Livros?

Um dia destes, fiquei estarrecida com uma menina de uns três ou quatro anos que abancou na mesa de uma cafetaria com os pais e uma irmã mais velha, pôs num segundo uns auscultadores verdes fosforescentes, abriu um Mac portátil daqueles muito fininhos, ligou-o, pousou-o na mesa e desapareceu dali para parte incerta até chegar um prato de esparguete à bolonhesa uns vinte minutos mais tarde... Assustador, garanto, um alheamento inacreditável (e os pais nada ralados com isso, claro). Este tipo de comportamento explica, aliás, porque se fazem piadas como aquela em que dois miúdos andam à procura das pilhas num livro... Mas entre as coisas inventadas com humor e a realidade é, infelizmente, um passinho miúdo. A escritora Luísa Costa Gomes partilhou na sua página do Facebook um anúncio que estava na OLX no dia 22 de Dezembro último e que deve fazer-nos reflectir sobre os tempos que atravessamos. Começava assim: “Vendo livro novo para quem gosta de ler tipo romances.” (A redacção é, já de si, bastante má e oral...) E, depois da fotografia do dito romance (na verdade, imagens da capa e contracapa de uma obra intitulada Shangai Baby, de Wei Hui, em inglês), a conversa era esta (cito): “vendo um bom livro de romance supostamente está novo nunca foi lido. troco por tsirts tm de marca em bom estado.” Enfim, nem sei para que continuo eu a fazer livros…


 

Comentários

  1. Bom dia.
    Continua a fazer livros, sobretudo porque gosta de livros. Depois, porque é a coisa que mais gosta de fazer, eventualmente depois da que é escrevê-los. Lê-los também deve estar num mesmo patamar. Descobrir novas formas de dizer ou novas facetas do Mundo, sobretudo quando são positivamente surpreendente, também deve ser uma das razões.
    Enfim, continue a fazer livros.
    Que sejam bons.
    Isso, vale certamente por tudo.
    Um Bom Ano de bons livros e de algumas/muitas dúvidas bem resolvidas.

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  2. ...porque, felizmente, nem toda a gente é assim :). Porque a esperança na leitura e nos livros nunca morre. Porque, e nós o provamos aqui, mesmo poucos, vamos sobreviver. E depois logo se vê. Mas há-de haver continuidade:).

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  3. Um novo mundo está a nascer, uma nova geração, não necessariamente mais adulta mas, também, não necessariamente menos culta ou conhecedora. Terminei hoje a leitura do último livro do Gonçalo Tavares, A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado. Uma leitura não necessariamente adulta, mas não necessariamente inculta. Um grande escritor mesmo quando a escrita resvala na incompreensão da própria escrita. A escrita está dentro de nós, dentro da nossa própria realidade. Talvez este tempo necessite de uma nova compreensão, de uma reelaboração do que é o livro e a leitura.

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    1. "Talvez este tempo necessite de uma nova compreensão, de uma reelaboração do que é o livro e a leitura."
      Excelente análise do Pedro Sande, sobre os novos tempos e a leitura, infelizmente, tão real e tão verdadeira (o que me entristece, mas não podemos parar o vento com as mãos e, quer queiramos quer não, o mundo está sempre em mudança).

      Seve

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    2. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2018 às 05:04

      Totalmente de acordo!

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  4. Já vi dito que quem lê romances depois dos 40 anos é meio idiota: estava escrito no "El País" e assinado por um intelectual espanhol defendendo que a maturidade trazia a preferência por ensaios, biografias, e livros de investigação... e a rejeição dos juvenis tempos passados futilmente a ler romances e poemas. O prazer da literatura requer concentração prolongada e ausência de estímulos visuais, o oposto da atenção fragmentada e da fascinação pela imagem daqueles que estão sempre de smartphone na mão. Eles nem sabem o que perdem...

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    1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2018 às 05:09

      Uma opinião pouco esclarecida essa, a do El Pais.... acho eu!
      A partir de uma dada idade não trocamos os romances pelos ensaios, etc. O que sucede é que ALARGAMOS o nosso leque de leituras a esses tema, o que não significa que haja migração e nem substituição absoluta.
      Direi antes que ler romances em idades maduras, apenas nos torna mais exigentes e para isso existem sempre os clássicos e os grandes romances, os eternos! Que muitas vezes só lemos depois de maduros, por razões dessa mesma maturidade.

      Enfim... é o que penso pelo que converso com outros leitores e pela minha experiência pessoal.

      Saudações maduras cá do Bairro Ribatejano.

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  5. Continue, continue...que anda cá muito boa gente que gosta deles!
    Não tenho filhos ainda, mas em aniversários e natais corro todas as crianças (familiares, filhos de amigos, etc) a livros de histórias, livros educativos, enfim. Sento-me com os pequeninos a folhear os livros, a chamar a atenção deles para aquelas páginas tão cheias de vida e imaginação. Tal e qual fizeram comigo quando eu era pequena e foi assim que começou o meu gosto pela leitura. Nem sequer televisão havia na hora das refeições, quanto mais tablets e computadores... Os pais têm uma culpa gigante nisso e mais tarde vão questionar -se o porquê de os filhos não gostarem de ler ou chumbarem a português...

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    1. Sandra, os pais não devem obrigar os filhos a ler... Eles têm o seu próprio caminho.

      Sempre incentivei os meus filhos para a leitura (mais pelo prazer que obrigação...), mas noto hoje que é uma "batalha perdida". Os livros não conseguem "ganhar" ao poder da internet, via telemóvel ou computador...

      Vivemos um outro tempo, terá de haver adaptações, cedências...

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    2. O pior é que os pais (já) são iguais (ou piores).

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    3. Não disse que os pais devem obrigar os filhos a ler. Em nenhuma parte do meu comentário está isso. Mas acho que se os pais lerem e incentivarem os filhos a ler, por prazer - está claro - certamente é um passo para que eles sigam também esse caminho. Os pais deixam a televisão ligada na hora das refeições ou ligam o tablet para que os miúdos comam, não conversam, põem desenhos animados para os miúdos estarem sossegados... onde estão os livros no meio disso? Os miúdos não nascem a saber que existe internet ou telemóvel. Vêem os pais sempre agarrados às tecnologias e querem imitar. Acho que os pais têm, sim, um papel importantíssimo nos exemplos e incentivos que dão. Seja o tempo que for.

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  6. Ainda não percebi bem qual vai ser o futuro dos livros, Rosário.

    Reparo que a minha filhota (que lia muito na infância e gostava...), aos treze anos, já está noutra onda. Os últimos livros que leu para a escola fez alguma "batota" (não os leu integralmente, utilizou resumos para a sua apresentação...).

    Nós para lermos precisamos de tempo, de calma, de concentração, coisas que estão a desaparecer nos e para os humanos. Reparo por exemplo na forma rapidíssima como eles enviam mensagens ou conversam (de forma escrita) uns com os outros através do telemóvel (sei que utilizam muitas abreviaturas, mas deixa-me "banzado").

    É óbvio que eles não precisam tanto dos livros como a nossa geração (embora nós leitores, sejamos uma minoria - desde sempre -, a maior parte das pessoas da nossa geração e anteriores, não lêem livros...). Têm o mundo quase na mão...

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  7. Certo, voltemos a muita gente que tem sido desprezada: a tecnologia ao serviço do humano e não do lucro e da ganância e da estupidificação em massa.... Mas... a ficção que os editores agora publicam e promovem conduz a isso mesmo: à estupidificação...

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  8. Eu sei. Todos os leitores de livros sabem. E, olhe, Maria do Rosário, que ainda não me parece uma espécie em extinção, esta dos leitores. Seja como for, guardar sementes é bom. Tudo muda, mas tudo fica.

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  9. Provavelmente, muitos dos miúdos que hoje não leem, têm pais que também não liam, pelo que não há nada de novo nessa situação. Mas talvez esses pais só vissem concursos e telenovelas na televisão, e esses filhos, com o cabo, o streaming e a internet, vejam filmes, séries e outros conteúdos mais interessantes. E conheçam outras realidades. Nem tudo o que eles vêm e ouvem online é mau, também lá há livros, e pode-se absorver cultura dessa forma, hoje em dia. Compreendo a preocupação da Rosário com a edição dos livros, mas não digamos só mal dos écrans, sem sequer saber o que neles passa… Quanto ao alheamento da miúda de 3 anos, se não fosse com o MAC, provavelmente seria com outra coisa, um brinquedo por exemplo. Eu também me alheava muito em miúda, por acaso era com livros, mas se não tivesse nenhum à mão (nem papel e caneta), sonhava acordada… as pessoas não mudam assim tanto, o mundo que constroem à sua volta é que sim, mas nem sempre (ou nem tudo) para pior – mesmo que assuste quem a ele não esteja habituado. Há que ter um pouco mais de fé nestas novas gerações, acredito que vamos acabar por nos surpreender pela positiva.
    Filipa

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  10. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2018 às 05:29

    Não acredito que o livro desapareça!
    Quando muito muda é de forma, deixa de ser impresso em papel e passa ao formato digital. Mas o autor , o trabalho de edição, revisão etc. vão persistir nas novas formas usadas. A evolução pode até se rápida, pode nunca se dar completamente, mas suponho que o papel vai desaparecer nos próximos anos, mantendo-se como um nicho, para os puristas e os amantes do livro, que não apenas amantes da leitura!

    O importante é que continue a haver autores, mas tanto os autores quanto os editores (sejam eles tradicionais em papel ou futuramente digitais) terão de facto a grande responsabilidade de perceber o que é que os leitores, e as novas gerações, querem ler! O que gostam de ler!
    Aí sim, reside a questão, como muito bem disse o Pedro Sande!

    E, olhemos para a indústria cinematográfica que é quem dá cartas na actualidade e sabe como ninguém cavalgar a onda, como levar ou conduzir o público atrás de si. Sabe muito bem interpretar os sinais e dar ao público o que ele quer ver!
    Aprendam com eles, usem-nos!
    O melhor disto, é que a indústria do cinema tem por base a escrita. Já pensaram nisso?
    O escritor ao serviço do cinema, é um facto! Há obras de cinema / TV , extraordinárias que não são baseadas em romances mas sim escritas, criadas, para o cinema ou a TV.
    Estes últimos dias tenho papado séries fabulosas, escritas e muito bem escritas com diálogos e acção, respeito pela história até. Depois magistralmente interpretadas e muitíssimo bem filmadas... ele foi Hattfields and McCoys, os Templários, DC , A Fronteira... A guerra dos tronos, Vickings... um fartão! E tenho lido bastante ao mesmo tempo, sosseguem, aliás como podem confirmar no post "O que ando a ler".
    Séries com uma qualidade que me deixam de boca aberta, como os filmes das sagas de Tolkien ou do Harry Potter, entre muitos outros. Hoje fazem-se coisas belíssimas para o cinema, com efeitos inacreditáveis, e, como já disse, com recurso a escritores que produzem para a indústria cinematográfica!

    O livro, o escritor, jamais acabarão, assim como o editor, o revisor, o traductor... tal como o cavador e o boieiro deram lugar aos operadores de máquinas agrícolas, vão mudar é de ferramentas! Mas a enxada mantém-se, não há nenhuma exploração agrícola que não tenha na mesma enxadas, pás, forquilhas, ancinhos, machados...

    Saudações animosas cá do Bairro Ribatejano!

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  11. Imagine-se um diálogo entre uma mãe, pai ou avô(ó) com uma criança daquela faixa etária que a Rosário referiu e a propósito do livro " A tartaruga Celeste...":
    - Que lindo livro, já viste a capa- diz a mãe.
    Tem um menino e uma tartaruga.
    - É uma tartaruga?- pergunta a criança apontando para o animalzinho.
    - É o que diz aqui, mas parece diferente não é?- Olha e tem constelações.
    O que são constelações?

    Não sei o que vem primeiro, se a curiosidade se a imaginação.
    Entre as duas criam-se leitores, mas depois vem o tempo.
    O tempo de virar a página, o tempo de a ler e compreender.
    O tempo de ter tempo para...
    Às vezes penso se o cérebro humano não está a mudar ou já mudou.
    A rapidez com que tudo se processa, vai-nos tornando diferentes.
    Somos de uma maneira inicial, mais sensíveis aos estímulos sensoriais e só depois aos cognitivos. Daí a importância de contar histórias mesmo antes dos miúdos saberem ler.
    Defendo que os livros para a infância devem ser maravilhosos, encantatórios, para abrir caminhos.
    Se a nossa sociedade por um lado está instrumentalizada para o consumo rápido de tudo, onde nem se lê os livros dos autores mas os comentários dos autores ( ou aos autores) nas redes sociais. E isso basta, para ter uma pobre ideia da obra.
    Cada vez somos mais ter em vez de ser.
    Mas acredito que tudo é cíclico.
    O livro, formato papel pode vir a tornar-se um objecto de luxo, de colecionador até, o que de certa forma me entristece.
    Porque acho que neles vive para além das histórias, dos factos e das verdades científicas, o espírito humano.
    Mas passada esta onda de estupidificação, ler há-de tornar-se subversivo e como tal ficará na moda, outra vez.

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  12. Para a minha sobrinha que lê Harry Potter de noite, com uma lanterna e debaixo dos cobertores, para além da hora de estar acordada ou da autorização dos pais. Para ela.
    Para a minha sobrinha que lê tudo que lhe aparece (ainda não chegou ao Harry Potter) e que começa aos pulinhos, quando recebe como presente, um livro que constava do livro de portuguuês da sua 2ª classe. Para ela.

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