Outro sítio no mesmo sítio
Os Portugueses, ao que leio e ouço, gostam de entupir as urgências dos hospitais com casos que poderiam, na grande maioria das vezes, ser resolvidos por telefone (há um número para isso e, segundo sei, até é bastante eficaz) ou, quando muito, nos respectivos Centros de Saúde. Mas este não é assunto para um blogue de livros e apenas me lembrei dele a propósito de um e-mail que recebi recentemente da Casa Fernando Pessoa. Sim, recebo uma newsletter da casa do poeta regularmente, com a programação semanal ou mensal e as várias actividades, mas desta vez tratava-se tão-só de me avisarem que o site da Casa (ou sítio, se preferirem), apesar de continuar na morada de sempre, era já outro. Fui espiolhar e aconselho quem se interesse a fazer a mesmíssima coisa, mas não são as mudanças (algumas de pormenor) que aqui me trazem hoje. É que, nesse anúncio sobre o novo look, dizia-se ainda: «Visite-nos antes de nos visitar.» Será que, com esta onda de turismo lisboeta, aparecem chusmas de visitantes de todas as partes do mundo que é preciso travar, como acontece nas urgências dos hospitais?...
(Via Inês Ramos)
ResponderEliminarRecebido há momentos por e-mail, do José Luiz Tavares, com a indicação: Lede e meditai.
UM AMARGO DIA MUNDIAL DA POESIA
Ontem, dia mundial da poesia (e da luta contra a discriminação racial), dirigi-me à Casa Fernando Pessoa, em campo de ourique, onde se ia proceder à leitura de Tabacaria em língua caboverdeana e ao lançamento duma edição bilingue, promovida por uma associação de afro-descendentes de lisboa. Afazeres pouco poéticos fizeram com que eu chegasse alguns minutos depois da hora aprazada para o início da sessão. Uma tarjeta amarela, em inglês e português (Pessoa teria gostado), avisava que não seriam permitidas mais entradas. Remoendo as minhas razões, resolvi tocar à campainha. Logo um diligente vigilante acudiu à porta, dizendo educadamente que por razões de segurança não seriam admitidas mais entradas.
Não sei quem dirige hoje a Casa Fernando Pessoa, nem quem lá trabalha, mas pedi ao vigilante se podia chamar alguém responsável, pois poderia ser alguém que eu conhecesse, dado que em tempos fui assíduo frequentador da Casa, concebi um programa para uma quinzena da cultura caboverdeana, fui convidado de um dia mundial da poesia, onde recitei excertos da Ode Marítima taduzida por mim para caboverdeano (numa casa cheíssima, com gente até nas escadas), fui convidado de um «Dias do Desassossego», com escritores brasileiros e portugueses (sendo um 10 de junho, fiz a minha abertura com um soneto de Camões traduzido por mim para caboverdeano), a biblioteca da casa possui alguns dos meus livros, por mim oferecidos, sou tradutor de Pessoa para o caboverdeano, utilizando o seu alfabeto oficial (uma antologia intitulada Na Sol di Nhas Angústia esteve pronta para sair em 2007, aquando da passagem de Francisco José Viegas pela casa e ainda hoje aguarda edição), ainda a semana passada o número de inverno da revista LER, dirigida pelo mesmo Fancisco José Viegas, publicou uma montagem minha da Ode Marítima em caboverdeano, razões não para ter algum tratamento privilegiado, mas apenas justificativas do interesse que eu tinha naquela sessão onde seria lido e apresentado Tabacaria na minha língua materna, poema que eu próprio traduzi em 2007, e que aqui vos ofereço na versão de então.
Passados instantes entrevi, pela fresta da porta meio aberta, uma senhora de fogachos loiros nos cabelos, que entretanto descera até ao patamar da recepção, falar com o vigilante, acenando que não com a cabeça. Logo este se dirigiu a mim, que se encontrava do lado de fora, dizendo: «Lamentamos, cavalheiro, por razões de segurança...». Gostei muito, eu simples poeta, de ser tratado por «cavalheiro», pois a minha aparência não deixava dúvidas: devido ao frio eu vinha trajado de sobretudo castanho-claro, finas luvas castanho-escuro, cachecol verde-escuro, chapéu preto à Pessoa. Quando já ia embora pelo passeio do outro lado da rua, sorrindo como o Esteves sem metafísica, vi aproximarem-se duas senhoras, cujo tez ainda divisei no lusco-fusco de fim de inverno, e sem delongas sumiram casa adentro. Sorri mais uma vez, com um sorriso triste, alvitrando, para meu consolo, que talvez se tratasse do múltiplo Fernando, reencarnado, não heteronimicamente mas em carne e osso, em femininas figuras, e teria vindo indagar ao que vinha tanta gente de pele escura e linguajar estranho.
Aconteceu num dia mundial da poesia – e sou poeta. Aconteceu na cidade de lisboa – e dediquei-lhe em livro um monumento de palavras intitulado Lisbon Blues. Foi no bairro de campo de ourique, e estavam os meus livros numa feira no jardim da parada. Aconteceu na Casa Fernando Pessoa, e sou tradutor dele. Foi num dia mundial contra a discriminação racial e senti-me profundamente preto.
Lisboa, 22 de março de 2018,
JoséLuiz Tavares
Que episódio mais triste... Nós que somos o povo da plasticidade e do desenrasca. Fiquei com uma dúvida: será que o José Luíz Tavares disse quem era e ao que ia ?
EliminarE será preciso de dizermos quem somos? O ser humano só por si não é importante?
EliminarO ser humano será realmente o mais importante, mas, neste caso...
EliminarAceitando que razões de segurança justificavam não deixar entrar mais público, e já passando da hora, parece-me pertinente que o orador da sessão referisse quem era ao porteiro.
EliminarÓ Caro AA comungo da mesma opinião!
EliminarO porteiro devia ser pessoa importante. A directora da instituição é que devia ter sido chamada.
EliminarNeste caso é preto...
EliminarTriste. Fiquei a pensar na razão que fez entrar as duas senhoras que chegaram depois. Por serem femininas a segurança não ficava comprometida?! O facto é que chegou depois do início. Identificando-se, quem sabe se não teria entrado.
EliminarPortugal é um mundo muito sui generis, certa vez atrasei-me para uma conferência e fui falar com quem supus que supervisionava. Sorriram, deram-me uns quantos livros, descansaram-me quanto ao atraso e mandaram-me sentar à frente. Julguei que os livros eram dados a toda a plateia - achei a ideia bem simpática nestes tempos de crise - e reparei que os meus colegas de cadeira olhavam muito para mim.
Depois do intervalo, abandonei o lugar da frente, juntei-me a colegas que conhecia e mostrei-lhes os livros. Elas...ah, nós não recebemos nada, mas também chegámos atrasadas. E foram pedi-los à mesa da supervisão. Que não podiam, eram só para os conferencistas. Toma!...
Não me espanta o episódio, lamentável... mas provocado pela modéstia excessiva do seu relator.
EliminarÉ para reflectirem, os organizadores de eventos, que normalmente são elitistas, sim!
Os nossos intelectuais, ou proto-intelectuais, são elitistas em extremo, e essa das "razões de segurança" cheiram-me a elitismo e pior, ao racismo dos anti-racistas!
Saudações de um racista por consequência anti-racista, cá da Cidade Morena!
Em relação à identificação, há seguranças que depois de nos identificarmos, são capazes de dizer que «tenha paciência, não entra mais ninguém, nem mesmo o Presidente da República» (talvez agora com o Marcelo "este disco mude", porque até os seguranças se devem pelar por tirar uma "selfie" com o nosso "maior Ajax".
EliminarBem a razão para travar as "chumas" de pacientes nas urgências dos hospitais é que muitos deles não terão doença com gravidade que o justifique.
ResponderEliminarE qual será a razão para travar as «chusmas de visitantes de todas as partes do mundo»? Não terão grau de interesse que o justifique? Não terão grau de cultura que o justifique?
Comparação infeliz, a meu ver.
Contudo, a "bicha" para os pastéis de nata (em Belém) tem quase sempre quilómetros...
EliminarÉ de uma estupidez deprimente que, num assunto tão sério como este, os comentadorzinhos desta chafarica façam humor com enfermidades e pastéis de nata. Não são capazes de melhor.
ResponderEliminarO caso relatado no primeiro comentário é muito sério, sim. Mas que tal aceitar que se pode comentar apenas o post, sem comentar o primeiro comentário?
EliminarTalvez a organização da Casa FP prefira que os visitantes comecem pelo site e assim se informem de pormenores evitando perguntas inúteis e agilizando a visita pessoal caso a oferta interesse. É um "saber ao que se vai" sem tenteados.
ResponderEliminarNão fazia ideia de que tal lugar tivesse assim tanta visita.