Pau de dois bicos

Estive recentemente no Luxemburgo para participar numa espécie de entrevista ao vivo no Salão do Livro (o jornalista era José Luís Correia, que fez belas perguntas) e ir a uma escola falar com crianças portuguesas. Já tinha lá estado uma vez, há uma dezena de anos, e chegara à mesma conclusão: os meninos e meninas nascidos já no Luxemburgo falam um português excelente, o que não acontece, por exemplo, com os filhos de imigrantes portugueses em França ou na Alemanha, que comunicam na língua do país de adopção e cujo português (talvez seja o que ouvem aos pais) está já francamente aculturado. Noutra entrevista que me fizeram para a rádio, mencionei esta ligação das crianças às suas raízes e à língua materna num tom francamente elogioso. Porém, num encontro com um deputado eleito pelos portugueses residentes na Europa, a quem disse exactamente o mesmo, ele tirou-me a venda dos olhos: disse-me que, em muitos casos, o facto de  falarem o português sem interferências (do luxemburguês, do alemão, do francês) significava, infelizmente, que a integração não se tinha feito... Um pau de dois bicos, portanto.


 


 

Comentários

  1. Percebo bem... Porém, na perspectiva contrária, a da integração na língua portuguesa.

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  2. Bom fim de semana!
    A integração, para quem pensa regressar, também não tem que ser definitiva e completa.
    Mas, pessoalmente, acho que é muito interessante crianças e jovens terem uma experiência de estudo nesses países de alguns anos, mesmo que aí não tenham nascido. Quando nascem, o retorno deve ser sempre mais traumático, dependendo da idade em que ocorra.

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  3. Bom dia, no correr d'água noutra bica... coincidentemente ontem mencionei o pequeno país Luxemburgo. Expliquei ser assunto bem simples requisitar a cidadania conforme tios e primos já o fizeram e assim o querem os luxemburgueses, acolher descendência (extraviada) se lhe facilitando trâmites.



    Cláudia da Silva Tomazi

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  4. Bem, com 25 anos de experiência de vida na Alemanha, onde inclusive já dei aulas às crianças portuguesas, tenho uma teoria diferente do Sr. deputado. O Luxemburgo (que também já visitei) é um país muito pequeno e onde há muitos portugueses. Estes não serão mais do que os luxemburgueses, na totalidade, mas há localidades com percentagens de 60%, ou mais, de habitantes portugueses, ou seja, são mesmo mais do que os locais. Acresce que as localidades, em geral, são pequenas, têm de 1000 a 5000 habitantes. Penso, por isso, que há mais convívio entre os portugueses que lá vivem e a nossa língua é mais falada, o que não quer dizer que não estejam integrados no país. Numa das minhas estadias no Luxemburgo, fui visitar um castelo medieval e, no recinto, que era enorme, vi muitas crianças que tinham feito a primeira comunhão, a tirar fotografias com as famílias. E até comentei com o meu marido: «que engraçado, parecem portugueses, os luxemburgueses têm, pelos vistos, os mesmos hábitos». Isto foi antes de constatar que eram de facto crianças e famílias portuguesas. Todas! Em 25 anos de Alemanha, nunca se me deparou tal.
    A Alemanha e a França são países enormes, os portugueses estão muito espalhados, as diferentes famílias não convivem tanto umas com as outras, a nossa língua deixa de ser falada. Talvez esta seja uma explicação. O Luxemburgo parece uma ilha portuguesa no centro da Europa.

    Cristina Torrão

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    1. Clara, lúcida, conhecedora e lógica explicação!

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    2. Obrigada, ASeve.

      Queria apenas acrescentar que me distancio das opiniões que, tanto o ASeve, como o António Luiz Pacheco, expressam quanto ao deputado em questão, desculpem. Uma coisa é discordar, outra é denominá-lo de "ignorante", ou usar outro tipo de linguagem agressiva.

      Também discordo da tese de que os portugueses se adaptam melhor do que outros povos, tenham lá paciência!

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    3. Peço imensa desculpa, ASeve, na minha pressa, confundi-o com o autor do comentário mais abaixo. O ASeve não expressou qualquer juízo sobre deputados.

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  5. António Luiz Pacheco16 de março de 2018 às 11:13

    Os portugueses são dos povos que mais se integram, para não dizer que É o povo que mais se integra! O senhor deputado deveria saber disso...
    Por outro lado, não concordo mesmo nada! Tenho sobrinhos nascidos ou que vivem ou viveram, na Bélgica, Inglaterra, EUA, Espanha... são bílingues, falando correctamente a língua-mãe e castelhano ou inglês (por acaso francês não!). São integrados... o meu sobrinho p.e. depois de ter feito mestrado na Austrália e Bélgica, quer ir fazer doutoramento na Austrália e ficar por lá...
    Não concordo mesmo nada! Não nos confundam com os magrebinos e islamitas em geral, com os africanos, gente que nunca se integra! Vejo a declaração do tal deputado como insultuosa e manifestamente ignorante.
    Mas é a minha opinião... vale o que vale!

    Saudações expatriadas cá da Cidade Morena.

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    1. O meu marido tem um colega marroquino, muçulmano, funcionário público na Alemanha, perfeitamente integrado. É dos colegas mais trabalhadores e cooperantes!

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    2. António Luiz Pacheco18 de março de 2018 às 04:57

      UM marroquino, num Universo de centenas de milhar não faz a regra, é antes a excepção que a confirma!
      Chamei ignorante ao deputado, pois é o que se me afigura quando alguém faz a afirmação que ele fez quanto ao facto de as crianças luxemburguesas falarem bem a língua materna, ignora por exemplo que há muita gente bílingue... ou não há?
      Explique-me lá essa de que a capacidade de integração dos portugueses não é o que eu digo: única! Dê-me lá exemplos de quem tenha uma capacidade de integração como a nossa, de que aliás julgo a Cristina é um exemplo... aliás e como mulher da história devia sabê-lo bem, fomos quem criou a globalização, já se escreveu sobre isso. A nossa culinária, o folclore, a toponímia, a história está cheia desses exemplos assim como a nossa diáspora espalhada e integrada pelo Mundo inteiro.
      Mas é normal que discorde de mim... já estamos habituados.
      Bom fim-de-semana, eu vou integrar-me num dia chuvoso,numa "sentada" como se diz aqui e vou até participar com um cebiche à peruana!

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    3. Ahahaha! De entre milhares de marroquinos neste país, fomos logo dar com a exceção! Isto é que é ter pontaria! Acho que temos de começar a jogar no Euromilhões.


      CT

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  6. Acho que uma coisa pode não ter que ver com a outra.

    Poderão existir mais escolas de português e os pais podem fazer questão de em casa só falaram português, para que eles não esqueçam as origens. Estes dois casos não têm nada que ver com "integração"...

    Infelizmente o que não falta no nosso parlamento são deputados ignorantes, que por exemplo, não fazem um mínimo esforço para saberem o que se passa nos distritos que os elegeram...

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  7. «Mais de 92 mil cidadãos de nacionalidade portuguesa vivem no Luxemburgo, o que equivale a mais de 16% da população residente no país. Para além destes, há que contar com a segunda e terceira gerações de portugueses».
    https://eco.pt/2017/05/23/por-que-ha-tantos-portugueses-no-luxemburgo-1-999-euros/
    O Luxemburgo tem cerca de meio milhão de habitantes.

    Em comparação:
    «No ano de 2015 residiam na Alemanha 133,929 cidadãos portugueses, diz o relatório do Observatório da Emigração».
    http://bomdia.eu/alemanha/quantos-portugueses-residem-na-alemanha/
    A Alemanha tem cerca de 82 milhões de habitantes.

    Em, França, os portugueses «são mais de um milhão».
    https://www.rtp.pt/noticias/pais/em-franca-vive-a-maior-comunidade-portuguesa-emigrantes_v923775
    A França tem cerca de 67 milhões de habitantes.

    São realidades completamente diferentes que, sem dúvida, terão de ser consideradas, quanto à problemática referida no post. Estarem melhor ou pior integrados é com certeza uma explicação demasiado simples.

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