Portoguês

Não, não me enganei a escrever, nem errei por mera ignorância. A palavra não existe, mas faz parte do título de um dicionário à moda do Porto. Admirado? Não fique; a justificação até tem graça: um grupo de autores (portuenses, suponho) – Ana Cruz, Cristina Vieira Caldas e João Carlos Brito, todos ligados ao ensino – resolveu coligir mais de 1000 termos e expressões de calão da variante linguística dos falantes do Porto e traduzi-los para inglês, apresentando a sua tradução literal (que, segundo leio, dá um resultado risível na maioria dos casos), o seu significado e, por fim, as expressões equivalentes em inglês, com variantes para Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e Escócia. A obra intitula-se Dicionário PORTOguês-Inglês e os seus autores acreditam que contribui para a afirmação e a identidade do acervo linguístico dos portuenses, sendo ainda útil aos turistas que visitam a Invicta e que assim podem tomar contacto com a diversidade lexical do português falado na capital nortenha. O dicionário contém ainda capítulos sobre alimentação típica do Porto, bem como algumas histórias e, como não podia deixar de ser, um capítulo sobre futebol.

Comentários

  1. Ahahah!

    O Grande Porto... nem mais, e mais destas iniciativas haveria de haver!

    É a nossa cultura!

    O meu amigo Norberto Franco dedicou um estudo muito interessante às alcunhas de Amareleja - deve ser a capital mundial da alcunha!

    Saudações cá da Cidade Morena

    ResponderEliminar
  2. identidade do acervo linguístico dos portuenses

    Dicionário PORTOguês-Inglês ???

    Mas no Porto não se fala Português?

    Vem-me à lembrança aquelas pessoas do Porto que na sua conversação rotineira só dizem alhos e bugalhos e depois me dizem, desculpando-os, -no Porto é assim, falam muito mal- Mentira! Falam mal os que falariam mal em qualquer parte de Portugal.

    No Porto fala-se Português!

    ResponderEliminar
  3. Mesmo sem conhecer a obra, acho que devia ter outro título (mais comercial e atraente...).

    Até porque quer ir mais longe que qualquer dicionário, fala também das especificidades do Porto.

    ResponderEliminar
  4. Gosto bastante da ideia; é uma ferramenta útil para quem quiser escrever ficção sobre a cidade do Porto e desejar dar um toque de autenticidade ao texto com expressões próprias da zona. Eu que adoro dicionários e os folheio todos os dias, gosto sempre de ter à mão obras de consulta que me lembram da riqueza vocabular da Língua Portuguesa.

    ResponderEliminar
  5. Por acaso discordo dos meus Extraordinários Comparsas...

    Acho que o nome diz tudo, e muito claramente.
    Português do Porto, pois claro ... pois bem sabemos que o pessoal da Invicta tem uma forte personalidade e um sotaque bem marcado. Porque não este "dicionário" é uma boa mostra de que há espírito, humor... e não me parece que agrida ninguém, pelo menos a mim não!

    No resto, é muito provávelmente um exercício da cultura regional que está de boa saúde.

    Os palavrões, os célebres palavrões ... bem, são um facto indiscutível e um traço cultural fortíssimo, aliás comum e até mais enraizado entre os minhotos...
    Claro que na linguagem mais popular das camadas proletárias, castiças e nem tanto nas aburguesadas ou mais ilustradas, mas isso também a saloiada usa um vernáculo brejeiro que espero tenha sido levado dos mercados do Cais do Sodré, Ribeira e Rego para o MARL ... a menos que a fruta normalizada tenha acabado com isso também ...

    Saudações castiças cá da cidade morena!

    ResponderEliminar
  6. A minha iniciação ao portoguês, em 1969, foi mais ou menos assim:

    (...) No Chez Lapin tínhamos reservada a salinha de cima. Éramos umas vinte pessoas, encostámos as mesas todas e sentamo-nos em volta, uns dez de cada lado. Eu e o cicerone ficámos na extremidade, distantes da conversa dos colegas, de modo que fomos conversando entre nós e só demos pelo início da reunião quando, para cumprimento do ponto prévio da Ordem de Trabalhos, chegaram umas entradas variadas e abundantes, animadas por jarros de verde branco da casa. Desapareceram por milagre os meus preconceitos lisboetas acerca deste vinho. A animação era notória. Um dos nossos anfitriões levantou-se erguendo o copo e proferiu a sábia sentença: «Para coordenarmos a nossa luta temos de acertar a linguagem. Camaradas de Lisboa, aqui no Porto não temos “pastéis” de bacalhau; temos “bolinhos de bacalhau”! Que fique na acta! À vossa!»
    Entrou-se a fundo na Ordem de Trabalhos quando foi servido o prato principal: rodovalho grelhado. Era clara e notória a satisfação do pessoal relativamente ao rumo que a luta académica estava a levar. Tudo indicava que uma sólida estratégia seria definida aos cafés e digestivos. Antes disso, porém, o meu animado cicerone levantou-se e, erguendo o copo, ditou: «Brindemos ao dono da casa e nosso amigo Sr Coelho! E, para memória futura, proponho que fique registado na acta: “O rodovalho estava do caralho!”» Embora cambaleante, olhava-me fixamente, olhos nos olhos, entre o irónico e o desafiador. Pareceu-me que se fez silêncio. Ele insistia para mim: «Estava ou não estava?». No meu rosto ruborescido transpareceram num instante mil dúvidas, cem hesitações, dez anuências e, por fim, uma cedência. Numa fracção de segundo eliminei mais de metade dos preconceituosos adjectivos do pudor lisboeta que tinha trazido na bagagem – magnífico, excelente, notável, etc – e, condescendendo, pensei para mim: «Que se foda!». Levantei-me e, apoiado com a mão esquerda na mesa, ergui com a direita o copo na direcção do dono da casa e disse: «Estava…». Eliminei quase todos os restantes e acrescentei: «Estava sim, senhor Coelho…». Emborquei o copo e, com isto, pareceu-me que se reestabeleceram na sala os rumores das conversas.
    (...)
    Eu, ainda pouco exercitado nas lutas, estava a cabecear à mesa. O meu cicerone empenhava-se militantemente em manter-me mobilizado, percebendo que eu tinha já cedido em aspectos fundamentais, que tinha já quebrado alguns tabus e preconceitos relativamente ao Porto. «Porto, palavra exacta. Nunca ilude», disse ele. E o empregado de mesa, que andava a levantar os pratos, exclamou: «Pedro Homem de Mello, carago!»
    (...)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. AHAHAH!
      Grande Joaquim Jordão... apanhou a coisa!

      Um grande abraço aqui da Cidade Morena, onde chega o verde da Cooperativa de Monção, mas é limpo... não é o turvo servido a jarro, dito "de lavrador" e que sabiamente não se bebe gelado mas fresco quando muito ... também não há rodovalho, mas há outros peixes do melhor, também e dito de forma polida pois há senhoras (de Lisboa) nesta sala ...

      Ahahah! Ainda me estou a rir da sua descrição Extraordinária!

      Eliminar
  7. Acho interessante e apoio a ideia. E podia-se aplicar a outras partes do país, até porque muitas coisas se vão perdendo. Em Trás-os-Montes, por exemplo, já quase ninguém fala como no tempo da minha infância. Quando era mais pequenita, tinha muita dificuldade em entender a minha própria avó, era quase como se ela falasse uma língua estrangeira.

    Só acho muito ingénua a ideia de que este dicionário possa ser «útil aos turistas que visitam a Invicta e que assim podem tomar contacto com a diversidade lexical do português falado na capital nortenha». Para dar conta da «diversidade lexical» de uma certa região de um qualquer país é preciso saber muito bem essa língua! (Para já não falar de apreciar essa diversidade). Ou seja: só quem sabe bem português, pode achar piada e interessar-se pela variante tripeira.

    Se eu mostrasse aos "extraordinários" um dicionário desse tipo sobre a região bávara, por exemplo, tenho quase a certeza que ficariam totalmente indiferentes. Só quem soubesse alemão, saberia apreciá-la e/ou achar-lhe piada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Está-se a preservar o mirandês, tanto quanto sei, que já pode ser aprendido na escola e ainda conheço gente mais nova que eu que o fala...

      Idem para o barranquenho, e há pouco tempo na visita que fiz a Minde, à casa museu de Roque Gameiro, soube que o minderico está vivo e de saúde - se bem que este seja uma gíria e não um dialecto como os outros dois, mas está a ser tratado como um!

      Saudações para a Germânia, cá da Cafraria!

      Eliminar
    2. Sim, o mirandês tem-se aguentado e ainda bem :)

      A minha avó não falava nenhum dialeto, mas usava termos muito próprios de Trás-os-Montes. O pior, porém (o que mais dificultava a compreensão), era a pronúncia muito típica, que, em muitos aspetos, era parecida com a da Beira Alta, mas não igual! Os transmontanos fazem distinções que os beirões não fazem. Dizem, por exemplo, "meja" (para mesa), mas "cozinha", como todos nós dizemos (ou seja, fazem a distinção entre o "s" e o "z"). Também dizem "pacho" (para "passo"; não é bem "ch", mas pronto), mas dizem "laço", "ou maço" (fazem a distinção entre "ss" e "ç"). E dizem "tchouriço", mas "xaile". Também distinguem o "e" de "ela", do "é", com acento, dizendo êla.

      É muito interessante e podia dar outros exemplos, mas não me quero tornar maçadora.

      Saudações macedenses - que ainda cá estou ;)

      Eliminar
    3. E dizem: a cuomueída istá de se lhe tirar o "tchapéu"! Ahahaha!
      Há palavras que dão cãimbras nas língua quando as pronunciamos à moda deles...

      Aliás e como muito bem diz há semelhanças com a pronúncia de Viseu ...
      O pessoal serrano é muito parecido... tal como as próprias serranias graníticas!

      Saudações para Macedo ... já deve haver por aí castanha?

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco, "cuomueída" diz-se na região do Douro Oeste (Paiva, Baião, por aí). Tenho dúvidas se na Régua ainda será assim, talvez, confesso que não sei. Mas, avançando para leste, ou subindo em direção a Bragança (em Murça e Mirandela, já mesmo em Vila Real), não se verifica essa pronúncia. Por aqui, é mesmo "comida" ;)

      Castanha, ainda não há. Há amêndoa. E as vindimas começam, devagar...

      Eliminar
  8. Isto do politicamente correcto tem que se lhe diga...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório