O papel do acaso

O acaso, escreve Antonio Muñoz Molina numa interessantíssima crónica do El Pais, é uma espécie de bibliotecário cego e altamente eficiente, que não pára de lhe oferecer novidades surpreendentes às quais nunca teria chegado através do algoritmo da Amazon que, sendo a sua curiosidade “variada e caprichosa”, fica tão confuso com as suas buscas que acaba por sugerir-lhe uma coisa qualquer sem critério e, normalmente, desinteressante. O acaso, por seu turno, nunca se engana – Muñoz Molina chama-lhe um bibliotecário anárquico que não vai na conversa da moda nem obedece a temas actuais e que tem como aliados os quiosques de rua que vendem livros e as livrarias de livros em segunda mão (refere-se a Manhattan, pois é lá que ensina – e conta que os alunos nunca dão por estas preciosidades que custam, no máximo, cinco dólares, pois vão sempre agarrados aos telemóveis). E a seguir diz que, numa feirinha que existe aos sábados na rua lateral à Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, encontrou uma antologia de textos de Michaux numa edição da Gallimard que decidiu comprar e que, embora antes não tivesse qualquer intenção de ler Michaux, o Michaux impôs-se-lhe e mudou o rumo das suas leituras. O mesmo aconteceu com outro livro comprado na rua a caminho da inauguração de uma exposição; chegou atrasadíssimo e viu-a em vinte minutos, a correr, e aborrecido de morte. Mas no regresso a casa, de autocarro, consolou-se com o livrinho que tinha comprado... num desses quiosques do acaso.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco5 de março de 2018 às 01:23

    Pois eu não acredito no acaso!
    Tudo está escrito, predestinado e faz parte de uma engrenagem universal, cósmica, na qual estamos inseridos.
    O que chamamos acaso é o inesperado, aquilo que não dominamos - como se pudéssemos dominar alguma coisa, por vezes nem a nós mesmo dominamos! E o acaso faz muitas vezes bem as coisas, diz-se... pois, lá está, porque não é por acaso!

    E acredito ainda na lei do retorno, uma acção gera uma reacção. Esta não é imediata, mas verifica-se, acaba por se dar quando tiver que ser, não por acaso ou no imediato pois isso iria alterar a ordem, mas quando for a altura, até porque nada acontece isoladamente.

    Ao contrário dos cépticos, cada vez mais acredito nisto.

    Saudações Cósmicas cá da Cidade Morena!

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  2. E sem ser preciso dispender milhares em escaparates e publicidade!

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  3. Também eu já comprei um livro nessa rua do Chiado de que andava à procura: o ensaio biográfico de Stefan Zweig "Três Poetas da Própria Existência" - Casanova, Stendhal, Tolstoi.Ás vezes o acaso existe mesmo.

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  4. Cheio de graça o post de hoje. De tanto frisar longa estima o bibliotcário se lhe fica agradcido! Entre tanto, cada qual puxa brasa a sua sardinha.


    CST

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    1. António Luiz Pacheco5 de março de 2018 às 03:55

      Caríssima Cláudia, ocasional ou casual, e, o acaso são para mim coisas diferentes... creio que me entende. Aliás e como se diz, a ocasião faz o ladrão, ou neste caso o leitor, eheheh!

      Saudações sardinheiras cá da Cidade Morena!

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  5. O acaso pode ser bom, com e sem livros.:)

    Mesmo para quem não gosta de surpresas.

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  6. Neste caso é um acaso aplicado aos livros. Mas há acasos muito outra coisa. Para bem, mal e assim assim. O acaso nosso é, tanta vez, a determinação de outrém.

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