles que se deliciam com a poesia por exemplo do, que é Prémio Camões, Manuel António Pina (de quem adoro os ensaios, as crónicas e essa tão injustamente pouco lida novela que se chama "Os Papeis de K."). A poesia que me toca é a do Manuel Alegre; a de Herberto Hélder nada me diz. Limitações minhas. Com toda a sinceridade, e sem bajulações (honi soit qui mal y pense), o último grande poema que me lembro de ter lido é logo o primeiro da "Poesia Reunida" da nossa anfitriã. É um poema que dava para escrever uma novela !

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    1. E da Sophia, não gosta?
      Para mim a Sophia é Mozart.

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  7. Ainda bem que a poesia existe dentro dos homens, que só neles ela se diz e tem palavras.

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  8. E por não haver uma sem duas, tentando sensibilizar o Rui Águas para o gosto dos primórdios da prosa, já que não há prosa sem poesia, aqui vai:

    ave de publicação e nidificação!

    Todos os dias me publico
    Mantendo-me impublicado.
    Como se os pássaros
    Precisassem que lhes ensinassem
    O caminho
    Para os ninhos
    Onde nascerão as crias.
    Voei com as garças, os grous, os pelicanos,
    As cegonhas e as andorinhas,
    Por cima dos telhados,
    Dos desertos e do verde das planícies,
    Por sobre o mar
    E por sobre os rios,
    Voei,
    E ninguém teve de me ensinar
    Como me fazer ao caminho
    E muito menos
    Como fazer o ninho
    E alimentar as crias.

    Estão fortes
    Estas minhas asas
    De ave migratória
    Que nidifica
    O seu cantinho!

    A ave
    (Que nascerá no futuro)
    Desse ninho,
    Terá a argúcia da águia,
    O bico protetor do pelicano,
    A grandiosidade das asas da cegonha,
    A atenção noturna da coruja,
    A fluidez da arara,
    A alvura da pomba,
    A invisibilidade do corvo,
    A presteza da gaivota,
    A graciosidade da andorinha.
    (© Pedro A. Sande; Viagem A Dali; 12/2017; pg.152/270)

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  9. António Luiz Pacheco21 de março de 2018 às 10:30

    Vou então fazer a minha parte e partilhar poesia, da tal que gosto e me diz algo, mas vou tentar ser original e trazer um poeta talvez pouco conhecido, Ernesto Lara , natural desta terra que me acolheu e onde me sinto bem, que é Benguela:

    Poema da Praia Morena

    Benguela
    tinha tico-tico e colo-colo
    nesse tempo
    mesmo na Praia Morena

    E o Mar
    escondia
    jamantas terríveis

    E tinha
    Carangueijos,
    santolas,
    que a gente caçava com fisga.

    Foi o filho do Rodrigues
    despachante
    que ensinou

    Nada se perdeu
    o búzio ali está na mezinha de cabeceira
    zunindo histórias,
    fazendo lembrar
    o menino que eu fui.


    Poema da Praia Morena
    In: Ernesto Lara Filho. O Canto do Matrindinde.
    Lobito, Editorial Capricórnio, 1974

    Nota existe uma belíssima interpretação musicada, não sei por quem e nem consigo descobrir, mas às vezes passa na rádio!

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  10. A poesia foi para mim (e continua a ser) uma das mais belas descobertas.
    Ainda que tenha muito apreço por autores estrangeiros como Rilke, Eliot, Cummings, Allan Poe e tantos outros, não me deixo de me deliciar com o que é nosso. Aliás, descrevo muitas vezes o nosso povo (a quem vem de fora) como o dos poetas. Estarei errada?

    Aqui fica este belíssimo do Teixeira de Pascoaes

    O poeta

    Ninguém contempla as cousas, admirado.
    Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...
    E se olho a flor, a estrela, o céu doirado,
    Que infinda comoção me faz sonhar!

    É tudo para mim extraordinário!
    Uma pedra é fantástica! Alto monte
    Terra viva, a sangrar, como um Calvário
    E branco espectro, ao luar, a minha fonte!

    É tudo luz e voz! Tudo me fala!
    Ouço lamúrias de almas, no arvoredo,
    Quando a tarde, tão lívida, se cala,
    Porque adivinha a noite e lhe tem medo.

    Não posso abrir os olhos sem abrir
    Meu coração à dor e à alegria.
    Cada cousa nos sabe transmitir
    Uma estranha e quimérica harmonia!

    É bem certo que tu, meu coração,
    Participas de toda a Natureza.
    Tens montanhas, na tua solidão,
    E crepúsculos negros de tristeza!

    As cousas que me cercam, silenciosas,
    São almas, a chorar, que me procuram.
    Quantas vagas palavras misteriosas,
    Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!

    Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
    Beijam meus olhos sombras de mistério.
    Sinto que perco, às vezes, os sentidos
    E que vou flutuar num rio aéreo...

    Sinto-me sonho, aspiração, saudade,
    E lágrima voando e alada cruz...
    E rasteirinha sombra de humildade,
    Que é, para Deus, a verdadeira luz.

    Maria

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  11. “...
    E quando o poema é bom
    não te aperta a mão:
    aperta-te a garganta”

    ANA HATHERLY
    (2003)

    Isabel

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