Anti-biblioteca

Pouco tempo depois da morte de Eduardo Prado Coelho, a Casa Fernando Pessoa organizou uma homenagem ao crítico e professor, em que amigos, conhecidos e admiradores liam excertos ou pequenos textos da sua autoria. Na ocasião, escolhi uma crónica que tinha que ver com o facto de uma biblioteca só ser realmente uma coisa interessante quando existem nela tantos livros não lidos como livros lidos. (Se pensarmos bem, os livros lidos que não sejam obras de consulta são, afinal, os mais inúteis que lá estão…) Foi também esta ideia que encontrei recentemente num artigo de Jessica Stillman sobre o facto de nunca nos devermos sentir culpados por nas nossas estantes haver tantos volumes não lidos. A autora do artigo cita, de resto,  o autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb, que chama ao conjunto destes livros não lidos uma «anti-biblioteca» e diz que todos precisamos de uma para nos lembrar constantemente de tudo o que ainda não sabemos (Umberto Eco também dizia isto). A anti-biblioteca, ao que parece, vai crescendo com a idade do dono e, quanto mais conhecimentos este adquire, mais livros não lidos acumulará. Às tantas, esses livros não lidos (tantos, tantos) vão parecer até ameaçadores, mas o melhor é não nos sentirmos culpados, porque a nossa biblioteca, segundo o artigo, nunca deve ser um mostruário do que lemos que acene aos outros a nossa cultura, mas um repositório daquilo que em algum momento nos despertou curiosidade e interesse e quisemos – ou ainda queremos – saber. Gosto da ideia.

Comentários

  1. Não sei se vem a propósito ou não, está para sair um novo livro de Alberto Manguel "Embalando a Minha Biblioteca" que tem actualmente 30.000 livros. É claro que ele não os leu todos, mas que consultou quase todos tenho a certeza. Dos não lidos vou-me desfazendo aos poucos doando-os a uma biblioteca para outros os lerem.

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    1. Já saíu (recebi-o directamente da Tinta da China no dia 16) e é um livro maravilhoso, altamente recomendável para quem ama os livros, ou seja, todos os Extraordinários deste blog.
      A propósito da transferência da sua biblioteca de 35 mil livros de França para o Canadá, Alberto Manguel escreveu esta pérola, que eu já li e vou reler muitas vezes, ainda que em detrimento de outros que vão ficar à espera...

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    2. Obrigado pela informação. Vou já comprar sem demora. Sou fã do Manguel.

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  2. António Luiz Pacheco19 de março de 2018 às 02:49

    Ora, uma biblioteca é para ter livros, se foram ou não lidos, parece-me secundário... porque como em tudo na vida, de intenções de leitura se faz uma biblioteca!
    Li uma vez, não sei em que livro nem de que autor, uma conversa semelhante, em que alguém perguntava se já tinha lido aqueles livros todos, sendo a resposta: e quem ter uma biblioteca só com livros lidos?

    Saudações pluviosas cá da Cidade Morena!

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  3. Agrada-me a ideia de uma biblioteca ter mais livros por ler que livros lidos. Sugere-me um bosque que vamos atravessando onde nos prendemos a esta árvore e àquela sabendo que há mais que não conhecemos ainda e muitas outras que nunca conheceremos. Uma biblioteca à maneira do Extraordinário Pacheco. A ideia de que os livros lidos são coisa inútil, essa já não me agrada. Quantas vezes fico a olhar para a lombada de um livro que li e que contou muito para mim e nisso me perco em felizes devaneios.
    A todos desejo boas leituras num afã de devorar a biblioteca toda como se tal fosse possível.

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    1. António Luiz Pacheco19 de março de 2018 às 03:24

      E o prazer renovado em reler aquelas passagens, ou uma obra inteira, que nos agradaram particularmente? É coisa que faço frequentemente, voltar a ler o que já li mesmo que em detrimento de novas leituras.
      Um abraço!

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    2. Gostei muito do paralelismo.
      Suzana Silva

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  4. Concordo Rosário. Gostaria muitíssimo que houvesse algum modo de despertar nas pessoas mais interesse na leitura, na literatura ou no gosto de pesquisar livros e que perdessem a distância ou o medo. As vezes percebo que ausência de leitura causa impacto gravíssimo no pensamento humano. Seria bom ter no semelhante a certeza da plenitude.



    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. António Luiz Pacheco19 de março de 2018 às 05:10

      Inteiramente de acordo... uma mente de quem não leia, será mais vazia, certamente. E, não adianta argumentar que há quem tenha a mente cheia e não lê - claro que há e bem o sabemos, todos nós conhecemos gente que não lendo tem todavia conhecimentos e pensa!
      No entanto, se essas pessoas lessem, o que seriam as suas mentes? Ou ainda, mais cedo teriam atingido esse estágio de saber.
      Enfim, é o que eu penso...
      Saudações cá deste lado do Atlântico!

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  5. Tal qual a minha Biblioteca.
    E é assim que - apesar de eventuais remorsos - gosto de a ver...
    Bom dia.

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  6. De alguma maneira, a nossa Biblioteca é também uma forma de nos sentirmos imortais...
    Na sua imensidão inexplorada imaginamos-nos vivos lendo pela Eternidade...

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  7. Gosto de ter na minha biblioteca livros lidos e não lidos, os que aguardam.
    Já os que iniciei e não conclui, não faço questão de os manter por lá. Posso dá-los ou troca-los, a quem os considere mais interessantes. Até para ter novamente espaço para todos os outros.

    Suzana Silva

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  8. Gosto de ter na minha biblioteca livros lidos e não lidos, os que aguardam.
    Já os que iniciei e não conclui, não faço questão de os manter por lá. Posso dá-los ou troca-los, a quem os considere mais interessantes. Até, para ter, novamente espaço para todos os outros.

    Suzana Silva

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  9. Luísa Barbosa 19.03.2018:

    Ai que bom foi ler este texto. Para eliminar os remorsos !

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  10. A propósito do acervo da nossa biblioteca:

    "Tenho cinco mil livros e há sempre o imbecil do costume que entra e diz: quantos livros tem, leu-os todos? E o que é que eu respondo? nenhum, de outro modo porque os guardaria aqui? O Senhor porventura costuma guardar as latas de conserva depois de as esvaziar? Os cinquenta mil que já li ofereci-os a prisões e hospitais. E o imbecil estremece."
    Umberto Eco - "A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA"

    "O livro é um vício, enquanto a leitura é uma consolação"
    António Mega Ferreira - "A BORBOLETA DE NABOKOV"

    "Ter livros e não os ler é como ter frutos num quadro" - Diógenes
    do livro "BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS"

    "Depois do prazer de possuir livros, não há outro que seja mais doce do que falar sobre eles"-Charles Nodier - 1780-1844 Escritor e Bibliotecário francês
    do livro "BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS"

    "Um filme envelhece mais do que um livro"
    Conta Corrente I - Vergílio Ferreira

    "Comprar um livro, tê-lo era um prazer que era anterior ao de o ler...
    Conta Corrente nova série IV - Vergílio Ferreira


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    1. "À medida que mergulhamos neles, experimentamos uma sensação de acalmia e de contemplação, bem estar, um palpitar sereno no coração da sua melodia, num mundo irreal situado muito para além deste mundo cheio de frivolidades."- Stephen Zweig (1881-1942).

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  11. É um problema que todos os que gostam de ler e de ter livros, sentem.

    Tenho um amigo que quase só lê livros das bibliotecas, onde é leitor. A sua biblioteca resume-se a menos de uma centena de livros, e têm de ser mesmo muito especiais para não se desfazer deles...

    Às vezes gostava de ser assim, outras nem por isso...

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  12. «Sendo casa modesta, o seu estreito corredor separa dois mundos. À esquerda de quem entra: Uma pequena estrutura de tábuas apoiadas em tijolos, onde alguns livros descansam, outros empoeiram e todos vigiam a sobriedade na sala [...]»

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  13. Não partilho a perspectiva. Primeiro porque não tenho uma biblioteca, tenho sim alguns livros que vou comprando e lendo. Não são todos os que li. Muitos dos que compro, os que mais gosto, dou-os a quem penso que os aprecia ou a quem julgo que posso, com eles, ajudar de alguma forma; a princípio custou um bocadinho, mas um livro bom na minha estante é uma pena, um desperdício. E leio desde sempre livros emprestados. Salvaguardo os que me dão e os que têm dedicatórias especiais - do escritor ou do doador- e que olho de apetite. Também exceptuo autores que cultivo em estufa própria e de quem ambiciono ter todas as obras (não tenho de nenhum, mas pronto, ambiciono) E também os livros de poesia, que não são muito apreciados pelas minhas relações e de que gosto particularmente; além disso, à poesia volta-se sempre, uma e outra vez; tê-la à mão - mesmo se a não leia - faz-me bem às meninges. Suponho que quando morra, deixarei uns dois ou três livros comprados e ainda por ler. Que é mais ou menos o que me acontece desde que compro livros.
    Creio que sim, pelos livros que tenho, podem avaliar-se as minhas preferências de leitora.

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  14. É uma boa perspectiva! Eu tenho alguns livros não lidos e sim, já me senti culpada de os ter lá, na altura eu tinha mesmo de os ter porque de alguma maneira me despertou a curiosidade mas visto que ainda lá estão é porque ainda hoje algum interesse me desperta.

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  15. Li esse artigo e achei interessante. Primeiro fez me sentir menos culpada de comprar e não ler logo. E segundo achei interessante a ideia, de facto quando compramos mostra que pelo menos temos a intenção. E só isso já tem valor, e também estatisticamente um dia iremos pegar nesse livro mais não seja na falta de material por aborrecimento.

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  16. Boa, já me sinto menos culpada por metade da minha biblioteca estar por ler :)

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  17. E depois há bibliotecas de família! No meu caso, o meu pai tem uma biblioteca que nunca mais acaba, de livros lidos e não lidos, desde a mais tenra idade até agora, a meio dos cinquenta. Gosto de pensar que, ao aceder a essa biblioteca, posso pegar nos livros e pensar que alguém de quem gosto também terá passado por ali os olhos, nalguma fase da sua vida, por causa de algum trabalho da universidade, uma tese de mestrado, tempo de lazer, necessidade de consulta para o trabalho, curiosidade sobre algum tema de interesse... Os livros contam ainda mais do que o que contêm!

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  18. A autora do artigo cita, de resto, o autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb, que chama ao conjunto destes livros não lidos uma «anti-biblioteca» e diz que todos precisamos de uma para nos lembrar constantemente de tudo o que ainda não sabemos (Umberto Eco também dizia isto).

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